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À esq., os novos amigos turcos Inan e Sevingu e a minha mãe, Cássia; à dir., meu pai, Luiz, o meu irmão, Vitor, e eu, num dos nossos últimos almoços em Istambul

Depois de seis dias em Istambul, deixei ontem a cidade.

Também ontem, os meus pais e o meu irmão voltaram ao Brasil. Ao longo de 30 dias, viajamos juntos pelo Egito, Israel, Jordânia, Grécia e Turquia.

Para quem estava viajando sozinho fazia quatro meses, passar as últimas semanas com pessoas tão queridas foi especialmente revigorante.

Adoro viajar só, e acho que certos tipos de viagem (como a pela África que narrei neste blog) devem ser feitos assim mesmo, sem companhia. Sozinhos, ficamos mais expostos, mais abertos para conhecer gente e experimentamos uma liberdade absoluta.

Mas também reconheço que, com a companhia certa, alguns tipos de viagem podem ser ainda mais enriquecedores, além de, ao seu final, transformarem-se num patrimônio conjunto.

Foi o caso dessa — como  já sabia que seria. Lembro que tinha 13 anos quando, com os meus pais e irmãos, passamos a viajar quase todos os anos com mochilas nas costas, dormindo em albergues.

Naquela época, o meu irmão Vitor tinha nove anos, e a minha irmã, Gabriela, 11. Mas isso não impedia que passássemos várias semanas na estrada, em longas jornadas de trem e ônibus. Ninguém reclamava, pois aquelas viagens eram os principais eventos do ano, sempre aguardadas com grande expectativa e planejadas com antecedência.

Agora que eles voltaram ao Brasil, vim a Budapeste me encontrar com outra pessoa muito especial: o Gady, amigo de longuíssima data que hoje mora em Barcelona e está aqui com o seu irmão, Yuri (que, por sua vez, é amigo do meu irmão desde o jardim de infância).

Ficarei aqui alguns dias antes de voltar a Istambul, sobre a qual ainda não falei nada pelo seguinte motivo: sinto que precisaria passar pelo menos um mês na cidade para ter uma dimensão correta do quão magnífica ela foi e continua sendo.

Mas como não terei esse tempo todo, primeiro lhes mostro algumas fotos da cidade e daqui a três dias, quando para lá voltar, tentarei condensar as minhas impressões e contar algumas histórias.

***

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A Mesquita Azul de longe…

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…de frente…

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…por dentro…

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…e em noite de lua cheia

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Vista do bairro Çemberlitaş

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A Hagia Sofia por fora…

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… e por dentro

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No jardim do palácio de Topkapı

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A ponte do Bósforo, que liga Ásia e Europa, vista pelo lado europeu

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 O palácio Beylerbeyi 

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 O jardim do palácio; acima, a ponte do Bósforo 

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A igreja de Kariye Camii 

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A ponte Galata

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Capadócia

08/07/2009

Se, após ver as fotos abaixo, alguém tiver uma sensação de déjà vu, não se preocupe: é que os mundos continuam a se misturar.

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Trigal

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Camponês

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O vulcão Erciyes

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Arredores de Goreme

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O museu a céu aberto de Goreme

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Mosteiro 

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Interior de igreja esculpida na rocha

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Goreme

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No trem entre Ancara e Kayseri

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Gota de sol

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 O crepúsculo no trem

Não contei aqui sobre um dos pontos mais altos da minha viagem: quando, em março, em Maputo, entrevistei o escritor Mia Couto — cuja obra costuma ser comparada, no Brasil, à do Guimarães Rosa.

Por uma hora, conversei com ele, entre outros temas, sobre a relação da África com o mundo, o cinismo que houve na comemoração da eleição do Obama no continente africano, o falatório gerado pelo acordo ortográfico nos países lusófonos e como moçambicanos e angolanos lidam com a sua antiga metrópole, Portugal.

Editar esse material provou-se quase impossível, já que, como notarão, em momento algum o Mia deixa de apresentar pontos de vista instigantes e originais sobre os assuntos propostos.

***
O continente africano está vivendo o ciclo de crescimento econômico mais vigoroso desde o fim da era colonial. Entretanto, há casos notáveis de retrocesso, como o do Zimbábue, e vários outros países, como o Congo Democrático e o Sudão, vivem grande instabilidade política e social. No geral, a África está avançando?

MIA – Sim, o problema é que não se sabe para onde, qual é a direção desse progresso – progresso entre aspas. A África tem 30, 40 anos de independência e, feito um balanço, não se sabe se houve um crescimento. No conjunto, provavelmente sim, não sou da tribo dos “afropessimistas”. Mas vive-se hoje em grande parte do continente africano pior do que se vivia no tempo colonial.

A relação da África com o mundo não mudou e continua sendo uma relação colonial – nem sequer vale a pena chamá-la de neocolonial. A África não pode mais se entregar às mãos dessas elites que são predadoras e vorazes no consumo da riqueza, no que também não houve uma mudança. A África sempre teve uma relação em que elites minoritárias vendiam todos os recursos para o exterior. O que houve foi uma espécie de passagem de testemunho, uma mudança de turno, e só.

Como contrapor essas elites num continente em que praticamente não há classe média?

MIA – Imagino que surgirá uma pequena classe média a partir de conflitos internos. A África não é diferente do resto e sempre evoluiu por motores internos. São conflitos que estão surgindo hoje e são visíveis por exemplo aqui, em Moçambique, e na África do Sul, onde, além daquilo que são as forças históricas de contraposição política, estão surgindo outras. Há qualquer coisa nova no panorama em que a divisão não é mais aquela herdada do pós-independência, em que há os heróis libertadores de um lado, intocáveis, e do outro aqueles tidos como saudosistas do passado colonial.

Os confrontos em Maputo no ano passado causados pelo aumento do preço dos transportes e que resultaram em quatro mortes mostram que o país tem uma bomba-relógio nas mãos?

MIA – Sim. Para explicar o que houve, o governo recorre à teoria da conspiração: há uma mão organizou aquele movimento com intenções malévolas. Do ponto de vista da realidade social, isso corresponde a uma profunda insatisfação. As pessoas entraram em choque de incompatibilidade com esse sistema de funcionamento, de administração da sociedade.

Como fazer com que o país mantenha o ritmo de crescimento e reduza as tensões sociais?

MIA – Darei a pior resposta, porque, sendo escritor, tenho muito pouco a dizer sobre o assunto. Mas acho que o que mais falta faz é criar um pensamento produtivo. Perceber que esse discurso de culpabilização do outro, de invenção de inimigos, está gasto, sem perceber que é preciso encontrar caminhos novos, que é preciso encontrar uma outra maneira de construir a economia. Esse é o grande desafio.

Com a crise econômica mundial, o discurso sobre a importância do Estado na economia ganhou força no mundo todo, e em Moçambique o presidente Armando Guebuza disse que é preciso evitar que Moçambique se globalize. Isso não é nocivo para um país que, aos poucos e com sucesso, vinha abrindo a sua economia?

MIA – Acho que Moçambique não notou grande diferença porque nunca saiu desse discurso dirigista. Passou de um socialismo para um capitalismo de Estado, digamos assim, em que há uma enorme promiscuidade entre assuntos do Estado e negócios pessoais.

Moçambique tem sido considerado um “caso de sucesso” por muitos organismos internacionais, por ter conseguido conciliar abertura política com desenvolvimento econômico. Esses elogios não fazem mal ao país?

MIA – Fazem muito mal. Enquanto não houver razões endógenas para estarmos felizes conosco próprios e sermos confrontados com o modelo que nós próprios criamos, seremos os bons rapazes, mas da festa dos outros.

Na reunião da União Africana (UA) em fevereiro, o ditador líbio Muammar Gaddafi foi mais uma vez o centro das atenções com a sua defesa da unificação política imediata do continente. Qual o mal que atitudes e lideranças como essas causam ao continente?

MIA – Acho que isso tudo é uma obra de fachada. Nenhum país africano tem crença na UA a ponto de abrir mão da sua posição no mundo. A UA serve como um patamar para que a maior parte das elites dirigentes da África possa ter alguma posição de consenso, algum ponto de força, mas, de resto, ninguém acredita nela. É mais uma obra de teatro a que eu, como escritor, tiro o chapéu.

E a complacência em relação ao ditador do Zimbábue, Robert Mugabe? Até onde vai a lealdade da classe política dos países vizinhos, Moçambique incluído?

MIA – É preciso que novas gerações, como em Botsuana, surjam. Pessoas que não estejam ligadas a esse tipo de laços históricos, a compromissos pessoais que prejudicam todo o resto. Essa gente se conhece toda, são amigos, fazem parte de um clube. E mesmo que tenham divergências políticas, nunca vão o declarar publicamente. Há aqui uma espécie de sabedoria palaciana. Alguns terão vontade de criticar, porque acham que a posição do Mugabe é insustentável, mas há outros que o admiram, embora não tenham a coragem de dizer, como alguém que teve coragem de bater o pé contra os ricos, o Ocidente. E há um grande desconhecimento sobre a situação interna no Zimbábue. A ideia é que tudo isso que chega é terrível, mas não é verdade, foi fabricado pelo Ocidente.

E Moçambique? Aqui ainda é forte o discurso de atribuir aos outros o atraso do país?

MIA – Moçambique teve um percurso diverso. O discurso de demagogia está presente, mas não é predominante. Hoje já há uma apreciação de que é preciso buscar as responsabilidades dentro. Mas isso foi fruto de muita briga na sociedade civil, para que os dedos que estavam apontados para fora fossem apontados para dentro.

Como é a relação de Moçambique com Portugal? Em Angola, a outra grande ex-colônia portuguesa na África, jornalistas portugueses foram impedidos de cobrir as últimas eleições, em 2008, acusados de participar de um complô contra o país…

MIA – Isso tem a ver com questões que não são só políticas. Lembro-me de uma vez em que estive em Angola e, numa mesa de 20 angolanos, todos negros, perguntei como se dizia feiticeiro numa língua nacional angolana – queria saber as semelhanças com as palavras usadas nas línguas moçambicanas. Ficou um silêncio gelado. Nenhum deles sabia falar uma língua de Angola, exceto o português, que também é uma língua angolana. Aquele silêncio congelou-me e de repente começaram todos a explicar que não se sentiam verdadeiramente africanos. Era uma coisa quase, digamos assim, psicanalítica. Era preciso encontrar uma explicação de sua angolanidade. E isso tinha a ver com a necessidade de marcar Portugal por uma via ainda de briga, de afirmação.

E em Moçambique, isso não ocorre?

MIA – Não. A relação da língua que citei não é inócua. A língua é uma forma de estar no mundo, é uma relação consigo própria. Grande parte dos dirigentes angolanos não fala nenhuma língua bantu. Já os dirigentes moçambicanos sabem e têm uma relação diferente com isso, resolvida. Resolver essa relação com o português enquanto língua passa muito por resolver a relação com o português enquanto povo. Aqui, a questão não está completamente resolvida, claro, mas os portugueses são para nós como os franceses, os ingleses…

Lembro-me de amigos brasileiros cá em Moçambique que foram ver um jogo entre Brasil e Portugal. Eles esperavam que os moçambicanos fossem torcer pelo Brasil, afinal Portugal foi o colonizador. Mas não, torceram para Portugal. Não acho que seja nem bom bem mau, mas há uma relação livre com isso.

No Brasil, muito pouco se sabe sobre Moçambique. A recíproca vale?

MIA – Não. Os moçambicanos têm aquele complexo de ilhéu, como se vivessem numa ilha, e portanto voltam-se ao mundo. O moçambicano médio, que tem escolarização baixa, sabe do Brasil o que os brasileiros não sabem sobre Moçambique, mesmo os brasileiros acima da média.

Embora a relação do Brasil com os outros países lusófonos seja distante, com a exceção talvez de Portugal, o acordo ortográfico teve uma repercussão enorme no país. Como acompanhou a questão?

MIA – Faz parte da nossa cultura, enquanto países lusófonos, enquanto família, celebrar as coisas dessa maneira: ou em carnaval, em grandes festas, ou em dramas existenciais, coisa que nem os francófonos, nem os anglófonos têm. Estamos sempre a indagar: será que existe a lusofonia? É uma coisa quase paradoxal: existimos na medida em que duvidamos da nossa própria existência e investimos nessa polêmica. O que vale é que, para além disso que é o lado oficial da lusofonia, há outras coisas que acontecem e que estamos a discutir aqui, como o como o fato de os moçambicanos se informarem sobre o Brasil, a ligação histórica entre os países…

Acho que essa polêmica em relação ao acordo foi muito insuflada pela parte portuguesa – os países africanos nunca fizeram grandes questionamentos. Também acho que é preciso justificar tão intensamente a razão de ser desse acordo ortográfico que, logo à partida, já tenho dúvidas se algo que precisa ser tão justificado tem alguma razão de ser. O triste é que se deu tanta importância a essa discussão e outros debates essenciais e que têm a ver com a nossa ligação mais profunda ficaram à margem, e assim vão continuar.

Depois de irem para Angola, as empresas brasileiras começam a chegar a Moçambique – a Vale e a Odebrecht recentemente anunciaram investimentos no país. Será que essas relações comerciais podem aproximar os dois países?

MIA – Acho que sim. Essas companhias vêm para cá para fazer negócios, mas elas se apresentam como tal, não têm uma fachada de cooperação, de troca de amizade. São relações comerciais, empresariais, mas que por arrasto trazem outras coisas, como brasileiros trabalhando em Moçambique ou em Angola, moçambicanos trabalhando nessas companhias, e assim surgem coisas em paralelo.

Acredito mais nesse tipo de relação do que em qualquer outra. O resto é sabotado por intenções políticas, é fabricado como uma bola de sabão.

Qual a sua opinião sobre a crescente presença chinesa na África?

MIA – Não vejo isso como um problema. Devia era haver chineses, indianos, brasileiros, vários povos cumprir a nossa vocação. Já que temos de ser colonizados por uns, seremos por todos.

Mas não acha que a troca com a China, em particular, é nociva na medida em que não resulta em transferência de tecnologia?

MIA – Isso, sim. Os chineses têm dessas atitudes. Na área ambiental, que é a minha, não existe nenhum cuidado nem pressuposto… é um paradigma que está ausente. Existe também uma dificuldade, que faz parte da história dos chineses – os chineses nunca tiveram esse tipo de relação com outros povos –, e com eles troca-se muito pouco. Há outra coisa perigosa, que é a posição mais pragmática em relação regimes políticos. Não lhes interessa o regime político que há em África. Mas, na verdade, a posição seletiva do Ocidente sobre quem são os bons e os maus é um critério muito falível. Achavam maus os dirigentes da Guiné Equatorial até se encontrar petróleo – de repente, já eram bons rapazes. Mas, de resto, os chineses têm uma cultura de trabalho que pode nos ser útil.

Quando o Obama venceu a eleição nos EUA, você escreveu um artigo dizendo que ele jamais seria eleito num país africano (porque, entre outros motivos, ele não seria considerado um “africano autêntico”, por ser mulato e filho de imigrantes). Acha então que a vitória dele foi exageradamente comemorada no continente?

MIA – O artigo que escrevi para um jornal em Moçambique não estava a falar do Obama em si, mas dos regimes africanos, e contra esse cinismo de celebração do Obama. O principal fator pelo que o Obama é celebrado – a questão racial – foi construída. De repente, o Obama aqui já era negro. Em Moçambique, e na maior parte dos países africanos, na rua, ele seria um mulato. Mas havia uma necessidade de construir um ídolo. Obviamente ele vai desencantar esse tipo de pessoa que investiu nele – como fez até o Mugabe, ao dizer que “finalmente um irmão chega ao poder”. Para essas pessoas, ele vai passar de herói a vilão num clique de dedos.

A identidade de alguém é definida pela cor da pele, por relações de natureza genética, ou pela sua própria história individual? No caso do Obama, todos sabemos que ele é muito pouco ligado à África. Ele é filho de um africano que se desligou, de um imigrante americano. Isso foi esquecido, posto à margem para a celebração, o que também mostra que há um sentimento de falta de auto-estima, uma necessidade de ter projeção em pessoas, ídolos, que continua a ser muito forte na África.

A África é provavelmente o lugar do mundo em que a telefonia celular mais transformou a sociedade — até porque, em muitos lugares do continente, ela chegou antes que a telefonia fixa. E em países como o Quênia e a Tanzânia, os celulares já são usados para fazer transferência de dinheiro, mesmo por camponeses. Você acompanha essa revolução tecnológica?

MIA – Tenho uma relação muito difícil com o celular – fui o último da família a tê-lo, porque achava que perderia a minha privacidade e não queria depender de uma máquina. Mas percebo que, do ponto de vista social, é uma espécie de instrumento de democratização, que de fato mudou a vida de muita gente. É preciso pensar que num país onde as pessoas não se comunicam, onde tudo é distante, de repente tudo se tornou mais próximo. Há aqui uma porta, um canal de unificação, que coloca o rico e o pobre em pé de igualdade perante essa possibilidade de se comunicar. É fantástico.

À primeira vista, Ancara, a capital da Turquia, lembra uma cidade europeia moderna.

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Mesmo os seus moradores parecem ter mais em comum com cidadãos europeus do que com os habitantes das cidades do mundo árabe que já visitei – embora, como os últimos, sejam em sua grande maioria muçulmanos.

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Um olhar mais cuidadoso, entretanto, revelará que Ancara não é uma cidade europeia. Ou melhor, que ela é sim uma cidade europeia, mas também uma cidade asiática.

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A mesquita de Kocatepe…

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…e a Cidadela

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A impossibilidade de enquadrar Ancara – e, por extensão, a Turquia – no Ocidente ou no Oriente me deixa angustiado. É como se aqui pisasse num terreno onde as regras não são claras, onde os papéis não estão bem definidos.

Porém, ao mesmo tempo, parece-me que o caminho para entender este país requer deixar de lado definições estanques como essas, que mais estreitam a nossa visão do que nos servem de referência. 

Afinal, a Turquia está entre a Europa, a Ásia e a África, e o seu povo é herdeiro de civilizações que se estendiam por todas essas terras. Vale lembrar que a sua maior e mais conhecida cidade, Istambul, é a única do mundo a ter sido sede de três impérios (o Romano, o Bizantino e o Otomano), cada um com características singulares.

“Turquia é uma aproximação”, disse-me hoje um jovem tradutor que conheci em Ancara, referindo-se à imprecisão que atribuir um único nome (Turquia) a estas terras implica.

Pouco antes, ele havia dito, todo orgulhoso, que “Platão nasceu aqui” – e a afirmação faz todo sentido se lembrarmos que os estados-nações são uma invenção recente, e que até pouco tempo atrás os territórios que hoje pertencem à Turquia e à Grécia (onde Platão de fato nasceu) eram uma coisa só.

No meu último texto, questionei se a Grécia tinha razão em reclamar o patrimônio da grandiosa civilização que aflorou naquelas terras. Referia-me à disputa que os gregos travam com os ingleses para reaver esculturas que originalmente embelezavam o Partenon, em Atenas, e que hoje encontram-se no Museu Britânico, em Londres.

Claro que a Grécia terá argumentos que, à luz da leitura histórica que se costuma fazer em conflitos desse tipo, a apontarão como injustiçada. Não ignoro esses argumentos e estou de acordo com eles.

Mas também me parece que os gregos se apequenam e ignoram a História ao reivindicar a posse de obras representativas de uma civilização da qual todos, ou ao menos todos do Ocidente, somos herdeiros.

Nos últimos 20 dias, pisei em três continentes: África, Europa e Ásia. Ao contrário do que poderia se supor, nesses deslocamentos, o que mais tem me impressionado são os pontos em comum entre os lugares, e não as suas diferenças.

O que me faz questionar o peso que vinha dando, até então, a conceitos como nação, Ocidente, Europa, Ásia…

Definitivamente, não poderia haver momento mais oportuno para chegar à Turquia. Aqui, mundos que supunha incompatíveis diluíram-se de vez.

A briga do momento no mundo das artes é a seguinte: há dez dias, foi inaugurado no centro de Atenas o Novo Museu da Acrópole, um prédio bacaníssima, moderno e todo envidraçado.

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Como o seu nome diz, ele foi criado para abrigar as obras de arte que adornavam a Acrópole – no caso, a Acrópole grega original, em Atenas, onde fica o Partenon, templo erguido em homenagem à deusa Atena.

Ora, como boa parte das esculturas que pertenciam ao Partenon hoje está no Museu Britânico, em Londres, os gregos estão doidos exigindo a volta das peças.

Os britânicos respondem que adquiriram as esculturas de forma legítima – foram compradas da Grécia em 1816, quando o país estava sob o domínio otomano – e que não vão devolvê-las coisa nenhuma. E acrescentam que lá, no Museu Britânico, mais gente tem condições de vê-las – afinal, trata-se do segundo museu mais visitado do mundo, só atrás do Louvre, em Paris.

A briga não é tão nova assim: em 1981, a então ministra grega da cultura começou um movimento pela devolução das esculturas. Na ocasião, os britânicos disseram que a Grécia não dispunha de museus adequados para alojar as obras.

Só que agora, com o Novo Museu da Acrópole, o argumento não vale mais. Num gesto encarado como uma provocação pelos britânicos, os organizadores do novo museu deixaram um lugar vago na área em que expõem cinco das seis cariátidas (estátuas de mulheres que serviam de base para um dos templos da Acrópole): a sexta escultura está em Londres.

Estive no novo museu há dois dias e o achei extraordinário. Europeus de todos os cantos se amontoavam nos salões.

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Enquanto isso, no topo do morro à frente do museu, o Partenon é reformado, noutra tentativa dos gregos de mostrar ao mundo que eles têm, sim, condições de preservar o seu patrimônio.

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Mas será que as obras devem mesmo ser devolvidas?

Será que o patrimônio da civilização helênica só pertence aos gregos?

O que será que Platão e Sócrates achariam dessa disputa?

“O mar, a doçura do outono, ilhas banhadas de luz, véu diáfano de garoa miúda que cobria a nudez imortal da Grécia. Feliz, pensei eu, do homem a quem o destino permitiu, antes da morte, navegar pelo mar Egeu.”*

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O Egeu

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Mitilina, na Ilha de Lesvos

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Molivos, Lesvos

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Mitilina

*Trecho de “Zorba, o Grego”, de Nikos Kazantzakis. A obra, uma das minhas leituras mais inspiradoras dos últimos tempos, me acompanha desde o começo desta viagem, quando não sabia que acabaria passando pela Grécia e pelo Egeu.

Em Jerusalém, o que hoje é um templo sagrado para o Islamismo ontem pode ter sido um templo sagrado para o Cristianismo e anteontem, para o Judaísmo.

Em Jerusalém, as histórias das três grandes fés monoteístas se confundem. E no entanto, nenhum lugar do mundo foi tão disputado por elas.

Hoje, a população de Jerusalém é dividida entre judeus e muçulmanos — há pouquíssimos cristãos–, mas são os judeus quem dão as cartas.

Como a cidade está sob o controle de Israel, um país rico e ocidentalizado, monumentos históricos convivem lado a lado com outdoors e lojas de grife.

Apesar do domínio judeu, as mesquitas continuam em Jerusalém, assim como os muçulmanos — que, entrentanto, são tratados como estrangeiros, já que não têm direito à cidadania israelense, mesmo que nascidos na cidade.

A disputa, como todos sabem, e como os milhares de jovens israelenses armados espalhados pelas ruas não nos deixam esquecer, está longe de ser resolvida.

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Igreja perto do portão de Jafa

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Muro das Lamentações

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A cidade murada

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A via Sacra

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Jovens soldados na entrada do museu de Israel

Já não muito longe dali, em Tel Aviv, a história é outra.

Relativamente jovem, a cidade recebeu enormes levas de imigrantes judeus antes e após a criação de Israel. Mas diferentemente do que costuma ocorrer quando cidades incham muito rapidamente, Tel Aviv conseguiu crescer de forma equilibrada.

Para isso, contou com o talento de alguns imigrantes recém-chegados da Alemanha: arquitetos e artistas judeus seguidores da escola Bauhaus.

Perseguidos pelo regime nazista, eles encontraram em Israel condições para pôr em prática as noções que haviam acabado de aprender. Em Tel Aviv, construíram 4.000 edifícios conforme os ideais da Bauhaus, que pregava a ausência de ornamentos e a harmonia entre a função de um prédio e o seu design.

Hoje, a Cidade Branca, como ficou conhecida a região que concentra a maior parte desses edifícios, é considerada pela Unesco um patrimônio da humanidade.

Mas o charme de Tel Aviv não se deve só à sua arquitetura. A cidade está à beira do Mediterrâneo e é uma das mais verdes que já visitei.

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Enquanto em São Paulo o nosso governador — e possível futuro presidente do Brasil — decidiu acabar com os jardins da Marginal Tietê para construir novas pistas para automóveis (qual será o próximo passo? Cobrir o rio?), em Tel Aviv o asfalto tem dado lugar a jardins e ciclovias.

Por isso, caro governador, deixo aqui um apelo: antes de acabar com as poucas árvores que nos restam, dê um pulo em Tel Aviv.

Estou em Tel Aviv, Israel. E eu preciso falar de Tel Aviv, uma cidade extraordinária que já entrou para a minha lista de favoritas.  

Também preciso falar de Jerusalém, que ficou para trás.

Para falar das duas, porém, tenho de mostrá-las.

Mas o computador em que estou não tem a entrada USB para que eu puxe as fotos da minha câmera. Ele também não deixa que eu salve imagens da internet.

Como estamos no shabat (pois é sexta-feira e já anoiteceu), dificilmente encontrarei outro cyber café aberto em Tel Aviv até o pôr do sol de amanhã, quando tudo volta ao normal.

Amanhã, porém, não estarei mais aqui, e sim na Grécia, que entrou no roteiro no lugar da Síria.

Para que o blog não fique às moscas até que volte a escrever, deixo dois links com fotos que tirei em Angola quando morava lá.

Este mostra as fotos de uma viagem que fiz ao Kuando Kubango, a província mais isolada do país (e que sofreu muito durante a guerra).

E este mostra o Roque Santeiro, o maior mercado de Angola (cujo nome homenageia a novela brasileira).

Jordânia

24/06/2009

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Espremido entre Israel, Arábia Saudita, Iraque, Síria e Líbano, o reino da Jordânia impressiona por sua estabilidade e progresso recente. 

Sim, reino – desde que se tornou independente, em 1946 (dois anos antes da criação de Israel), a Jordânia é comandada por uma família real que diz ser descendente do profeta Maomé, o pai do Islamismo.

É verdade que, nos seus primeiros anos de existência, o país andou se metendo em confusão: em 1967, associado à Síria e ao Egito, travou a Guerra dos Seis Dias contra Israel. O resultado foi humilhante para os países árabes: o Egito teve o Sinai ocupado; a Síria, as colinas de Golã; e a Jordânia perdeu o controle da Cisjordânia e da parte oriental de Jerusalém (os dois últimos territórios, habitados majoritariamente por palestinos, jamais seriam recuperados).

Desde então, 27 anos se passariam até que, em 1994, a Jordânia assinasse a paz com os israelenses, o que a tornou a primeira nação do Oriente Médio a reconhecer o estado de Israel. A ação foi condenada pelos países árabes vizinhos, mas permitiu que o reino enfocasse um agressivo programa de liberalização econômica.

Paralelamente, a Jordânia também passou a tolerar uma maior abertura política – em 1992, os partidos politícos foram legalizados e, em 2007, houve eleições parlamentares e municipais.

 No campo econômico, os sinais de prosperidade são visíveis a quem visita Amã, a capital jordaniana.

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Há numerosos condimínios de luxo em construção na periferia da cidade, onde já abundam shopping centers e restaurantes chiques. A abertura econômica vem influenciando os costumes dos jordanianos – nas ruas de Amã, é possível encontrar várias muçulmanas com trajes ocidentais e os cabelos expostos.  

Já no campo político, ainda que tenha feito progressos, o país continua nas mãos da família real. Como nas piores ditaduras africanas, há fotos do rei Abdallah, o líder supremo do país, em todos os cantos: ele com uniforme militar e ar sério, ele ao lado do pai, o falecido rei Hussein, ele sorridente, com os filhos…

Turistas que passarem pela Jordânia inevitavelmente viajarão pela Estrada do Rei (sim, ela é chamada assim mesmo), que liga Amã a Petra, a principal atração do país.

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Cidade do tempo dos egípcios, Petra tem uma peculiaridade: foi interiamente esculpida em rochas. E não, não estamos falando de simples cavernas.  

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Só faço um alerta a quem for visitar a Jordânia: a menos que você aceite passar quatro horas entre filas, revistas e postos de controle (com direito a evacuação por ameaça de bomba), em hipótese alguma cruze a fronteira do país com Israel na ponte Hussein, perto do Mar Morto.

E eu reclamando das duas horinhas de questionários na fronteira entre Israel e o Egito…

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Eilat, Israel

Foi com grande expectativa que, na companhia da minha família, deixei o Egito rumo a Israel. Embora eu não seja judeu – ainda que muitos pensem o contrário –, tenho fortes laços com a comunidade judaica em São Paulo e um profundo respeito por suas tradições e causas (o que não significa, que fique claro desde já, que concorde com a política atual do estado israelense).

 

O meu primeiro contato com a cultura judaica se deu quando, bem pequenininho, os meus pais me matricularam no Renascença, um colégio em Higienópolis (bairro em São Paulo com numerosa população judaica) frequentado quase que unicamente por judeus – e o que era mais próximo da minha casa, daí a escolha por ele.

 

Minha mãe conta que, depois que passei a estudar lá, às sextas-feiras, quando começava a entardecer, eu a avisava: “mamãe, shabat!” – referindo-me ao dia da semana sagrado para os judeus, o sábado.

 

Os anos se passaram, deixei o Renascença, mas a minha relação com a comunidade judaica só aumentaria, graças aos amigos que fiz no colégio Rio Branco – cuja maioria tem sobrenomes do tipo Brodsky, Saiovici, Shaffa, Grusnpum …    

 

Convidado por eles, passei a frequentar aos finais de semana o clube A Hebraica, um condomínio de lazer da comunidade em Atibaia (interior de São Paulo) e até jantares promovidos pela colônia para que jovens judeus socializassem.

 

Nesses anos todos, acostumei-me a ouvir expressões como bar mitzvah (a cerimônia que marca a passagem, para os  meninos, da infância para a vida adulta; já as meninas têm o bat mitzvah) e palavras como shalom, pessach, quipá…

 

Por tudo isso, imaginava que deixar o lado egípcio da fronteira e adentrar o israelense seria como voltar ao meu bairro, à minha escola. Mas, na verdade, a minha sensação foi a de chegar a um acampamento de férias – tanto porque o lado israelense da fronteira é todo organizado, bonito,  quanto porque os oficiais israelenses se pareciam fisicamente com os monitores dos acampamentos de férias que eu frequentava no Brasil!

 

Todos muito jovens (não mais do que 20 e poucos anos), todos bem nascidos, todos sorridentes. As mulheres, grande maioria – ou meninas, já que muitas não deviam ter mais de 20 anos –, tinham cortes de cabelo da moda e usavam maquiagem.

 

Os rapazes tinham óculos escuros Ray Ban, vestiam camisetas dry fit e carregavam M16s com enorme naturalidade. Todos, meninos e meninas, cumprindo com afinco o serviço militar obrigatório de Israel (eles cumprem por três anos; elas, por dois).

 

Jovens, porém rigorosos. Entrar em Israel, como já imaginava, implica passar por uma série de detectores de todo tipo, e toda bagagem é revistada com cuidado.

 

Até aí tudo bem. O problema foi quando tive de mostrar o meu passaporte – a uma policial de no máximo 22 anos – e descobriram que estive recentemente no Sudão, um inimigo declarado de Israel.

 

A moça, que falava inglês perfeitamente, como todos os outros, endureceu o tom de voz:

 

– O que você foi fazer no Sudão?

– Turismo.

 

A resposta não colou, e então tive de explicar que havia feito uma longa viagem pela África por terra e que, entre a Etiópia e o Egito, tinha um Sudão no meio do caminho.

 

Para piorar a minha situação, pedi a ela que não carimbasse o meu passaporte (já que qualquer vestígio de entrada em Israel nele me impediria de visitar quase todos os países do Oriente Médio). Muitos viajantes fazem esse pedido, e quando isso ocorre os oficiais costumam carimbar uma folha à parte.

 

Mas como eu acabara de passar pelo Sudão, notei que aquele pedido depôs ainda mais contra mim. Fui então encaminhado a uma salinha, onde uma outra policial (também 20 e poucos anos, mas um tipo mais durona) começou a me interrogar sobre o meu paradeiro.

 

Percebi que, de tempos em tempos, ela refazia, com outras palavras, alguma pergunta que já fora feita – para ver se eu me contradizia, acredito.

 

Ao fim do questionário, quando os meus pais e o meu irmão já me aguardavam do lado de fora, tive de esperar por duas horas numa cadeira até que todas as informações que eu acabara de dar fossem checadas pela inteligência israelense.

 

Não, eu não era um terrorista, e assim tive a permissão para entrar no país – e ainda por cima sem o carimbo no passaporte (infelizmente, a minha mãe bobeou e deixou que carimbassem o dela, o que fez com que tivéssemos de tirar a Síria do nosso roteiro).

 

Saí do acampamento de férias, o posto fronteiriço israelense, para entrar num resort  caribenho – a cidade de Eilat.

 

Algumas horas em Eilat já dão uma boa dimensão do nível de desenvolvimento de Israel.

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À beira do Mar Vermelho, a cidade é uma Riviera de São Lourenco (a praia da moda para a elite paulistana – ou isso já mudou?) 10 vezes maior e 10 vezes mais rica. As calçadas são limpíssimas, os hotéis, moderníssimos, os carros param para que os pedestres atravessem, e os garçons e vendedores são educados e bem treinados.

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Como Eilat fica pertinho de Petra, na Jordânia (da qual falarei no próximo post), resolvemos deixar para visitar Jerusalem e Tel Aviv  depois.

 

Ou seja, terei de atravessar a fronteira de Israel outra vez – algum palpite de quantas horas de espera enfrentarei  dessa vez?

 

Ah, se eles soubessem que, com quatro anos de idade, eu até rezava em hebraico…