Problemas na fronteira Egito-Israel ou Ah, se eles soubessem…

22/06/2009

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Eilat, Israel

Foi com grande expectativa que, na companhia da minha família, deixei o Egito rumo a Israel. Embora eu não seja judeu – ainda que muitos pensem o contrário –, tenho fortes laços com a comunidade judaica em São Paulo e um profundo respeito por suas tradições e causas (o que não significa, que fique claro desde já, que concorde com a política atual do estado israelense).

 

O meu primeiro contato com a cultura judaica se deu quando, bem pequenininho, os meus pais me matricularam no Renascença, um colégio em Higienópolis (bairro em São Paulo com numerosa população judaica) frequentado quase que unicamente por judeus – e o que era mais próximo da minha casa, daí a escolha por ele.

 

Minha mãe conta que, depois que passei a estudar lá, às sextas-feiras, quando começava a entardecer, eu a avisava: “mamãe, shabat!” – referindo-me ao dia da semana sagrado para os judeus, o sábado.

 

Os anos se passaram, deixei o Renascença, mas a minha relação com a comunidade judaica só aumentaria, graças aos amigos que fiz no colégio Rio Branco – cuja maioria tem sobrenomes do tipo Brodsky, Saiovici, Shaffa, Grusnpum …    

 

Convidado por eles, passei a frequentar aos finais de semana o clube A Hebraica, um condomínio de lazer da comunidade em Atibaia (interior de São Paulo) e até jantares promovidos pela colônia para que jovens judeus socializassem.

 

Nesses anos todos, acostumei-me a ouvir expressões como bar mitzvah (a cerimônia que marca a passagem, para os  meninos, da infância para a vida adulta; já as meninas têm o bat mitzvah) e palavras como shalom, pessach, quipá…

 

Por tudo isso, imaginava que deixar o lado egípcio da fronteira e adentrar o israelense seria como voltar ao meu bairro, à minha escola. Mas, na verdade, a minha sensação foi a de chegar a um acampamento de férias – tanto porque o lado israelense da fronteira é todo organizado, bonito,  quanto porque os oficiais israelenses se pareciam fisicamente com os monitores dos acampamentos de férias que eu frequentava no Brasil!

 

Todos muito jovens (não mais do que 20 e poucos anos), todos bem nascidos, todos sorridentes. As mulheres, grande maioria – ou meninas, já que muitas não deviam ter mais de 20 anos –, tinham cortes de cabelo da moda e usavam maquiagem.

 

Os rapazes tinham óculos escuros Ray Ban, vestiam camisetas dry fit e carregavam M16s com enorme naturalidade. Todos, meninos e meninas, cumprindo com afinco o serviço militar obrigatório de Israel (eles cumprem por três anos; elas, por dois).

 

Jovens, porém rigorosos. Entrar em Israel, como já imaginava, implica passar por uma série de detectores de todo tipo, e toda bagagem é revistada com cuidado.

 

Até aí tudo bem. O problema foi quando tive de mostrar o meu passaporte – a uma policial de no máximo 22 anos – e descobriram que estive recentemente no Sudão, um inimigo declarado de Israel.

 

A moça, que falava inglês perfeitamente, como todos os outros, endureceu o tom de voz:

 

– O que você foi fazer no Sudão?

– Turismo.

 

A resposta não colou, e então tive de explicar que havia feito uma longa viagem pela África por terra e que, entre a Etiópia e o Egito, tinha um Sudão no meio do caminho.

 

Para piorar a minha situação, pedi a ela que não carimbasse o meu passaporte (já que qualquer vestígio de entrada em Israel nele me impediria de visitar quase todos os países do Oriente Médio). Muitos viajantes fazem esse pedido, e quando isso ocorre os oficiais costumam carimbar uma folha à parte.

 

Mas como eu acabara de passar pelo Sudão, notei que aquele pedido depôs ainda mais contra mim. Fui então encaminhado a uma salinha, onde uma outra policial (também 20 e poucos anos, mas um tipo mais durona) começou a me interrogar sobre o meu paradeiro.

 

Percebi que, de tempos em tempos, ela refazia, com outras palavras, alguma pergunta que já fora feita – para ver se eu me contradizia, acredito.

 

Ao fim do questionário, quando os meus pais e o meu irmão já me aguardavam do lado de fora, tive de esperar por duas horas numa cadeira até que todas as informações que eu acabara de dar fossem checadas pela inteligência israelense.

 

Não, eu não era um terrorista, e assim tive a permissão para entrar no país – e ainda por cima sem o carimbo no passaporte (infelizmente, a minha mãe bobeou e deixou que carimbassem o dela, o que fez com que tivéssemos de tirar a Síria do nosso roteiro).

 

Saí do acampamento de férias, o posto fronteiriço israelense, para entrar num resort  caribenho – a cidade de Eilat.

 

Algumas horas em Eilat já dão uma boa dimensão do nível de desenvolvimento de Israel.

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À beira do Mar Vermelho, a cidade é uma Riviera de São Lourenco (a praia da moda para a elite paulistana – ou isso já mudou?) 10 vezes maior e 10 vezes mais rica. As calçadas são limpíssimas, os hotéis, moderníssimos, os carros param para que os pedestres atravessem, e os garçons e vendedores são educados e bem treinados.

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Como Eilat fica pertinho de Petra, na Jordânia (da qual falarei no próximo post), resolvemos deixar para visitar Jerusalem e Tel Aviv  depois.

 

Ou seja, terei de atravessar a fronteira de Israel outra vez – algum palpite de quantas horas de espera enfrentarei  dessa vez?

 

Ah, se eles soubessem que, com quatro anos de idade, eu até rezava em hebraico…

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15 Respostas to “Problemas na fronteira Egito-Israel ou Ah, se eles soubessem…”

  1. Gady said

    Confesso que tive mais curiosidade de ir à Romênia do que a Israel, considerando minha ascendência. Vendo aqui, porém, passo a cogitar a idéia. Obrigado pela lembrança! Abraços.

  2. Carol said

    Posso falar? Esse “mamãe, shabat!” foi muito fofo. Hahaha

  3. convenhamos: de barba, você fica com uma puta cara de terrorista. arebaba.

  4. Bruno Giannini said

    João,
    Quanto tempo.
    Em busca de algum entretenimento na internet acabei me esbarrando com este seu blog.
    E que forma de se entreter, gostaria de ter acompanhado a sua viagem em tempo real, pois acredito que seria muito mais incrível do que já foi.
    Fico tentando imaginar o que você sentiu ao se deparar com situações que emocionam até nós a longa distancia.
    Com certeza você nós inspira a buscar os nossos Horácios na vida!
    Um grande beijo a toda familia Fellet
    Bruno

    • João Fellet said

      Oi, Bruno! Que boa surpresa encontra-lo aqui.
      A familia toda mandou um beijo para vc.
      Esperamos que vc esteja muito bem.
      abracao,
      Joao

  5. Pet said

    Pois entao, achei seu blog no site da Galileu, e confesso que é raro algum blog realmente me chamar a atencao, ainda mais enfadonhos blogs sobre viagens. No entanto, o seu me parece simples e despretensioso, e bem agradável de ler, confesso ainda uma certa inveja por voce ter tanta paciencia e boa memoria para descrever sua viagem. Tenho feito algumas viagens, mas, nao sei porque, nao aproveito tanto para aprender com elas. Sinto que no futuro continuarei lendo seu blog e com meu arrependimento de nao ter nem ao menos um diário! Sim, minha vida é mais urbana e nao passo tanto tempo viajando ( sim, desculpas para mim!). Creio que temos a mesma idade, mas voce parece ter tanta conviccao de estar fazendo uma coisa boa/certa/interessante e que vale a pena, e me pergunto porque nao se passa o mesmo comigo. Estou na Austria agora, semana passada estava na Hungria, apenas um final de semana com amigos, e a proxima viagem será para a Itália (Veneza apenas). Acho que um dia ainda faco como voce, só nao sei se farei sozinha, a solidao nao é para mim! Passei um dia sozinha na Slovenia em abril e foi como um pesadelo. Talvez seu blog seja meu guia.
    Bom, boa sorte rapaz!

    • João Fellet said

      Ola, Pet! Obrigado pelas palavras. Depois vou te pedir dicas sobre a Hungria — passarei por la no fim da minha viagem.
      Quanto a solidao, se viajar pela Africa, vc dificilmente estara so.
      E aproveite Veneza!

  6. Guta said

    Ah! Algo me dizia que essa viagem estava longe de terminar mesmo!

  7. Lara said

    Vc ainda sabe alguma coisa de hebraico?

  8. Juliana said

    Ola, boa noite
    li seu comentario do carimbo no passaporte…entao é mesmo verdadde q nao entra em outro pais se tiver o carimbo? mas e se carimbam?
    pq vou ao egito pela terceira vez em junho, quero muito conhecer israel, mas como esta critica a coisa la e minhas amigas disseram q quase fizeram terrorismo com elas proibindo umas de entrarem…
    nao sei se vou…pode me ajudar? grata!

  9. luciane said

    estudaste em colegio judeu mas não sabe hebraico?frequentas clube e residencias de familias judaicas e ficas justificando: ando com “eles mas não sou como eles e não faÇo o que eles fazem.Conheces o racismo e as ameaÇas que são feitas aos judeus e a israel.Misseis são lanÇados diariamente tendo como alvo as cidades de israel.sem o cuidado com a seguranÇa de seus cidadãos e turistas certamente israel não seria mais exemplo de educaÇão respeito e modelo de desenvolvimento.visite os paises que ameaÇam os estados unidos e posteriormente tente entrar nesta grande potencia.Segurança é responsabilidade de um Pais para com seu povo Sucesso para voce.

  10. Vera Andreozzi said

    shalom!
    estudei em colégio israelita também e com certeza o Hebraico se vai se não treinarmos sempre.
    muito interessante seu relato e bastante orientador também!
    abração!
    neshikot! (beijos)
    shalom.

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