Cartum e o fim que se aproxima

07/06/2009

Mal cheguei a Cartum e já vou deixá-la.

Amanhã, parto num trem que atravessará o deserto no norte do Sudão e me deixará em Wadi Halfa, na fronteira com o Egito.

Assim que chegar lá, na quarta-feira, pegarei um barco que cruzará o lago Nasser até Assuã, no Egito, onde encontrarei três pessoas muito importantes.

A minha mãe, Cássia, o meu pai, Luiz, e o meu irmão, Vitor, virão se encontrar comigo no último trecho da minha viagem pela África, que culminará com a chegada ao Cairo, daqui a dez dias.

A única da família que ficará de fora é a minha irmã, que hoje vive em Buenos Aires – se serve de consolo, pelo menos você não passará calor, Gabriela!

Cartum me surpreendeu e é uma pena ir embora tão cedo.

Passado o choque inicial provocado pelo calor, ela se revelou uma das cidades africanas mais interessantes que já visitei.

Embora seja enorme, com cerca de 8 milhões de habitantes vivendo na cidade e nos seus arredores, Cartum não sofre com congestionamentos, graças a um eficiente sistema viário, com avenidas largas e bem sinalizadas.

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A cidade exibe os sinais da prosperidade econômica recente do Sudão, motivada pelos ganhos com a venda do petróleo (até o ano passado em alta nos mercados internacionais) e pela força do seu setor agrícola.

Há em Cartum vários arranha-céus em construção, boa parte financiada por empresários do mundo árabe – o Sudão integra, por sinal, a Liga Árabe, organização que congrega a maioria das nações do Oriente Médio e do norte da África.

Este moderníssimo hotel e complexo empresarial, por exemplo, foi erguido com capital líbio.

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Cartum tem também um lado antigo muito rico, com mesquitas e palácios deslumbrantes.

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E um mercado – o souq, em Omdurman – fascinante.

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E Cartum tem o Nilo.

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No meu primeiro dia, por causa do calor, achei que não fosse conseguir sair do hotel.

Mas logo descobri que, se eu seguisse os hábitos dos moradores da cidade, sofreria muito menos.

Em Cartum, todos acordam bem cedo, por volta das 5h, quando, dos alto-falantes dos minaretes, os muezins convocam os fiéis para a primeira oração do dia.

Vão à escola ou ao trabalho enquanto o ar ainda é fresco.

Já durante as horas mais quentes do dia (das 11h às 16h), há pouca gente nas ruas.

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Nessas horas, as marquises dos edifícios no centro da cidade ficam cheias de pessoas sentadas ou deitadas em tapates, bebendo café ou chá.

Outros vão se refrescar nas inúmeras casas de suco – no Sudão, por causa da sharia, a venda de álcool é proibida.

E assim que escurece, as ruas enchem-se novamente, os ambulantes montam outra vez as suas barracas, as lojas reabrem, os restaurantes põem mesinhas na calçada.

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A agitação só termina tarde da noite, por volta das 22h, 23h, quando todos voltam para as suas casas.

Caso se aceite essa dinâmica, o desgaste causado pelo calor deixa de existir.

E, uma vez que nos convencemos de que aquele calorão todo, mesmo nas piores horas do dia, não mata, torna-se possível até fazer alguns curtos trajetos sob o sol.

Como ir a um restaurante para o almoço, por exemplo. Ah, come-se muito bem em Cartum, aliás.

Qualquer restaurante ou barraca serve, e por preços bem acessíveis, frango, carne, peixe, kebabs, shawarmas…

Os pratos geralmente são acompanhados por uma salada de rúcula e cebola. E tem as deliciosas sobremesas. Vários tipos de folhados e doces de nozes e castanhas, sempre mergulhados em mel.

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Deixo tudo isso para trás porque o trem que me levará à fronteira com o Egito só faz esse trajeto uma vez por semana, e ele parte amanhã.

Como não sei se em Wadi Halfa terei tempo e condições de acessar a internet, talvez o meu próximo post só seja escrito na quinta-feira, já em Assuã, no Egito.

É, a viagem está chegando ao fim.

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12 Respostas to “Cartum e o fim que se aproxima”

  1. Coronel Kurtz said

    É uma pena que sua missão esteja chegando ao fim, soldado.
    Creio que meus dias serão muito mais monótonos sem ver as suas peripécias.
    Quicá Vossa Senhoria resolva fazer uma outra viagem – de Karachi a Ulan Bator, por terra. Se criar esse outro blog, pode contar comigo para fazer comentarios.

  2. gabriela said

    joao,
    de consolo nao serve… eu nunca fui muito fa de frio e aqui esta cada dia mais congelante. mas estou muito feliz por voces! escreve bastante!!
    beijos gabi

  3. Lara said

    O blog não vai acabar, vai???
    Agora vc tem que fazer o trajeto oeste-leste pela África, passando por aqueles países minúsculos do oeste!

    • João Fellet said

      bem que eu queria, lara, bem que eu queria…
      mas esses ficarao para a proxima vez.
      nos proximos anos vou montar um roteiro marrocos – namibia.

  4. OLá João ,estou lendo de trás para frente,hehehehe
    Poxa ,acostumei e agora?hehehehe
    Que bom vc poder ver sua familia,(isso é tudo de bom !) minha filhota vai estar saindo de viagem também, mas pelas Inglaterras da vida………
    Que tal sair um livro ? eu compro com certeza ,pois sua forma de escrever é muito legal!
    Quanto as fotos,achei surpreendente esse lugar !!!!!!!!!!!!!
    Gostei demais!
    abraços sonia

    • João Fellet said

      sonia, boa viagem para a sua filha!
      quanto ao livro, se alguma editora quiser publica-lo…
      abracos

  5. Ah, já vai acabar? ;-) Cara, foi maravilhoso acompanhar as tuas aventuras pela África! Quando passar aqui pelo Rio Grande do Norte, avise :-)

  6. marcus volpe said

    po, pq nao dobra uma direita ali no mediterrâneo e estende mais uns meses pela ásia?!

  7. Vinicius said

    Parabéns. Incrivel. Inspirador.
    Descobri o blog quase no final da sua viagem. Li integalmente cada post. Já pensei varias vezes, principalmente enquanto morava na Europa em fazer uma travessia dessas. Esbarrei sempre no “como”, nas duvidas sobre vistos e travessias de fronteiras. Acredito ser desejo de todos que lêem o blog um post, completo, sobre os preparativos e custos para uma aventura assim. Vou tirar um ano de férias da empresa em 2011 e seria a viagem ideal.

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