Budapeste e o futuro de Istambul

16/07/2009

Já estou de volta a Istambul. Desde que percorri o Caminho de Santiago, em 2007, os meus pés não doíam tanto.

Não que nesta viagem eu tenha andado mais do que naquela, mas é que desta vez fui desleixado: principalmente no Sudão, no Egito e em Israel, curvei-me ao calor e deixei o meu par de tênis na mochila, andando para lá e para cá com os meus chinelos.

E então meus pés, que já vinham sendo bastante exigidos nos últimos meses, resolveram entrar em greve.

Por isso, só deu para espiar Budapeste, provavelmente na sua melhor época do ano, quando a Europa curte o seu generoso verão, há festivais em todos os cantos e os parques ficam cheios até o anoitecer,  por volta das 20h30.

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De qualquer forma, o objetivo principal de ir até lá era encontrar o Gady e o Yuri, grandes amigos que não via há um bom tempo (e que estão comendo direitinho, tia Cássia!).

De volta a Istambul, sou outra vez tragado pela intensidade deste lugar e recomeço a me indagar sobre o que lhe acontecerá nas próximas décadas. 

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 A ponte Galata

Habitada há pelo menos 7 mil anos, a região ocupada pela cidade foi palco de disputas que só se encerrariam em 1922, com a fundação da Turquia.

No século 7 a.C., colonos gregos se instalaram num vilarejo trácio à beira do estreito de Bósforo, que une (ou separa) o que hoje são a Europa e a Ásia.

A vila seria batizada de Bizâncio, o primeiro nome pelo qual se tornaria conhecida mundialmente.

Desde então, passaria pelas mãos dos persas, voltaria para o controle dos gregos (ora atenienses, ora espartanos), integraria a Macedônia (então sob a liderança de Alexandre, o Grande), faria parte do Império Romano, do qual se tornaria a sua capital (agora chamada Constantinopla), transformaria-se, quando  o Império Romano rachou, na capital do Império Bizantino, até, em 1453, ser dominada pelos turcos e virar Istambul.  

Foi só em 1923 que a cidade perderia o status de capital, quando Ancara passou a sediar o governo da República da Turquia.  

Ainda não li Istambul, do Orhan Pamuk, mas minha mãe o leu e disse que, nele, é descrita uma espécie de nostalgia que a cidade carrega porque não é (e jamais voltará a ser) tão importante como já foi.

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A Nova Mesquita

Andando por Istambul, eu sinto essa nostalgia, mas também sinto que, como na época em que era disputada por povos interessados em controlar um ponto geográfico tão estratégico, o futuro da cidade continua incerto.

Todos sabem que, há alguns anos, a Turquia começou negociações para integrar a Comunidade Europeia.

Um dos principais pontos a bloquear o seu ingresso (sem mencionar a rejeição de certos países europeus) é a instabilidade política no país.

Desde 1923, houve quatro golpes militares na Turquia, o último em 1997. O país também trava uma guerra  contra um grupo separatista curdo (etnia de 20% da sua população) e mantém uma longa disputa com a Grécia sobre a ilha de Chipre. 

Mas a ameaça maior ao país vem de dentro, disseram-me alguns turcos com que conversei nos últimos dias. Eles temem que o país retroceda aos tempos pré-republicanos, quando o Estado não era laico.

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A Universidade de Istambul

Há grande pressão de certos grupos e partidos muçulmanos (e com algum respaldo da população, principalmente entre os mais religiosos) para que se freie a ocidentalização em curso no país.

O  artista plástico Cezmi Orhan, um dos mais conhecidos da Turquia, me disse numa conversa em Ancara que há uma ameaça real de que a religião volte a estar associada ao poder no país. Afinal, a Turquia está numa região politicamente muito vulnerável, sujeita a fortes pressões por parte de países vizinhos com regimes orientados pelo fundamentalismo islâmico.  

Por isso ele defende a integração do país à União Europeia o quanto antes, o que, acredita, protegeria o país de tais influências.

A arqueóloga Sevingu, de 23 anos (e que aparece no post abaixo, em foto com a minha família), tem o mesmo medo.

Os pais dela, como 99,8% da população turca, são muçulmanos. Entretanto, nunca seguiram a religião à risca, e tanto é assim que Sevingu se diz ateia e namora o Inan, um rapaz que conheceu na faculdade– muçulmanos tradicionalistas condenariam o relacionamento.  

Ela jamais cobriu os cabelos na vida, mas teme que um dia tenha de fazê-lo. Nesse caso, contou-me que deixará a Turquia rumo à Europa, o que também pode vir a fazer  caso um dia se veja sem emprego, seguindo os passos de milhões de turcos que já emigraram.

Talvez seja a geração de Sevingu quem determinará se a Turquia continuará a se abrir ao mundo ou andará para trás.

Ortega y Gasset escreveu que certas gerações mergulham na apatia, deixando que as gerações anteriores ditem as regras conforme os seus conceitos e valores. Essas são geraçoes desertoras.

Outras tomam a dianteira dos acontecimentos, põem-se no comando, cumprindo a sua missão histórica.

Pergunte a um jovem de Istambul qual a sua parte favorita da cidade. A grande maioria nem sequer citará as centenas de monumentos históricos, mas sim falará do Taksim, um comprido calçadão numa área nova da cidade (atenção: novo em Istambul pode significar algo construído 200 anos atrás).

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Cheio de gente até altas horas da madrugada, o Taksim tem a maior concentração de lojas, bares e restaurantes de Istambul. É lá que os jovens da cidade se reúnem para passear, ouvir música e paquerar.

Que, portanto, defendam o que o seu país já conquistou, ou a farra pode acabar.

***

Em tempo: amanhã volto à África. Maputo me aguarda!

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10 Respostas to “Budapeste e o futuro de Istambul”

  1. cassia saiovici said

    Fiquei feliz por vocês! Amigos ,a gente escolhe…

    Beijos,Cássia

  2. Olá João!

    Devia passar por Lisboa na sua rota para Maputo. Sempre tínhamos oportunidade de conversar pessoalmente. Essa viagem África acima encantou-me mas, acima de tudo, gosto mesmo é de ler os seus textos, muito sintéticos, mas plenos de informação e transmissores dos seus sentimentos nos locais por onde tem andado. Se publicasse um livro com estas histórias, eu comprava um exemplar!

    Abraço,

    Alexandre Correia

    PS – Quando digo que é meu convidado em Lisboa não é figura de estilo. Se alguma vez vier, conte comigo!

    • João Fellet said

      Muito obrigado pelo convite, Alexandre. Desta vez não deu, mas certamente visitarei Lisboa num futuro próximo.
      E caso venha a São Paulo, por favor me avise!
      Abraços

  3. Lara said

    Já ficou com saudade da África?

  4. Coronel Kurtz said

    Coronel Kurtz nao tem podido comentar teus posts porque também estah viajando. Desta vez, nao pela Africa, mas por Irlanda, Escócia e outras paragens.

  5. ismael said

    adorei as fotos são relmente lidas,gostaria gostaria de um dia conhecer pessoalmente.

  6. Eu entro aqui por saudade.
    E saio admirando você ainda mais.
    A saudade até que diminui por causa disso, amigo.

  7. un artículo muy interesante, seguro que volveré.

    vuelos ultima hora

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