Enfim, Cairo

18/06/2009

mapa1

Faz seis meses que, de um computador em Angola, comecei a riscar a linha que corta o mapa acima. 

 

A cada dia, esticava o risco um pouquinho, após pesquisar rotas, ler relatos de viajantes ou receber dicas de amigos que já haviam viajado pela África.

 

O planejamento todo levou dois meses. Ao fim, estava decidido a cruzar o continente do sul ao norte, de Joanesburgo ao Cairo, e por terra. Segundo os meus cálculos, levaria quase cinco meses para completar o roteiro. 

 

Na véspera da minha partida, a excitação deu lugar ao medo. Olhava assombrado para o mapa da África dividido por aquele enorme traço, imaginando como seriam os meus próximos cinco meses. Até que chegou a hora de partir.

 

Nos dias que se seguiram, o desenrolar da viagem continuou a me preocupar – jamais havia passado tanto tempo na estrada e sabia que enfrentaria condições duríssimas.

 

Decidi então me agarrar a uma frase do escritor moçambicano Mia Couto que lera alguns meses antes. Diz essa frase que não importa a casa onde moramos, mas onde em nós mora a casa.

 

Assim, voltando-me a mim mesmo, buscando as minhas referências, adquiria a confiança para seguir o meu caminho. 

 

Aos poucos, a viagem começava a sair do papel: de pontinhos num mapa, as cidades no roteiro ganhavam cor, cheiro, tornavam-se concretas. À medida que eu avançava, algumas cidades que não faziam parte da minha rota passavam a integrá-la, ao passo que outras eram deixadas de lado. Conforme ganhava vida, o roteiro ia se redefinindo.   

 

E aos poucos eu ia conhecendo as pessoas que tornariam essa viagem tão especial e que anulariam qualquer receio que ainda restasse em mim. De todas elas, a mais marcante foi, sem dúvida, Mr. Brown, o inglês que encontrei enquanto atravessava o lago Vitória, entre a Tanzânia e Uganda.

 

Por uma semana, ouvi maravilhado as histórias daquele homem, que apesar da idade (78 anos) é tão atirado à vida. Impressionava-me sobretudo a confiança com que ele empreendia os seus esforços e se lançava aos seus objetivos.

 

Por trás dessa confiança, sustentando-a, havia uma crença no poder transformador do homem, ou mais que isso: uma crença no homem.

 

Quando, sozinho, decidiu montar um grupo de discussões com os presos da maior penitenciária de Uganda, Mr. Brown não pensou nos riscos que corria. Ele sabia que no presídio encontraria pessoas, e confiava profundamente no que resultaria do seu encontro com elas.

 

Depois que deixei Mr. Brown, passei por alguns dos momentos mais difíceis da minha viagem: a emboscada no sul do Sudão, a tensa passagem pelo norte do Quênia (que ainda não narrei aqui) e a viagem de trem pelo Saara.

 

Naquelas horas, pensava na serenidade com que o Mr. Brown lidava com as dificuldades. E assim me fortalecia e me renovava para o passo seguinte, para a cidade seguinte, para o próximo encontro. Até que cheguei ao Cairo, a última cidade do meu roteiro.

DSC06873 

Ryszard Kapuscinsky, um que já viajou muito pela África, escreveu que as nossas viagens só têm início, jamais fim – pois, mesmo que retornemos aos nossos pontos de origem, elas continuam a se desenrolar na nossa memória.

 

Estou cruzando a África há seis meses, quando, de um computador em Luanda, comecei a traçar o meu roteiro. Tenho certeza de que essa travessia durará para sempre. 

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18 Respostas to “Enfim, Cairo”

  1. Caramba, 5 meses! Foi tão interessante e divertido acompanhá-lo durante esse tempo que a impressão que me deu é de ter lido esta nota na Casa de Luanda no mês passado.

  2. POis é foi tudo muito rápido,mas foi um prazer enorme ter acompanhado e ter tido a sorte de te achar no primeiro post que vc escreveu………
    Valeu João e muito………
    Inclusive para mim leitora assidua do seu blog……
    parabéns por tudo!!!! e Obrigada pelo prazer proporcionado(inesquecível também)……
    e vamós a próxima………..
    é só avisar que já estou com as malas virtuais prontas………
    Sonia

  3. gabriela said

    Joao,
    eu estou lendo O outro pe da sereia, do Mia Couto e ele faz uma citacao de um monge saxao, Hugo de St. Victor, que diz:
    Quem acha doce a terra natal ainda e um tenro principiante; aquele para quem toda terra e natal ja e forte; mas e perfeito aquele para quem o mundo inteiro e um lugar estrangeiro. A alma tenra fixou seu amor em um unico ponto do mundo; a pessoa forte estendeu seu amor a todos os lugares; o homem perfeito extinguiu o seu.
    Bonito, ne? Lembrei disso lendo o seu post.
    Ainda to esperando a foto da familia toda!
    Beijos a todos, Gabi

  4. Paulinho said

    Fellet,
    Uma lágrima solitária escorre aqui pelo meu rosto, amigo, pois acompanhei de perto esse risco que você fez no mapa da África, sentado do outro lado da mesa, em frente à minha, num computador em Luanda. Quanta coisa mudou! Você, eu, as meninas, Luanda, tudo é imagem e saudade na nossa memória. Parabéns pela vitória e pela viagem, meu caro! Eu nunca fiquei apreensivo, pois você é tão competente em tudo o que faz que não ia deixar de fazê-la. Me vem agora aquela imagem da Ilha de Luanda, vista do Mirarar, iluminada, no primeiro dia que estive lá. E você disse: eis aqui a África. Para onde todos nós voltaremos.
    Fique bem e volte logo,
    Paulino

  5. Demorou mais um mês para além dos cálculos. Aqui, no conforto do lar tudo passou depressa. Tão depressa que nem dei conta que já tinham decorrido 6 meses.
    Muito me alegra mas não surpreende ouvir falar de novo de Mr. Brown. Nos últimos dias pensei se o João recordaria aqui o seu encontro com Mr. Brown ao fazer o inevitável balanço da viagem. Verifico com satisfação que a minha ansiedade mostrou-se injustificada.

    P.S. Tenho que lhe dizer que não vou aceitar despedidas. Vai ter que continuar connosco neste ou noutro blog. Por isso não se atreva a nos deixar “orfãos”.

  6. Candongueiro, parabéns pela viagem, realmemte nem dá pra acreditar que já passou tanto tempo. Eu posso imaginar a sensação de alegria de ter acabado o roteiro misturado com aquela interrogação de “E agora?”. Outro dia estava conversando sobre isso. Como será voltar depois de uma viagem tão longa? Mesmo pra nós que estamos em Luanda, como vai ser o dia que tivermos de voltar de vez? A única coisa que eu não tenho dúvidas é que nenhum de nós vai voltar o mesmo….

    Beijo

  7. Mauricio said

    Parabéns,
    Minha leitura do blog começou por acaso e se tornou leitura obrigatório a partir do escritório em SP. Conhecer determinada realidade da Africa através do sua viagem e blog mostrou-se muito interessante.
    Se a viagem termina, fica uma sugestão para de alguma forma dar continuidade ao blog abordando temas, fatos, livros, episódios do cotidiano africanos.
    Valeu

  8. Coronel Kurtz said

    Soldado João,
    O blog acaba ou Vossa Senhoria vai dar uma nova destinação ao dito cujo?

  9. ferdi said

    Boa João, parabéns pelo fim da jornada.
    Até já.
    Abs,

  10. m.Jo said

    Ainda não quero me despedir.
    Amanhã estarei aqui de novo.
    Bjks

  11. Bom, agora eu quero ouvir essas histórias ao vivo, tomando uma breja.
    ah, o sao paulo perdeu ontem e tá fora da libertadores. boa volta.
    abraco!

  12. rosália andrade said

    Também fiquei viciada no blog. Sabia que o trajeto seria cumprido .Sei que muitas coisas ainda serão contadas. Concordo com o Antonio Fidalgo e com o Mauricio, que o blog não pode acabar.Não pare agora . Conte a viagem com a família, com certeza serão novas aventuras pois, eta família que tem rodinhas no pé. A viagem dos Fellets , só está faltando a mochileira Gabriela nessa nova aventura.
    AGUARDO O RETORNO.

    BJS
    ROSÁLIA

  13. Cassia Alves said

    Nossa! como o tempo passa,até parece k foi ontem k eu vi-te a aumentar essas linhas no mapa, e para ser sincera n pensei k daria nessa viajem maravilhosa. Parabéns João tu és muito bom mesmo em tudo o k fazes.beijinhos Cassia

  14. Fernanda Matsinhe said

    Oi Joao, Parabens parabens, com certeza essa foi uma experiencia de vida unica, tua viagem nos transmitiu muita coisa boa, muitos ensinamentos importantes .. com certeza o Mr Brown foi uma das pessoas mais incriveis da tua viagem, mostrou nitidamente que longe dos flashs das cameras e fama existe muita gente fazendo bem por nada em troca , so pelo simples acreditar no bem e no homem…. Obrigado mesmo hoje tou dando uma revisada de novo no teu blog e increvil que nao me consigo cansar,so me da uma lagrima de tristeza de que infelizmente chegando ao fim…. Que Deus te abencoe, a si e a toda sua familia. obrigado mesmo de coracao

  15. Guta Cunha said

    Pena que acabou…ou será que não?!
    Qual é o próximo destino?!
    bjus

  16. Coronel Kurtz said

    Agora é: de Pequim a Ancara, em oito meses. Passando por Mumbai, Karachi, Islamabad, Kabul, Baku, Astana.

  17. Mara said

    João, com sua viagem, viajei! Através de seus encontros, conheci pessoas únicas, histórias de quem de fato faz a diferença. Com seus relatos vivi um pouco mais a minha própria viagem à Africa, que, como a sua, certamente nunca terminará. “A África é um vício!” – já ouvi de um estudioso do assunto. Parabéns pelo trabalho e obrigada por tudo. Continuando, dê notícias, que já sou sua fã de carteirinha.

  18. Joyce said

    João,

    Parabéns pelo super trabalho e muito obrigada pelos momentos de reflexão, alegria e apreensão que você nos proporcionou ao longo desta viagem compartilhada!
    “Ninguém é capaz de escrever bem se não sabe bem o que vai escrever”…
    Você sabe… e muito bem!
    Bom retorno e curta a família!!!

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