Onde mundos se diluem

04/07/2009

À primeira vista, Ancara, a capital da Turquia, lembra uma cidade europeia moderna.

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Mesmo os seus moradores parecem ter mais em comum com cidadãos europeus do que com os habitantes das cidades do mundo árabe que já visitei – embora, como os últimos, sejam em sua grande maioria muçulmanos.

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Um olhar mais cuidadoso, entretanto, revelará que Ancara não é uma cidade europeia. Ou melhor, que ela é sim uma cidade europeia, mas também uma cidade asiática.

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A mesquita de Kocatepe…

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…e a Cidadela

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A impossibilidade de enquadrar Ancara – e, por extensão, a Turquia – no Ocidente ou no Oriente me deixa angustiado. É como se aqui pisasse num terreno onde as regras não são claras, onde os papéis não estão bem definidos.

Porém, ao mesmo tempo, parece-me que o caminho para entender este país requer deixar de lado definições estanques como essas, que mais estreitam a nossa visão do que nos servem de referência. 

Afinal, a Turquia está entre a Europa, a Ásia e a África, e o seu povo é herdeiro de civilizações que se estendiam por todas essas terras. Vale lembrar que a sua maior e mais conhecida cidade, Istambul, é a única do mundo a ter sido sede de três impérios (o Romano, o Bizantino e o Otomano), cada um com características singulares.

“Turquia é uma aproximação”, disse-me hoje um jovem tradutor que conheci em Ancara, referindo-se à imprecisão que atribuir um único nome (Turquia) a estas terras implica.

Pouco antes, ele havia dito, todo orgulhoso, que “Platão nasceu aqui” – e a afirmação faz todo sentido se lembrarmos que os estados-nações são uma invenção recente, e que até pouco tempo atrás os territórios que hoje pertencem à Turquia e à Grécia (onde Platão de fato nasceu) eram uma coisa só.

No meu último texto, questionei se a Grécia tinha razão em reclamar o patrimônio da grandiosa civilização que aflorou naquelas terras. Referia-me à disputa que os gregos travam com os ingleses para reaver esculturas que originalmente embelezavam o Partenon, em Atenas, e que hoje encontram-se no Museu Britânico, em Londres.

Claro que a Grécia terá argumentos que, à luz da leitura histórica que se costuma fazer em conflitos desse tipo, a apontarão como injustiçada. Não ignoro esses argumentos e estou de acordo com eles.

Mas também me parece que os gregos se apequenam e ignoram a História ao reivindicar a posse de obras representativas de uma civilização da qual todos, ou ao menos todos do Ocidente, somos herdeiros.

Nos últimos 20 dias, pisei em três continentes: África, Europa e Ásia. Ao contrário do que poderia se supor, nesses deslocamentos, o que mais tem me impressionado são os pontos em comum entre os lugares, e não as suas diferenças.

O que me faz questionar o peso que vinha dando, até então, a conceitos como nação, Ocidente, Europa, Ásia…

Definitivamente, não poderia haver momento mais oportuno para chegar à Turquia. Aqui, mundos que supunha incompatíveis diluíram-se de vez.

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7 Respostas to “Onde mundos se diluem”

  1. Priscila said

    Fascinante. ;]

  2. Paulo said

    Excelente blog!

    E quanto ao post, Turquia é Oriente. Mimetiza o Ocidente, mas não deixa de ser Oriente.

  3. fascinante,fiquei com vontade de conhecer………..
    bjs so

  4. Acabei de passar pela Andaluzia e em Granada senti esse mesmo clima de limites embaralhados que sentiste na Turquia. Fronteiras são imaginárias e quase sempre impostas. Se olharmos com atenção, o Brasil é assim também. Sou um gaúcho vivendo na Bahia e muitas vezes me sinto em outro país.

  5. Lara said

    Tudo de resume ao “A Turquia é, na verdade, várias Turquias”.
    Belo texto!

  6. porra, para de escrever bem.

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