Meu pai, minha mãe e meu irmão já chegaram a Assuã. Estão exaustos, pois passaram quase um dia inteiro viajando. Fizeram escalas em Dakar, em Istambul e no Cairo.

 

Quando passavam pela imigração no aeroporto do Cairo, foram abordados por um oficial que os indagou sobre o que fariam no Egito.

 

Eles responderam que viajavam a passeio e, então, tiveram de listar os lugares que visitariam.

 

O sujeito, que portava um crachá e se apresentara como funcionário do governo egípcio, pegou os passaportes de cada um e pediu que o acompanhassem.

 

Seguindo-o, os três passaram por alguns postos de controle da polícia sem ter de pegar fila ou apresentar os seus documentos.

 

Quando viram, estavam numa agência de turismo do lado de fora do aeroporto. Lá, o sujeito fez uma oferta para que, por intermédio da sua agência, visitassem todos os destinos que haviam listado no questionário.

 

Meus pais disseram que não comprariam nada e que queriam imediatamente apanhar um táxi – já que teriam de ir a outro aeroporto para voar até Assuã.

 

Felizmente, tudo correu bem: eles conseguiram sair da agência e chegar ao aeropoto a tempo. Mas já tiveram um gostinho do que os aguardava no Egito – o assédio sem fim que sofrem os turistas que vêm para cá. E que pode ocorrer mesmo em locais onde se pensa estar protegido, como no setor de imigração de um aeroporto.

 

Ontem, quando andava de mochila pela cidade (sem mochila, poucos acham que sou estrangeiro), fui abordado por dezenas de vendedores e supostos agentes de turismo.

 

Cada um tinha algo a oferecer.

 

Não é a primeira vez que passo por isso nesta viagem. Na Tanzânia, principalmente, mas também na Etiópia e em Moçambique, fui abordado na rua várias vezes por aproveitadores de todo tipo.

 

O papo costuma ser o mesmo: tentando estabelecer uma conversa, o sujeito pergunta de que país você é. Se você demonstra pouco caso, ele diz que não quer o seu dinheiro, apenas praticar o inglês.

 

Muitos dizem que trabalham no hotel em que você está hospedado, e que até viram quando você fez check-in no dia anterior. Mas que agora estavam de folga e, vendo você passar, vieram cumprimentá-lo.

 

Quando estava com paciência, deixava que me seguissem até perceberem que não arrancariam nada.

 

Mas se estava de mau humor, usava uma técnica infalível. Dizia que eu era da Rússia e que falava “only russian, no english”.

 

Era engraçadíssimo ver a reação dos sujeitos nesse momento. Alguns apelavam ao francês, ao espanhol e ao italiano, mas a minha resposta era sempre a mesma: “only russian!”

 

Eles então desistiam.

 

Já ensinei a estratégia à minha família. Como estamos na baixa temporada no Egito, é provável que os aproveitadores nos ataquem com maior intensidade – há poucas presas dando sopa. 

 

Que venham, pois a reposta está na ponta da língua: “only russian! Spasiba!”

Não, este não é mais um post sobre a minha experiência “Discovery Channel”, como bem definiu uma amiga, nas savanas da Tanzânia.

 

Desta vez, refiro-me a duas figurinhas que têm estado em destaque na imprensa internacional: Omar al-Bashir, o ditador do Sudão, e Luís Moreno Ocampo, o argentino que é promotor do Tribunal Penal Internacional (TPI).

 

Em julho de 2008, Ocampo apresentou ao TPI uma acusação contra Bashir por genocídio, crimes de guerra e crimes contra a humanidade.

 

Em março deste ano, o tribunal aceitou a acusação (apenas a denúncia por genocídio foi rejeitada, por falta de provas) e ordenou a prisão de Bashir, que, entretanto, continua no poder.

 

O cartaz abaixo está espalhado por toda Cartum – eu o vi até nas paredes de uma delegacia.

 

Bashir é o sujeito à direita, em pé. Ocampo é o ratinho.

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O texto ao lado de Bashir diz o seguinte, segundo me contaram: “Este é o rei e leão da África e um exemplo para os árabes.”

 

Sobre o argentino está escrito somente o seu nome, “Ocampo”, em árabe.

 

O autor do cartaz, Jamal Issaid –que o assina em azul, no centro–, deixou  o número do seu celular logo abaixo do seu nome.

 

Muito esperto esse Jamal: a esta altura,  já deve ter recebido algum presentinho da corte do ditador. 

Depois do coice

11/06/2009

E para compensar o desgaste da travessia do Saara, nada como viajar pelas águas do lago Nasser…

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Já estou em Assuã, no Egito. Amanhã bem cedinho os meus pais e o meu irmão chegam.

Estou em Wadi Halfa, a última cidade no Sudão antes da fronteira com o Egito.

Chegar aqui não foi fácil.

Desde Cartum, foram 43 horas num trem caindo aos pedaços, que não passava dos 30 km/h.

Na parte mais quente do dia, tínhamos de fechar as janelas, já que o vento do deserto tornava-se insuportável.

Dividi uma cabine com seis pessoas, e assim era a primeira classe – na segunda, oito pessoas compartilhavam uma cabine de mesmo tamanho.

Fazíamos turnos para dormir durante o dia, revezando-nos nos bancos. Enquanto dois dormiam, os outros se acocoravam nos corredores ou iam à cafeteria.

Uma hora, tentei ler um livro, mas era quente demais.

O melhor a fazer era espiar a paisagem. Por um bom trecho, a ferrovia avança pelas margens do Nilo, onde há numerosas vilas, cada uma com uma mesquita mais charmosa do que a outra.

Já na parte final da viagem, o trem deixa o rio de lado e mergulha no Saara.

A monotonia da paisagem então só é quebrada por algum morro ao longe, pelas ruínas de uma vila abandonada,  pela ossada de algum animal.

À noite, os dois mais idosos se deitavam nos bancos, e os outros quatro nos espalhávamos pelos corredores.

Quando nos levantávamos, estávamos inteiramente cobertos de poeira.

Nas poucas paradas, descíamos às pressas para reabastecer os nossos estoques de água.

No primeiro dia, mais quente, bebi cinco garrafas de 600 ml e duas de 1,5 litro. No segundo, sete de 600 ml e uma de 1,5. Ao todo, 11,7 litros.

Chegamos a Wadi Halfa hoje, às 2 da manhã. Não há hotéis na cidade, apenas alojamentos.

Os hóspedes arrastam as camas para fora dos quartos, onde é mais fresco, e dormem sob as estrelas.

Daqui a duas horas estarei no lago Nasser, num navio a caminho de Assuã, no Egito.

Serão mais 18 horas de viagem – mas, desta vez, rodeado de água, livre do calor e da poeira do deserto.

***

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O Saara

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Estação à beira do Nilo

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De manhã

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Vila à beira do Nilo

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Mesquita

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O trem (os retratos são dele mesmo, Omar al-Bashir, o ditador do Sudão)

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Ruínas de vila abandonada

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A minha cabine

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Mais Saara

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Ossada

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O Nilo

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Mahmoud, o meu companheiro de cabine, tentando dormir

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A pousada em Wadi Halfa

Mal cheguei a Cartum e já vou deixá-la.

Amanhã, parto num trem que atravessará o deserto no norte do Sudão e me deixará em Wadi Halfa, na fronteira com o Egito.

Assim que chegar lá, na quarta-feira, pegarei um barco que cruzará o lago Nasser até Assuã, no Egito, onde encontrarei três pessoas muito importantes.

A minha mãe, Cássia, o meu pai, Luiz, e o meu irmão, Vitor, virão se encontrar comigo no último trecho da minha viagem pela África, que culminará com a chegada ao Cairo, daqui a dez dias.

A única da família que ficará de fora é a minha irmã, que hoje vive em Buenos Aires – se serve de consolo, pelo menos você não passará calor, Gabriela!

Cartum me surpreendeu e é uma pena ir embora tão cedo.

Passado o choque inicial provocado pelo calor, ela se revelou uma das cidades africanas mais interessantes que já visitei.

Embora seja enorme, com cerca de 8 milhões de habitantes vivendo na cidade e nos seus arredores, Cartum não sofre com congestionamentos, graças a um eficiente sistema viário, com avenidas largas e bem sinalizadas.

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A cidade exibe os sinais da prosperidade econômica recente do Sudão, motivada pelos ganhos com a venda do petróleo (até o ano passado em alta nos mercados internacionais) e pela força do seu setor agrícola.

Há em Cartum vários arranha-céus em construção, boa parte financiada por empresários do mundo árabe – o Sudão integra, por sinal, a Liga Árabe, organização que congrega a maioria das nações do Oriente Médio e do norte da África.

Este moderníssimo hotel e complexo empresarial, por exemplo, foi erguido com capital líbio.

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Cartum tem também um lado antigo muito rico, com mesquitas e palácios deslumbrantes.

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E um mercado – o souq, em Omdurman – fascinante.

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E Cartum tem o Nilo.

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No meu primeiro dia, por causa do calor, achei que não fosse conseguir sair do hotel.

Mas logo descobri que, se eu seguisse os hábitos dos moradores da cidade, sofreria muito menos.

Em Cartum, todos acordam bem cedo, por volta das 5h, quando, dos alto-falantes dos minaretes, os muezins convocam os fiéis para a primeira oração do dia.

Vão à escola ou ao trabalho enquanto o ar ainda é fresco.

Já durante as horas mais quentes do dia (das 11h às 16h), há pouca gente nas ruas.

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Nessas horas, as marquises dos edifícios no centro da cidade ficam cheias de pessoas sentadas ou deitadas em tapates, bebendo café ou chá.

Outros vão se refrescar nas inúmeras casas de suco – no Sudão, por causa da sharia, a venda de álcool é proibida.

E assim que escurece, as ruas enchem-se novamente, os ambulantes montam outra vez as suas barracas, as lojas reabrem, os restaurantes põem mesinhas na calçada.

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A agitação só termina tarde da noite, por volta das 22h, 23h, quando todos voltam para as suas casas.

Caso se aceite essa dinâmica, o desgaste causado pelo calor deixa de existir.

E, uma vez que nos convencemos de que aquele calorão todo, mesmo nas piores horas do dia, não mata, torna-se possível até fazer alguns curtos trajetos sob o sol.

Como ir a um restaurante para o almoço, por exemplo. Ah, come-se muito bem em Cartum, aliás.

Qualquer restaurante ou barraca serve, e por preços bem acessíveis, frango, carne, peixe, kebabs, shawarmas…

Os pratos geralmente são acompanhados por uma salada de rúcula e cebola. E tem as deliciosas sobremesas. Vários tipos de folhados e doces de nozes e castanhas, sempre mergulhados em mel.

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Deixo tudo isso para trás porque o trem que me levará à fronteira com o Egito só faz esse trajeto uma vez por semana, e ele parte amanhã.

Como não sei se em Wadi Halfa terei tempo e condições de acessar a internet, talvez o meu próximo post só seja escrito na quinta-feira, já em Assuã, no Egito.

É, a viagem está chegando ao fim.

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Todas as sextas-feiras, assim que o sol começa a dar uma trégua, lá pelas 17h, centenas de seguidores do sufismo, uma corrente mística do Islão, reúnem-se num cemitério nas proximidades de Cartum para participar de um dos rituais religiosos mais vibrantes que já presenciei.

Numa imensa roda ao lado do túmulo do xeque Hamed al-Nil, antigo líder da ordem sufista Qadiriyah, os fiéis (todos homens) cantam, executam coreografias e entram em transe. Ao redor deles, mulheres e curiosos observam a cerimônia – no fim, estes se juntam aos homens da roda para uma reza tradicional.

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Quem dita o ritmo do ritual é uma bateria que ora fez com que eu me sentisse no interior de uma roda de capoeira, ora no ensaio de uma escola de samba.

Gravei dois trechos da cerimônia.

O primeiro vídeo, logo abaixo, mostra o aquecimento do grupo. Todos repetem “Alá, Alá, Alá…”, enquanto a bateria vai acelerando.

Quem assistir até o fim ouvirá a bronca que levei de um dos manda-chuvas do grupo (um sujeito gordo de verde) porque, filmando a cena, não percebi que a roda estava girando e fiquei parado no meu lugar. 

Já este, o meu preferido, foi filmado no ápice da cerimônia, quando vários fiéis entram em transe.

Mussa é o prestativo e simpático gerente do hotel em que estou hospedado em Cartum.

Ontem, Mussa quis saber o que eu mais estranhara no Sudão.

Respondi-lhe que o calor, pois jamais estivera em lugares onde a temperatura ultrapassasse os 40ºC.

Ele então me disse que o problema eram as minhas roupas – camiseta e bermuda.

Segundo Mussa, essas roupas não serviam para o clima do Sudão.

Para sofrer menos, eu precisaria de uma jelabia (foto abaixo), a túnica branca que grande parte dos sudaneses veste e que eu já vira outras vezes nesta viagem em regiões de maioria muçulmana.

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E também de uma taghia, o chapéu sem abas usado pelos muçulmanos, preferencialmente de cor branca.

“Se quiser, vamos juntos e compramos as duas peças para você agora”, ele propôs.

É claro que eu concordei.  

Saímos a pé pelas ruas de Cartum e logo encontramos um ambulante que vendia cada jelabia por 10 dólares.

Mussa sugeriu que eu comprasse a que ficasse mais folgada no corpo e que depois a levasse ao alfaiate, para acertar o comprimento e as mangas.

Segui as suas dicas.

A taghia eu comprei logo depois, também num ambulante, por 1 dólar.

Ontem à noite fui buscar a jelabia no alfaiate, um senhor que opera a sua máquina de costura no vão entre dois prédios no centro de Cartum.

Para estreá-la, Mussa me convidou para ir à mesquita hoje, sexta-feira, o dia sagrado para os muçulmanos. O islamismo é a religião majoritária no norte do Sudão, e o país aplica a sharia, o código de leis da fé islâmica.

Estes somos nós antes de deixarmos o hotel.

 

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Cartum é cheia de mesquitas belíssimas.

Mas, infelizmente, a que visitaríamos estava lotada, e tivemos de nos juntar à multidão que rezava do lado de fora, no meio da rua.  

Já participara de outras rezas muçulmanas antes, na Tanzânia e em Moçambique, e fui capaz de seguir o script sem grandes problemas (dobrar o tronco – esticá-lo – ficar de joelhos – tocar a testa no chão – sentar sobre os calcanhares – tocar a testa no chão – levantar- dobrar o tronco etc).

Ao fim, muitos dos homens que não haviam levado tapetes e tiveram de rezar sobre o chão saíram com as testas sujas de terra – o que era encarado com naturalidade por eles e pelos outros.

Quanto ao meu novo traje, Mussa estava certo.

Nada poderia ser mais adequado ao calor.

O vento entra pelas enormes aberturas das mangas e circula livremente pelo corpo.

E, fora o rosto e o pescoço, não há parte alguma do corpo exposta ao sol.

Nem os pés (abrasileirei o meu traje usando havaianas), já que a jelabia quase toca o chão.

Na cabeca, a taghia é igualmente eficiente.

Sem ela, andando sob o sol, em poucos minutos o meu cabelo parece pegar fogo.

Mas com ela os raios do sol são todos refletidos.

Não quero mais saber das minhas bermudas e camisetas.

Na rua, muitos acham que sou árabe e me cumprimentam. Alguns vêm puxar papo.

Quando digo que não falo árabe, perguntam se sou iraniano, turco ou indiano.

Se conto que sou brasileiro, dão muitas risadas. Acho que eles não acreditam.  

De volta ao Sudão

04/06/2009

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Após uma viagem que durou 16 horas desde que deixei Gonder, na Etiópia, cheguei ontem a Cartum, a capital do Sudão.

 

É a segunda vez que visito o Sudão nesta viagem.

 

Na primeira vez, há um mês e meio, estive no sul do país, que tem um governo próprio, com relativa autonomia, sediado em Juba.

 

Mas, na prática, o sul do Sudão é uma terra de ninguém, onde bandidos e conflitos tribais vitimam dezenas de vidas todas as semanas.

 

Já o norte do país tem dono, e ele se chama Omar al-Bashir, o ditador no poder desde 1989.

 

Em março, Bashir teve a sua prisão ordenada pelo Tribunal Penal Internacional (TPI), acusado de cometer crimes contra a humanidade em Darfur, no oeste do país.

 

Mas como o TPI é um tribunal sem polícia, é improvável que algo aconteça com Bashir enquanto ele permanecer no poder (e Robert Mugabe está aí para mostrar como ditadores africanos são longevos…).

 

A minha viagem de volta ao Sudão poderia ter sido mais curta, não fossem as constantes paradas em postos policiais desde que entrei no país – o que também diz bastante sobre o regime político em vigor por aqui.

 

A cada 50 km e o motorista do ônibus freava para que um policial subisse e checasse os documentos de todos os passageiros.

 

Às vezes, os policiais queriam examinar as bagagens, e então todos os passageiros desciam do ônibus e abriam, um por vez, as suas malas. Revistas como essa duravam pelo menos 20 minutos.

 

Acho que o ônibus foi parado umas 15 vezes no total.

 

Já imaginava que algo assim me aguardava logo que entrei no país.

 

Assim que deixei para trás a Etiópia e passei para o lado sudanês da fronteira, tive que me apresentar em três postos policiais, um ao lado do outro.

 

No primeiro, o policial ficou uns 5 minutos com o meu passaporte, examinando com cuidado cada página, cada visto. Acho que ele procurava algum indício de que eu já estivera em Israel – o que automaticamente impediria a minha entrada no país.

 

Mas fui vencendo barreira a barreira e, quando vi, estava num luxuoso ônibus a caminho de Cartum.

 

Luxuoso, sim, com ar-condicionado, DVD e comes e bebes para os passageiros.

 

Fotografei-o e irei mostrá-lo aqui assim que, mais uma vez, eu me livrar do vírus que periodicamente ataca o cartão de memória da minha câmera.

 

Conforme avançávamos no território sudanês, a vegetação ia ficando mais e mais escassa. Até que só havia grama seca e rochas, espalhadas por um horizonte plano, plano, plano.

 

Estávamos nos domínios do Sahel, a faixa de terra que cobre o continente africano da costa ocidental à oriental e faz a transição entre as savanas, ao sul, e o deserto do Saara, ao norte.

 

Quando, depois de umas três horas de viagem (por volta das 16h), o ônibus fez uma pausa, desci para esticar as pernas.

 

Estava perto da traseira do veículo, e o calor do motor sufocou a minha respiração. Afastei-me então do ônibus, somente para constatar que aquele bafo quente não vinha do motor coisa nenhuma: era simplesmente o vento.

 

Voltei correndo para o meu lugar, embaixo do ar-condicionado.

 

Mais cinco horas na estrada (asfaltada, impecável) e chegamos a Cartum.

 

Eram 21h.

 

Desço do ônibus e o bafo quente do motor continua me perseguindo por todos os cantos.

 

Consigo uma carona e vou atrás de um hotel.

 

Logo encontro um razoável. Por 30 dólares, quartos com ar-condicionado e ventilador. O recepcionista me mostra como devo usá-los – os dois devem ser ligados ao mesmo tempo.

 

Tranco-me. Vou direto ao chuveiro, assim como aprendi em Juba.

 

Após o banho, deito e durmo com o vento no meu rosto. 

 

Às 6h, acordo e vou logo resolver algumas pendências.

 

Todo estrangeiro no Sudão tem que se registrar na polícia até três dias depois da sua chegada. 

 

Fui até a polícia, paguei a taxa de 60 dólares (!) e me registrei.

 

E como todo estrangeiro que queira tirar fotos no país tem de pedir uma autorização no Ministério do Turismo, fui atrás dessa permissão.

 

Não me custou nada, mas mesmo com ela estou proibido de fotografar prédios do governo, pontos militares estratégicos (aeroportos, pontes, barragens) ou qualquer coisa que possa degradar a imagem do país no exterior (mendigos, favelas etc.).

 

São 17h. Estou num cyber café (internet velocíssima) desde as 15h.

 

Devo ficar aqui mais uma hora até encarar a rua de novo.

 

Agora não existe a menor possibilidade.

 

O calor que faz lá fora não é brincadeira. Não sei se são 40, 45 ou 50ºC. Depois dos 40ºC, cada grau a mais ou a menos não faz a menor diferença.

 

Os que se aventuram na rua agora (sim, há alguns) devem ter coisa muito séria para resolver.

 

Ninguém está de bobeira.

 

Ninguém sorri.

 

Enquanto isso, eu enrolo na internet.

 

Lá fora, o bafo quente do motor segue à minha espera.

Ontem, quando acessei a internet para postar no blog as fotos de Lalibela, li o comentário do meu amigo e ex-colega na “Folha de S. Paulo” Ricardo Gallo, em que ele dizia que precisava entrar em contato comigo urgente.

 

Respondi-lhe em seu e-mail, dando o meu número de telefone aqui na Etiópia.

 

Minutos depois, ele me liga.

 

–         João, onde você tá, cara?

–         Na Etiópia.

–         Um avião que ia do Rio para Paris caiu perto do Senegal. Tem como você ir para lá??

 

Pedi um tempo para checar na internet se havia vôos da Etiópia para o Senegal, afinal o país está do outro lado, na costa ocidental africana.

 

Sim, havia um vôo direto Adis Abeba – Dakar (a capital senegalesa) na manhã do dia seguinte (hoje).

 

Mas para pegá-lo eu teria de passar a noite viajando (já que estava em Bahir Dar, no noroeste do país) para chegar de madrugada em Adis Abeba e, lá, correr para o aeroporto.

 

Mais alguns minutos e o Rogério Gentile, editor de Cotidiano da Folha e meu ex-chefe, me liga.

 

–         E aí, João, tem como você ir para o Senegal agora?? Quando você chegaria lá?

 

Faço as contas. Digo-lhe que, se pegasse aquele vôo da manhã, estaria em Dakar por volta das 11h no horário brasileiro.

 

–         Então pode ir! Vai!!

 

Eu tinha então 20 minutos para correr para o meu hotel, arrumar as minhas coisas e ir voando para a rodoviária, para apanhar o último ônibus do dia que partiria para Adis Abeba.

 

Se eu o perdesse, o próximo só sairia na manhã seguinte – e aí não chegaria a Adis Abeba a tempo de pegar o vôo para Dakar.

 

Estou arrumando a minha mala feito um louco quando o Gentile me liga outra vez.

 

– João, acabaram de descobrir que o avião caiu em águas brasileiras. Suspende a ida para o Senegal!

 

E assim eu continuo na Etiópia, de onde lhes escrevo agora.

 

Em todo caso, este já seria o meu último dia no país.

 

Amanhã atravesso a fronteira com o Sudão, para onde vou pela segunda vez nesta viagem.

 

Só que agora visitarei o norte do país, radicalmente diferente do sul, onde estive há um mês e meio.

 

Talvez só consiga voltar a escrever aqui em dois dias, quando planejo chegar a Cartum, onde um calor infernal me espera.

Lalibela

01/06/2009

E as suas igrejas esculpidas em rochas, os seus caminhos subterrâneos, os  seus padres, os seus fiéis.  

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