Estamos juntos

22/07/2009

De volta a Joanesburgo, onde tudo começou. Só que agora faz um frio danado na cidade. Este parque, que tinha a grama verdinha quando estive aqui há cinco meses, ficou assim:

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Joanesburgo já não me intimida tanto. Sei que ela é perigosa e que não devo ficar dando sopa depois que escurece. Mas também acho que poucas cidades no mundo têm parques tão bonitos, e quase nenhuma ostenta no currículo um feito do porte de ter comandado o levante contra o apartheid.

Arrepio-me só de pensar nas marchas em Soweto (cujos vídeos são exibidos no Museu do Apartheid, aqui na cidade), as multidões correndo com os punhos elevados, enfrentando uma polícia armada de tanques.

Joanesburgo merece, portanto, no mínimo respeito.

Amanhã deixo-a rumo ao Brasil. Para falar do que estou sentindo às vésperas da minha volta, tenho que contar dos meus últimos dias em Maputo.

Maputo foi a cidade de que mais gostei em toda a minha viagem. Não porque é a mais bonita, nem porque tem os melhores restaurantes ou bares, nem o povo mais amistoso.

Mas porque, para mim, ir a Maputo foi como conhecer um irmão depois de adulto.

Não tenho mais pernas, e mesmo assim andei horas e horas pela cidade,  arrastando-me. Parava nos mesmos cafés em que estive há cinco meses, pedia as mesmas coisas (um café, um palmier, uma Água das Pedras Salgadas — exatamente o que costumava pedir nos cafés em Luanda), reparava nos mesmos detalhes das casas e dos prédios que haviam me encantado, como se quisesse reviver a emoção dos primeiros dias da minha viagem.

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Até que, subitamente, fiz uma constatação que naquele momento me pareceu um tanto quanto dolorosa: nenhuma viagem pode jamais ser repetida.

Em todo caso, a exemplo do porquê da minha ida a Budapeste, decidira passar alguns dos últimos dias da minha viagem em Maputo não por causa da cidade, mas porque um amigo valiosíssimo que fiz em Angola agora vive lá: o Zé.

Sabia que encerrar uma viagem como esta não seria simples, e pensei que encontrá-lo me ajudaria a me preparar para a volta. E agora, no meu último dia na África, apesar de não morar no Brasil há um ano e meio e de não ter casa há cinco meses, aguardo a hora do meu regresso com serenidade.

Lembro que, faz uns quatro meses, quando tinha acabado de chegar à Tanzânia, escrevi ao Zé contando que o desenrolar da minha viagem estava me assombrando, que temia me sentir muito só nos meses seguintes.

Ele então me enviou um e-mail que guardarei para sempre. Peço-lhe licença para reproduzir o trecho em que ele fala da solidão:  

“Esses dias mesmo eu estava pensando nisso [solidão]. Penso muito nos amigos que deixei no Brasil e nessa ideia fixa de continuar pelo mundo trabalhando e vivendo em lugares diferentes. Acho que é um tipo de sina, acho que vicia e não dá para parar depois.

Penso nos amigos de Angola, na dureza que foi deixar todo mundo e no quão difícil será voltar para lá um dia. Penso nas amizades relâmpago que fiz aqui em Maputo e nas mais rápidas ainda aqui no hostel. Aí eu lembro de pessoas como você, o Massimo e outros mais espalhados por aí com a mesma ânsia — gente que está fundamentalmente unida por esse lugar chamado planeta.

Acho que somos gente do mundo, João, e que em pouco tempo não estaremos sozinhos em lugar nenhum. Acho que estaremos sempre partindo, mas que sempre estaremos acompanhados por pessoas de passagem também, velhos amigos soltos por aí… Parece uma boa ideia e tem me confortado.”

Essas palavras também me confortaram ao longo da minha viagem, e eu continuarei a me guiar por elas quer esteja em Luanda, São Paulo, Jacarta, Pequim…

As nossas viagens seguem, Zé. Nos vemos por aí.

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33 Respostas to “Estamos juntos”

  1. zé maia said

    Iebo ieh! Até daqui a pouco Fellet, seja lá onde for!

  2. Parabéns pelo fim da viagem. Sempre que uma termina começa a outra…

    Sobre a dificuldade de refazer uma viagem (repassar por Maputo), deixa aqui uma frase de Joaquín Sabina: al lugar donde fuiste feliz no debes volver jamás.

    Boa volta ao Brasil e boa sorte.

  3. juborges said

    Filete, estamos todos (ou quase todos) aqui com os braços bem abertos pra te receber nessa viagem que vai ser voltar de viagem. Estamos juntos

  4. João ,adorei vc e adorei o Zé e olha sou uma viajeira que nunca viaja,hehehehe é que sou artista plastica e viajo em cada trabalho meu……..
    Faço viagens incriveis e que nunca se repetem ,mesmo porque mesmo que se repitam elas nunca são iguais e portanto cada vez mais incríveis,minha mirada está sempre mudando…….
    Espero que vc escreva sempre pois me acostumei com seus textos ótimos……posso acompanhar agora essa outra viagem sua também ,pois tudo realmente é uma viagem…….
    seja bem vindo a sampa…….
    nos amigos de sampa estaremos aqui
    bjs sonia

    • João Fellet said

      obrigado, sonia! agora que estou de volta podemos nos conhecer. vou te mandar um email para que combinemos alguma coisa.
      bjs

  5. Mayrex said

    Voltar dá mais medo que partir, e isso só se aprende depois que fazemos ambas as coisas.
    Bem-vindo de volta.
    Beijo

  6. Cfe said

    Rapá,

    Adorei Maputo: tanto que até pensei em morar lá e não desisti de concretizar a idéia um dia.

    E após muitos anos morando em Portugal preparo minha volta ao Brasil…

    Um sincero abraço vascaíno

    Cfe

  7. Maria said

    Joao,

    foi uma despedida relampago aquela no domingo de noite, queria entao deixar por aqui um bjinho para ti (meu e da pequena luana) e dizer que adorei conhecer-te, foi o maior prazer ter a sua companhia no fim de semana. Sempre que queiser voltar a estes cantos tem onde ficar, sem se preocupar com nada. Enquanto me arrastar por aqui tambem, porque chegara a hora em que estarei como todos voces, me empurrando por ai, algures no mundo, deixando coisas para tras e dando espaco a muitas outras. De passagem conhecendo gente, tal como conheci voce. E isso e’ viver. Isso nos faz sentir vivos.
    Grave o meu Email, e mantenha contacto.

    P.s- Nao se esqueca que tem uma colher “made in Japan” para resgatar na pedra da cachueira (aquela sem agua)…

    te veremos por ca novamente…Boa viagem, bom regresso.
    Maiores felicidades

    Maria Quadros e Luaninha

    • João Fellet said

      Maria, o prazer foi meu. Obrigado por me receber tão bem.
      Sei que nos veremos logo, logo por aí.
      E a colher japonesa há de ser resgatada um dia!
      Um beijão pra vc e outro pra Luana

  8. Paulino said

    Bandidos!
    Não se faz isso com os amigos amados! Essa fotinha de vocês dois nesse lugar tão bonito, sendo o fecho desse texto tão fantástico, fez escorrer mais uma lágrima solitária aqui e uma decisão: um dia, todos nós vamos voltar, nem que seja para passar uma semana em Luanda.
    Paulino

  9. Marcella said

    Olá, João,

    o Francisco (que você conhece como Paulo Araújo) já me falou muito a seu respeito. Quando eu estava prestes a terminar meu sabático pela Ásia, triste com a volta, um amigo indiano me disse que eu não precisava deixar a Ásia — era só levá-la dentro de mim. Que a África fique sempre com você.

    Bjs,
    Marcella C.

    • João Fellet said

      Marcella, o Francisco (que em Angola virou Paulino) já me falou zilhões de vezes da sua viagem pela Ásia. Agora que voltei a SP quero ouvir de vc.
      E adorei a frase do seu amigo indiano. Carregarei a África comigo, então.
      bjs

  10. nasasasdehorus said

    Joao,

    Que post lindo!!! Eu tenho me questionado muito sobre a minha volta ao Brasil. Ainda não sei quando vai acontecer e nem como, mas com certeza não vai ser fácil.

    Espero que a sua volta seja uma nova viagem por lugares que vc já conhece, mas que agora vc vai ver com outros olhos.

    um beijo grande

  11. Coronel Kurtz said

    Momento sentimental-manteiga.

  12. Mara said

    A gente nunca volta. Quem volta é um outro ser que viramos depois de tudo… Obrigada pela viagem! E não esquece: “África é um vício!” Boa sorte sempre!

  13. Não queria faltar ao (quase) final deste capítulo da sua vida. Espero voltar a acompanhá-lo.
    Abraço

    • João Fellet said

      Antonio, vc também está convidado a me visitar em São Paulo. E não me esqueço da sua dica para que visite Cabo Verde. Agora é uma prioridade!
      Abraços

  14. Lúcia said

    Bem-vindo de volta, João!

    Muito bom mesmo o e-mail do seu amigo. Uma amiga que fiz em Moçambique estava aqui em São Paulo ontem (só ontem, infelizmente) e senti exatamente isso: apesar de tão distantes e de nos sentirmos sozinhos de vez em quando nessas viagens (e na volta delas), é bom saber que deixamos nossa marquinha em pessoas pelo mundo todo.

    beijos

  15. Não se esqueça de avisar quando vier a Portugal para a gente se encontrar. Se for a Cabo Verde pesquise qual a altura do ano (acho que é Agosto, não tenho a certeza) em que os ventos não são tão predominantes. Podem ser incomodativos para quem não está habituado.

  16. Carol said

    Arrepio-me só de pensar nas marchas em Soweto (cujos vídeos são exibidos no Museu do Apartheid, aqui na cidade), as multidões correndo com os punhos elevados, enfrentando uma polícia armada de tanques. [2]

    Até que, subitamente, fiz uma constatação que naquele momento me pareceu um tanto quanto dolorosa: nenhuma viagem pode jamais ser repetida [2} – ui! Essa doeu! E o pior é que é verdade. Penso muito nas viagens que fiz há dois anos atrás e me dá uma tristezinha doída quando me lembro de que não vou fazer igual nunca. Talvez melhor, pior, mas igual, nunca!

  17. Carol said

    Mais uma coisa, ainda sobre as viagens que não podem se repetidas: esse post foi sensacional e até meio “sinestésico”. Eu não podia imaginar o que viria, mas quando vi a primeira foto, li sobre a grama que era verdinha e não é mais agora, já me deu uma ponta de tristeza. Parabéns!

  18. Krıshna Monteıro said

    E isso aı, Joao, belo texto, ele sıntetıza perfeıtamente essa ansıa do mundo que tambem sınto. Alıas, adıvınha de onde escrevo esta mensagem? De Sultanamet, Istambul. Estava em Moscou, depois de ter passado pelos Emırados Arabes (uma vıagem que recomendo muıtıssımo) e lembrei do seu post sobre Istambul. Lembreı do Bosforo, da Ponte do Galata…e nao resistı. Mudeı o itınerario de mınha viagem e vim para ca.

    O seu amıgo dısse muıto bem. Correr o mundo e um vıcıo, e uma vez que o experımentamos, e ımpossıvel abandona-lo.

    Bom retorno ao Brasil, boa recuperacao e depois tomamos aquela cerveja em Sampa. Volto no dıa 2 de agosto para Brasilıa, mas sempre vou para Sao Paulo rever o pessoal.

    Abracao (Krıshna – foı mal a falta de acentos, teclado turco hehe)

    • João Fellet said

      Olá, Krishna! Notei que vc escrevia da Turquia quando li o “i” sem ponto (ı). Que bacana!
      Não conheço a Rússia nem os Emirados Árabes, depois quero ouvir de vc.
      Quando estiver em SP, dê um alô.
      Abraços!

  19. EdsonCampos said

    Eu tambem amei Johannesburg. Amei os lugares e conheci um maravilhosa familia que me deu todo o apoio me mostrando todos os lugare. Estou sem palavras da cortesia deles…. Tenho um visao malhor ou seja amo o South of Africa.

  20. EdsonCampos said

    Eu tambem amei Johannesburg. Amei os lugares e conheci uma maravilhosa familia que me deu todo o apoio me mostrando todos os lugares. Estou sem palavras com cortesia deles…. AMO VOCES!!Tenho um visao malhor ou seja amo o South of Africa.

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