Até a próxima!

31/07/2009

Cartum e o fim que se aproxima, Despedida em Istambul, Estamos juntos – lendo os títulos de alguns dos meus últimos posts, noto que venho, já há algum tempo, tentando me preparar para este momento.

Depois de mais de cinco meses de viagem, 13 países visitados e dezenas de histórias narradas, finalmente chegou a hora de me despedir de vocês, que me acompanharam nesta jornada.

Alguns entram neste espaço desde o meu ponto de partida, quando ainda tinha uma África inteira por atravessar; outros chegaram ao blog durante o percurso e seguiram a viagem até o final; de todos, para a minha surpresa, conhecia pessoalmente apenas um punhado.

Hoje faz uma semana que voltei a São Paulo, cidade onde nasci e vivi a maior parte da minha vida. Ansioso que estava para reencontrar os meus amigos que aqui moram, fui forçado a permanecer em repouso devido a uma lesão na panturrilha direita, que se agravou nas últimas semanas porque não respeitei os meus limites – segundo o médico que me examinou.

Por causa da lesão, fui impedido de pôr os pés no chão por alguns dias. O tempo também não tem cooperado. Desde que cheguei, choveu todos os dias em São Paulo – o que jamais vi ocorrer no inverno, estação que costuma trazer aos paulistanos dias muito secos.

Agora que o tempo ruim parece dar uma trégua e o antiinflamatório começa a fazer efeito, ensaio os meus próximos passos nesta cidade que ao mesmo tempo acolhe e repele. Os protestos dos usuários dos ônibus fretados, as escolas que cancelam aulas por causa da gripe suína, a imperdível exposição da Sophie Calle, a última derrota do Corinthians: São Paulo impõe o seu ritmo e a sua agenda até a recém-chegados. A vida nesta cidade convida a uma série de reflexões, mas preciso de um tempo para me ajeitar.

Este blog foi uma descoberta para mim. Tornou-se um vício do bem, e quem sabe eu o ressuscite um dia. Por enquanto, deixo aqui o meu e-mail, caso alguém de passagem por São Paulo (ou um morador da cidade) queira transpor a barreira da máquina e me encontrar para um café ou uma cerveja: joaofellet@gmail.com. Aos mais avançados, também estou no Twitter (joaofellet), embora ainda não saiba usá-lo direito.

Obrigado por tudo.

Espero reencontrá-los em breve!

Estamos juntos

22/07/2009

De volta a Joanesburgo, onde tudo começou. Só que agora faz um frio danado na cidade. Este parque, que tinha a grama verdinha quando estive aqui há cinco meses, ficou assim:

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Joanesburgo já não me intimida tanto. Sei que ela é perigosa e que não devo ficar dando sopa depois que escurece. Mas também acho que poucas cidades no mundo têm parques tão bonitos, e quase nenhuma ostenta no currículo um feito do porte de ter comandado o levante contra o apartheid.

Arrepio-me só de pensar nas marchas em Soweto (cujos vídeos são exibidos no Museu do Apartheid, aqui na cidade), as multidões correndo com os punhos elevados, enfrentando uma polícia armada de tanques.

Joanesburgo merece, portanto, no mínimo respeito.

Amanhã deixo-a rumo ao Brasil. Para falar do que estou sentindo às vésperas da minha volta, tenho que contar dos meus últimos dias em Maputo.

Maputo foi a cidade de que mais gostei em toda a minha viagem. Não porque é a mais bonita, nem porque tem os melhores restaurantes ou bares, nem o povo mais amistoso.

Mas porque, para mim, ir a Maputo foi como conhecer um irmão depois de adulto.

Não tenho mais pernas, e mesmo assim andei horas e horas pela cidade,  arrastando-me. Parava nos mesmos cafés em que estive há cinco meses, pedia as mesmas coisas (um café, um palmier, uma Água das Pedras Salgadas — exatamente o que costumava pedir nos cafés em Luanda), reparava nos mesmos detalhes das casas e dos prédios que haviam me encantado, como se quisesse reviver a emoção dos primeiros dias da minha viagem.

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Até que, subitamente, fiz uma constatação que naquele momento me pareceu um tanto quanto dolorosa: nenhuma viagem pode jamais ser repetida.

Em todo caso, a exemplo do porquê da minha ida a Budapeste, decidira passar alguns dos últimos dias da minha viagem em Maputo não por causa da cidade, mas porque um amigo valiosíssimo que fiz em Angola agora vive lá: o Zé.

Sabia que encerrar uma viagem como esta não seria simples, e pensei que encontrá-lo me ajudaria a me preparar para a volta. E agora, no meu último dia na África, apesar de não morar no Brasil há um ano e meio e de não ter casa há cinco meses, aguardo a hora do meu regresso com serenidade.

Lembro que, faz uns quatro meses, quando tinha acabado de chegar à Tanzânia, escrevi ao Zé contando que o desenrolar da minha viagem estava me assombrando, que temia me sentir muito só nos meses seguintes.

Ele então me enviou um e-mail que guardarei para sempre. Peço-lhe licença para reproduzir o trecho em que ele fala da solidão:  

“Esses dias mesmo eu estava pensando nisso [solidão]. Penso muito nos amigos que deixei no Brasil e nessa ideia fixa de continuar pelo mundo trabalhando e vivendo em lugares diferentes. Acho que é um tipo de sina, acho que vicia e não dá para parar depois.

Penso nos amigos de Angola, na dureza que foi deixar todo mundo e no quão difícil será voltar para lá um dia. Penso nas amizades relâmpago que fiz aqui em Maputo e nas mais rápidas ainda aqui no hostel. Aí eu lembro de pessoas como você, o Massimo e outros mais espalhados por aí com a mesma ânsia — gente que está fundamentalmente unida por esse lugar chamado planeta.

Acho que somos gente do mundo, João, e que em pouco tempo não estaremos sozinhos em lugar nenhum. Acho que estaremos sempre partindo, mas que sempre estaremos acompanhados por pessoas de passagem também, velhos amigos soltos por aí… Parece uma boa ideia e tem me confortado.”

Essas palavras também me confortaram ao longo da minha viagem, e eu continuarei a me guiar por elas quer esteja em Luanda, São Paulo, Jacarta, Pequim…

As nossas viagens seguem, Zé. Nos vemos por aí.

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Já estou de volta a Istambul. Desde que percorri o Caminho de Santiago, em 2007, os meus pés não doíam tanto.

Não que nesta viagem eu tenha andado mais do que naquela, mas é que desta vez fui desleixado: principalmente no Sudão, no Egito e em Israel, curvei-me ao calor e deixei o meu par de tênis na mochila, andando para lá e para cá com os meus chinelos.

E então meus pés, que já vinham sendo bastante exigidos nos últimos meses, resolveram entrar em greve.

Por isso, só deu para espiar Budapeste, provavelmente na sua melhor época do ano, quando a Europa curte o seu generoso verão, há festivais em todos os cantos e os parques ficam cheios até o anoitecer,  por volta das 20h30.

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De qualquer forma, o objetivo principal de ir até lá era encontrar o Gady e o Yuri, grandes amigos que não via há um bom tempo (e que estão comendo direitinho, tia Cássia!).

De volta a Istambul, sou outra vez tragado pela intensidade deste lugar e recomeço a me indagar sobre o que lhe acontecerá nas próximas décadas. 

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 A ponte Galata

Habitada há pelo menos 7 mil anos, a região ocupada pela cidade foi palco de disputas que só se encerrariam em 1922, com a fundação da Turquia.

No século 7 a.C., colonos gregos se instalaram num vilarejo trácio à beira do estreito de Bósforo, que une (ou separa) o que hoje são a Europa e a Ásia.

A vila seria batizada de Bizâncio, o primeiro nome pelo qual se tornaria conhecida mundialmente.

Desde então, passaria pelas mãos dos persas, voltaria para o controle dos gregos (ora atenienses, ora espartanos), integraria a Macedônia (então sob a liderança de Alexandre, o Grande), faria parte do Império Romano, do qual se tornaria a sua capital (agora chamada Constantinopla), transformaria-se, quando  o Império Romano rachou, na capital do Império Bizantino, até, em 1453, ser dominada pelos turcos e virar Istambul.  

Foi só em 1923 que a cidade perderia o status de capital, quando Ancara passou a sediar o governo da República da Turquia.  

Ainda não li Istambul, do Orhan Pamuk, mas minha mãe o leu e disse que, nele, é descrita uma espécie de nostalgia que a cidade carrega porque não é (e jamais voltará a ser) tão importante como já foi.

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A Nova Mesquita

Andando por Istambul, eu sinto essa nostalgia, mas também sinto que, como na época em que era disputada por povos interessados em controlar um ponto geográfico tão estratégico, o futuro da cidade continua incerto.

Todos sabem que, há alguns anos, a Turquia começou negociações para integrar a Comunidade Europeia.

Um dos principais pontos a bloquear o seu ingresso (sem mencionar a rejeição de certos países europeus) é a instabilidade política no país.

Desde 1923, houve quatro golpes militares na Turquia, o último em 1997. O país também trava uma guerra  contra um grupo separatista curdo (etnia de 20% da sua população) e mantém uma longa disputa com a Grécia sobre a ilha de Chipre. 

Mas a ameaça maior ao país vem de dentro, disseram-me alguns turcos com que conversei nos últimos dias. Eles temem que o país retroceda aos tempos pré-republicanos, quando o Estado não era laico.

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A Universidade de Istambul

Há grande pressão de certos grupos e partidos muçulmanos (e com algum respaldo da população, principalmente entre os mais religiosos) para que se freie a ocidentalização em curso no país.

O  artista plástico Cezmi Orhan, um dos mais conhecidos da Turquia, me disse numa conversa em Ancara que há uma ameaça real de que a religião volte a estar associada ao poder no país. Afinal, a Turquia está numa região politicamente muito vulnerável, sujeita a fortes pressões por parte de países vizinhos com regimes orientados pelo fundamentalismo islâmico.  

Por isso ele defende a integração do país à União Europeia o quanto antes, o que, acredita, protegeria o país de tais influências.

A arqueóloga Sevingu, de 23 anos (e que aparece no post abaixo, em foto com a minha família), tem o mesmo medo.

Os pais dela, como 99,8% da população turca, são muçulmanos. Entretanto, nunca seguiram a religião à risca, e tanto é assim que Sevingu se diz ateia e namora o Inan, um rapaz que conheceu na faculdade– muçulmanos tradicionalistas condenariam o relacionamento.  

Ela jamais cobriu os cabelos na vida, mas teme que um dia tenha de fazê-lo. Nesse caso, contou-me que deixará a Turquia rumo à Europa, o que também pode vir a fazer  caso um dia se veja sem emprego, seguindo os passos de milhões de turcos que já emigraram.

Talvez seja a geração de Sevingu quem determinará se a Turquia continuará a se abrir ao mundo ou andará para trás.

Ortega y Gasset escreveu que certas gerações mergulham na apatia, deixando que as gerações anteriores ditem as regras conforme os seus conceitos e valores. Essas são geraçoes desertoras.

Outras tomam a dianteira dos acontecimentos, põem-se no comando, cumprindo a sua missão histórica.

Pergunte a um jovem de Istambul qual a sua parte favorita da cidade. A grande maioria nem sequer citará as centenas de monumentos históricos, mas sim falará do Taksim, um comprido calçadão numa área nova da cidade (atenção: novo em Istambul pode significar algo construído 200 anos atrás).

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Cheio de gente até altas horas da madrugada, o Taksim tem a maior concentração de lojas, bares e restaurantes de Istambul. É lá que os jovens da cidade se reúnem para passear, ouvir música e paquerar.

Que, portanto, defendam o que o seu país já conquistou, ou a farra pode acabar.

***

Em tempo: amanhã volto à África. Maputo me aguarda!

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À esq., os novos amigos turcos Inan e Sevingu e a minha mãe, Cássia; à dir., meu pai, Luiz, o meu irmão, Vitor, e eu, num dos nossos últimos almoços em Istambul

Depois de seis dias em Istambul, deixei ontem a cidade.

Também ontem, os meus pais e o meu irmão voltaram ao Brasil. Ao longo de 30 dias, viajamos juntos pelo Egito, Israel, Jordânia, Grécia e Turquia.

Para quem estava viajando sozinho fazia quatro meses, passar as últimas semanas com pessoas tão queridas foi especialmente revigorante.

Adoro viajar só, e acho que certos tipos de viagem (como a pela África que narrei neste blog) devem ser feitos assim mesmo, sem companhia. Sozinhos, ficamos mais expostos, mais abertos para conhecer gente e experimentamos uma liberdade absoluta.

Mas também reconheço que, com a companhia certa, alguns tipos de viagem podem ser ainda mais enriquecedores, além de, ao seu final, transformarem-se num patrimônio conjunto.

Foi o caso dessa — como  já sabia que seria. Lembro que tinha 13 anos quando, com os meus pais e irmãos, passamos a viajar quase todos os anos com mochilas nas costas, dormindo em albergues.

Naquela época, o meu irmão Vitor tinha nove anos, e a minha irmã, Gabriela, 11. Mas isso não impedia que passássemos várias semanas na estrada, em longas jornadas de trem e ônibus. Ninguém reclamava, pois aquelas viagens eram os principais eventos do ano, sempre aguardadas com grande expectativa e planejadas com antecedência.

Agora que eles voltaram ao Brasil, vim a Budapeste me encontrar com outra pessoa muito especial: o Gady, amigo de longuíssima data que hoje mora em Barcelona e está aqui com o seu irmão, Yuri (que, por sua vez, é amigo do meu irmão desde o jardim de infância).

Ficarei aqui alguns dias antes de voltar a Istambul, sobre a qual ainda não falei nada pelo seguinte motivo: sinto que precisaria passar pelo menos um mês na cidade para ter uma dimensão correta do quão magnífica ela foi e continua sendo.

Mas como não terei esse tempo todo, primeiro lhes mostro algumas fotos da cidade e daqui a três dias, quando para lá voltar, tentarei condensar as minhas impressões e contar algumas histórias.

***

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A Mesquita Azul de longe…

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…de frente…

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…por dentro…

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…e em noite de lua cheia

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Vista do bairro Çemberlitaş

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A Hagia Sofia por fora…

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… e por dentro

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No jardim do palácio de Topkapı

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A ponte do Bósforo, que liga Ásia e Europa, vista pelo lado europeu

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 O palácio Beylerbeyi 

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 O jardim do palácio; acima, a ponte do Bósforo 

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A igreja de Kariye Camii 

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A ponte Galata

Capadócia

08/07/2009

Se, após ver as fotos abaixo, alguém tiver uma sensação de déjà vu, não se preocupe: é que os mundos continuam a se misturar.

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Trigal

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Camponês

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O vulcão Erciyes

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Arredores de Goreme

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O museu a céu aberto de Goreme

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Mosteiro 

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Interior de igreja esculpida na rocha

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Goreme

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No trem entre Ancara e Kayseri

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Gota de sol

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 O crepúsculo no trem

Não contei aqui sobre um dos pontos mais altos da minha viagem: quando, em março, em Maputo, entrevistei o escritor Mia Couto — cuja obra costuma ser comparada, no Brasil, à do Guimarães Rosa.

Por uma hora, conversei com ele, entre outros temas, sobre a relação da África com o mundo, o cinismo que houve na comemoração da eleição do Obama no continente africano, o falatório gerado pelo acordo ortográfico nos países lusófonos e como moçambicanos e angolanos lidam com a sua antiga metrópole, Portugal.

Editar esse material provou-se quase impossível, já que, como notarão, em momento algum o Mia deixa de apresentar pontos de vista instigantes e originais sobre os assuntos propostos.

***
O continente africano está vivendo o ciclo de crescimento econômico mais vigoroso desde o fim da era colonial. Entretanto, há casos notáveis de retrocesso, como o do Zimbábue, e vários outros países, como o Congo Democrático e o Sudão, vivem grande instabilidade política e social. No geral, a África está avançando?

MIA – Sim, o problema é que não se sabe para onde, qual é a direção desse progresso – progresso entre aspas. A África tem 30, 40 anos de independência e, feito um balanço, não se sabe se houve um crescimento. No conjunto, provavelmente sim, não sou da tribo dos “afropessimistas”. Mas vive-se hoje em grande parte do continente africano pior do que se vivia no tempo colonial.

A relação da África com o mundo não mudou e continua sendo uma relação colonial – nem sequer vale a pena chamá-la de neocolonial. A África não pode mais se entregar às mãos dessas elites que são predadoras e vorazes no consumo da riqueza, no que também não houve uma mudança. A África sempre teve uma relação em que elites minoritárias vendiam todos os recursos para o exterior. O que houve foi uma espécie de passagem de testemunho, uma mudança de turno, e só.

Como contrapor essas elites num continente em que praticamente não há classe média?

MIA – Imagino que surgirá uma pequena classe média a partir de conflitos internos. A África não é diferente do resto e sempre evoluiu por motores internos. São conflitos que estão surgindo hoje e são visíveis por exemplo aqui, em Moçambique, e na África do Sul, onde, além daquilo que são as forças históricas de contraposição política, estão surgindo outras. Há qualquer coisa nova no panorama em que a divisão não é mais aquela herdada do pós-independência, em que há os heróis libertadores de um lado, intocáveis, e do outro aqueles tidos como saudosistas do passado colonial.

Os confrontos em Maputo no ano passado causados pelo aumento do preço dos transportes e que resultaram em quatro mortes mostram que o país tem uma bomba-relógio nas mãos?

MIA – Sim. Para explicar o que houve, o governo recorre à teoria da conspiração: há uma mão organizou aquele movimento com intenções malévolas. Do ponto de vista da realidade social, isso corresponde a uma profunda insatisfação. As pessoas entraram em choque de incompatibilidade com esse sistema de funcionamento, de administração da sociedade.

Como fazer com que o país mantenha o ritmo de crescimento e reduza as tensões sociais?

MIA – Darei a pior resposta, porque, sendo escritor, tenho muito pouco a dizer sobre o assunto. Mas acho que o que mais falta faz é criar um pensamento produtivo. Perceber que esse discurso de culpabilização do outro, de invenção de inimigos, está gasto, sem perceber que é preciso encontrar caminhos novos, que é preciso encontrar uma outra maneira de construir a economia. Esse é o grande desafio.

Com a crise econômica mundial, o discurso sobre a importância do Estado na economia ganhou força no mundo todo, e em Moçambique o presidente Armando Guebuza disse que é preciso evitar que Moçambique se globalize. Isso não é nocivo para um país que, aos poucos e com sucesso, vinha abrindo a sua economia?

MIA – Acho que Moçambique não notou grande diferença porque nunca saiu desse discurso dirigista. Passou de um socialismo para um capitalismo de Estado, digamos assim, em que há uma enorme promiscuidade entre assuntos do Estado e negócios pessoais.

Moçambique tem sido considerado um “caso de sucesso” por muitos organismos internacionais, por ter conseguido conciliar abertura política com desenvolvimento econômico. Esses elogios não fazem mal ao país?

MIA – Fazem muito mal. Enquanto não houver razões endógenas para estarmos felizes conosco próprios e sermos confrontados com o modelo que nós próprios criamos, seremos os bons rapazes, mas da festa dos outros.

Na reunião da União Africana (UA) em fevereiro, o ditador líbio Muammar Gaddafi foi mais uma vez o centro das atenções com a sua defesa da unificação política imediata do continente. Qual o mal que atitudes e lideranças como essas causam ao continente?

MIA – Acho que isso tudo é uma obra de fachada. Nenhum país africano tem crença na UA a ponto de abrir mão da sua posição no mundo. A UA serve como um patamar para que a maior parte das elites dirigentes da África possa ter alguma posição de consenso, algum ponto de força, mas, de resto, ninguém acredita nela. É mais uma obra de teatro a que eu, como escritor, tiro o chapéu.

E a complacência em relação ao ditador do Zimbábue, Robert Mugabe? Até onde vai a lealdade da classe política dos países vizinhos, Moçambique incluído?

MIA – É preciso que novas gerações, como em Botsuana, surjam. Pessoas que não estejam ligadas a esse tipo de laços históricos, a compromissos pessoais que prejudicam todo o resto. Essa gente se conhece toda, são amigos, fazem parte de um clube. E mesmo que tenham divergências políticas, nunca vão o declarar publicamente. Há aqui uma espécie de sabedoria palaciana. Alguns terão vontade de criticar, porque acham que a posição do Mugabe é insustentável, mas há outros que o admiram, embora não tenham a coragem de dizer, como alguém que teve coragem de bater o pé contra os ricos, o Ocidente. E há um grande desconhecimento sobre a situação interna no Zimbábue. A ideia é que tudo isso que chega é terrível, mas não é verdade, foi fabricado pelo Ocidente.

E Moçambique? Aqui ainda é forte o discurso de atribuir aos outros o atraso do país?

MIA – Moçambique teve um percurso diverso. O discurso de demagogia está presente, mas não é predominante. Hoje já há uma apreciação de que é preciso buscar as responsabilidades dentro. Mas isso foi fruto de muita briga na sociedade civil, para que os dedos que estavam apontados para fora fossem apontados para dentro.

Como é a relação de Moçambique com Portugal? Em Angola, a outra grande ex-colônia portuguesa na África, jornalistas portugueses foram impedidos de cobrir as últimas eleições, em 2008, acusados de participar de um complô contra o país…

MIA – Isso tem a ver com questões que não são só políticas. Lembro-me de uma vez em que estive em Angola e, numa mesa de 20 angolanos, todos negros, perguntei como se dizia feiticeiro numa língua nacional angolana – queria saber as semelhanças com as palavras usadas nas línguas moçambicanas. Ficou um silêncio gelado. Nenhum deles sabia falar uma língua de Angola, exceto o português, que também é uma língua angolana. Aquele silêncio congelou-me e de repente começaram todos a explicar que não se sentiam verdadeiramente africanos. Era uma coisa quase, digamos assim, psicanalítica. Era preciso encontrar uma explicação de sua angolanidade. E isso tinha a ver com a necessidade de marcar Portugal por uma via ainda de briga, de afirmação.

E em Moçambique, isso não ocorre?

MIA – Não. A relação da língua que citei não é inócua. A língua é uma forma de estar no mundo, é uma relação consigo própria. Grande parte dos dirigentes angolanos não fala nenhuma língua bantu. Já os dirigentes moçambicanos sabem e têm uma relação diferente com isso, resolvida. Resolver essa relação com o português enquanto língua passa muito por resolver a relação com o português enquanto povo. Aqui, a questão não está completamente resolvida, claro, mas os portugueses são para nós como os franceses, os ingleses…

Lembro-me de amigos brasileiros cá em Moçambique que foram ver um jogo entre Brasil e Portugal. Eles esperavam que os moçambicanos fossem torcer pelo Brasil, afinal Portugal foi o colonizador. Mas não, torceram para Portugal. Não acho que seja nem bom bem mau, mas há uma relação livre com isso.

No Brasil, muito pouco se sabe sobre Moçambique. A recíproca vale?

MIA – Não. Os moçambicanos têm aquele complexo de ilhéu, como se vivessem numa ilha, e portanto voltam-se ao mundo. O moçambicano médio, que tem escolarização baixa, sabe do Brasil o que os brasileiros não sabem sobre Moçambique, mesmo os brasileiros acima da média.

Embora a relação do Brasil com os outros países lusófonos seja distante, com a exceção talvez de Portugal, o acordo ortográfico teve uma repercussão enorme no país. Como acompanhou a questão?

MIA – Faz parte da nossa cultura, enquanto países lusófonos, enquanto família, celebrar as coisas dessa maneira: ou em carnaval, em grandes festas, ou em dramas existenciais, coisa que nem os francófonos, nem os anglófonos têm. Estamos sempre a indagar: será que existe a lusofonia? É uma coisa quase paradoxal: existimos na medida em que duvidamos da nossa própria existência e investimos nessa polêmica. O que vale é que, para além disso que é o lado oficial da lusofonia, há outras coisas que acontecem e que estamos a discutir aqui, como o como o fato de os moçambicanos se informarem sobre o Brasil, a ligação histórica entre os países…

Acho que essa polêmica em relação ao acordo foi muito insuflada pela parte portuguesa – os países africanos nunca fizeram grandes questionamentos. Também acho que é preciso justificar tão intensamente a razão de ser desse acordo ortográfico que, logo à partida, já tenho dúvidas se algo que precisa ser tão justificado tem alguma razão de ser. O triste é que se deu tanta importância a essa discussão e outros debates essenciais e que têm a ver com a nossa ligação mais profunda ficaram à margem, e assim vão continuar.

Depois de irem para Angola, as empresas brasileiras começam a chegar a Moçambique – a Vale e a Odebrecht recentemente anunciaram investimentos no país. Será que essas relações comerciais podem aproximar os dois países?

MIA – Acho que sim. Essas companhias vêm para cá para fazer negócios, mas elas se apresentam como tal, não têm uma fachada de cooperação, de troca de amizade. São relações comerciais, empresariais, mas que por arrasto trazem outras coisas, como brasileiros trabalhando em Moçambique ou em Angola, moçambicanos trabalhando nessas companhias, e assim surgem coisas em paralelo.

Acredito mais nesse tipo de relação do que em qualquer outra. O resto é sabotado por intenções políticas, é fabricado como uma bola de sabão.

Qual a sua opinião sobre a crescente presença chinesa na África?

MIA – Não vejo isso como um problema. Devia era haver chineses, indianos, brasileiros, vários povos cumprir a nossa vocação. Já que temos de ser colonizados por uns, seremos por todos.

Mas não acha que a troca com a China, em particular, é nociva na medida em que não resulta em transferência de tecnologia?

MIA – Isso, sim. Os chineses têm dessas atitudes. Na área ambiental, que é a minha, não existe nenhum cuidado nem pressuposto… é um paradigma que está ausente. Existe também uma dificuldade, que faz parte da história dos chineses – os chineses nunca tiveram esse tipo de relação com outros povos –, e com eles troca-se muito pouco. Há outra coisa perigosa, que é a posição mais pragmática em relação regimes políticos. Não lhes interessa o regime político que há em África. Mas, na verdade, a posição seletiva do Ocidente sobre quem são os bons e os maus é um critério muito falível. Achavam maus os dirigentes da Guiné Equatorial até se encontrar petróleo – de repente, já eram bons rapazes. Mas, de resto, os chineses têm uma cultura de trabalho que pode nos ser útil.

Quando o Obama venceu a eleição nos EUA, você escreveu um artigo dizendo que ele jamais seria eleito num país africano (porque, entre outros motivos, ele não seria considerado um “africano autêntico”, por ser mulato e filho de imigrantes). Acha então que a vitória dele foi exageradamente comemorada no continente?

MIA – O artigo que escrevi para um jornal em Moçambique não estava a falar do Obama em si, mas dos regimes africanos, e contra esse cinismo de celebração do Obama. O principal fator pelo que o Obama é celebrado – a questão racial – foi construída. De repente, o Obama aqui já era negro. Em Moçambique, e na maior parte dos países africanos, na rua, ele seria um mulato. Mas havia uma necessidade de construir um ídolo. Obviamente ele vai desencantar esse tipo de pessoa que investiu nele – como fez até o Mugabe, ao dizer que “finalmente um irmão chega ao poder”. Para essas pessoas, ele vai passar de herói a vilão num clique de dedos.

A identidade de alguém é definida pela cor da pele, por relações de natureza genética, ou pela sua própria história individual? No caso do Obama, todos sabemos que ele é muito pouco ligado à África. Ele é filho de um africano que se desligou, de um imigrante americano. Isso foi esquecido, posto à margem para a celebração, o que também mostra que há um sentimento de falta de auto-estima, uma necessidade de ter projeção em pessoas, ídolos, que continua a ser muito forte na África.

A África é provavelmente o lugar do mundo em que a telefonia celular mais transformou a sociedade — até porque, em muitos lugares do continente, ela chegou antes que a telefonia fixa. E em países como o Quênia e a Tanzânia, os celulares já são usados para fazer transferência de dinheiro, mesmo por camponeses. Você acompanha essa revolução tecnológica?

MIA – Tenho uma relação muito difícil com o celular – fui o último da família a tê-lo, porque achava que perderia a minha privacidade e não queria depender de uma máquina. Mas percebo que, do ponto de vista social, é uma espécie de instrumento de democratização, que de fato mudou a vida de muita gente. É preciso pensar que num país onde as pessoas não se comunicam, onde tudo é distante, de repente tudo se tornou mais próximo. Há aqui uma porta, um canal de unificação, que coloca o rico e o pobre em pé de igualdade perante essa possibilidade de se comunicar. É fantástico.

À primeira vista, Ancara, a capital da Turquia, lembra uma cidade europeia moderna.

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Mesmo os seus moradores parecem ter mais em comum com cidadãos europeus do que com os habitantes das cidades do mundo árabe que já visitei – embora, como os últimos, sejam em sua grande maioria muçulmanos.

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Um olhar mais cuidadoso, entretanto, revelará que Ancara não é uma cidade europeia. Ou melhor, que ela é sim uma cidade europeia, mas também uma cidade asiática.

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A mesquita de Kocatepe…

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…e a Cidadela

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A impossibilidade de enquadrar Ancara – e, por extensão, a Turquia – no Ocidente ou no Oriente me deixa angustiado. É como se aqui pisasse num terreno onde as regras não são claras, onde os papéis não estão bem definidos.

Porém, ao mesmo tempo, parece-me que o caminho para entender este país requer deixar de lado definições estanques como essas, que mais estreitam a nossa visão do que nos servem de referência. 

Afinal, a Turquia está entre a Europa, a Ásia e a África, e o seu povo é herdeiro de civilizações que se estendiam por todas essas terras. Vale lembrar que a sua maior e mais conhecida cidade, Istambul, é a única do mundo a ter sido sede de três impérios (o Romano, o Bizantino e o Otomano), cada um com características singulares.

“Turquia é uma aproximação”, disse-me hoje um jovem tradutor que conheci em Ancara, referindo-se à imprecisão que atribuir um único nome (Turquia) a estas terras implica.

Pouco antes, ele havia dito, todo orgulhoso, que “Platão nasceu aqui” – e a afirmação faz todo sentido se lembrarmos que os estados-nações são uma invenção recente, e que até pouco tempo atrás os territórios que hoje pertencem à Turquia e à Grécia (onde Platão de fato nasceu) eram uma coisa só.

No meu último texto, questionei se a Grécia tinha razão em reclamar o patrimônio da grandiosa civilização que aflorou naquelas terras. Referia-me à disputa que os gregos travam com os ingleses para reaver esculturas que originalmente embelezavam o Partenon, em Atenas, e que hoje encontram-se no Museu Britânico, em Londres.

Claro que a Grécia terá argumentos que, à luz da leitura histórica que se costuma fazer em conflitos desse tipo, a apontarão como injustiçada. Não ignoro esses argumentos e estou de acordo com eles.

Mas também me parece que os gregos se apequenam e ignoram a História ao reivindicar a posse de obras representativas de uma civilização da qual todos, ou ao menos todos do Ocidente, somos herdeiros.

Nos últimos 20 dias, pisei em três continentes: África, Europa e Ásia. Ao contrário do que poderia se supor, nesses deslocamentos, o que mais tem me impressionado são os pontos em comum entre os lugares, e não as suas diferenças.

O que me faz questionar o peso que vinha dando, até então, a conceitos como nação, Ocidente, Europa, Ásia…

Definitivamente, não poderia haver momento mais oportuno para chegar à Turquia. Aqui, mundos que supunha incompatíveis diluíram-se de vez.

A briga do momento no mundo das artes é a seguinte: há dez dias, foi inaugurado no centro de Atenas o Novo Museu da Acrópole, um prédio bacaníssima, moderno e todo envidraçado.

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Como o seu nome diz, ele foi criado para abrigar as obras de arte que adornavam a Acrópole – no caso, a Acrópole grega original, em Atenas, onde fica o Partenon, templo erguido em homenagem à deusa Atena.

Ora, como boa parte das esculturas que pertenciam ao Partenon hoje está no Museu Britânico, em Londres, os gregos estão doidos exigindo a volta das peças.

Os britânicos respondem que adquiriram as esculturas de forma legítima – foram compradas da Grécia em 1816, quando o país estava sob o domínio otomano – e que não vão devolvê-las coisa nenhuma. E acrescentam que lá, no Museu Britânico, mais gente tem condições de vê-las – afinal, trata-se do segundo museu mais visitado do mundo, só atrás do Louvre, em Paris.

A briga não é tão nova assim: em 1981, a então ministra grega da cultura começou um movimento pela devolução das esculturas. Na ocasião, os britânicos disseram que a Grécia não dispunha de museus adequados para alojar as obras.

Só que agora, com o Novo Museu da Acrópole, o argumento não vale mais. Num gesto encarado como uma provocação pelos britânicos, os organizadores do novo museu deixaram um lugar vago na área em que expõem cinco das seis cariátidas (estátuas de mulheres que serviam de base para um dos templos da Acrópole): a sexta escultura está em Londres.

Estive no novo museu há dois dias e o achei extraordinário. Europeus de todos os cantos se amontoavam nos salões.

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Enquanto isso, no topo do morro à frente do museu, o Partenon é reformado, noutra tentativa dos gregos de mostrar ao mundo que eles têm, sim, condições de preservar o seu patrimônio.

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Mas será que as obras devem mesmo ser devolvidas?

Será que o patrimônio da civilização helênica só pertence aos gregos?

O que será que Platão e Sócrates achariam dessa disputa?

“O mar, a doçura do outono, ilhas banhadas de luz, véu diáfano de garoa miúda que cobria a nudez imortal da Grécia. Feliz, pensei eu, do homem a quem o destino permitiu, antes da morte, navegar pelo mar Egeu.”*

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O Egeu

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Mitilina, na Ilha de Lesvos

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Molivos, Lesvos

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Mitilina

*Trecho de “Zorba, o Grego”, de Nikos Kazantzakis. A obra, uma das minhas leituras mais inspiradoras dos últimos tempos, me acompanha desde o começo desta viagem, quando não sabia que acabaria passando pela Grécia e pelo Egeu.