De volta ao Sudão

04/06/2009

africa

Após uma viagem que durou 16 horas desde que deixei Gonder, na Etiópia, cheguei ontem a Cartum, a capital do Sudão.

 

É a segunda vez que visito o Sudão nesta viagem.

 

Na primeira vez, há um mês e meio, estive no sul do país, que tem um governo próprio, com relativa autonomia, sediado em Juba.

 

Mas, na prática, o sul do Sudão é uma terra de ninguém, onde bandidos e conflitos tribais vitimam dezenas de vidas todas as semanas.

 

Já o norte do país tem dono, e ele se chama Omar al-Bashir, o ditador no poder desde 1989.

 

Em março, Bashir teve a sua prisão ordenada pelo Tribunal Penal Internacional (TPI), acusado de cometer crimes contra a humanidade em Darfur, no oeste do país.

 

Mas como o TPI é um tribunal sem polícia, é improvável que algo aconteça com Bashir enquanto ele permanecer no poder (e Robert Mugabe está aí para mostrar como ditadores africanos são longevos…).

 

A minha viagem de volta ao Sudão poderia ter sido mais curta, não fossem as constantes paradas em postos policiais desde que entrei no país – o que também diz bastante sobre o regime político em vigor por aqui.

 

A cada 50 km e o motorista do ônibus freava para que um policial subisse e checasse os documentos de todos os passageiros.

 

Às vezes, os policiais queriam examinar as bagagens, e então todos os passageiros desciam do ônibus e abriam, um por vez, as suas malas. Revistas como essa duravam pelo menos 20 minutos.

 

Acho que o ônibus foi parado umas 15 vezes no total.

 

Já imaginava que algo assim me aguardava logo que entrei no país.

 

Assim que deixei para trás a Etiópia e passei para o lado sudanês da fronteira, tive que me apresentar em três postos policiais, um ao lado do outro.

 

No primeiro, o policial ficou uns 5 minutos com o meu passaporte, examinando com cuidado cada página, cada visto. Acho que ele procurava algum indício de que eu já estivera em Israel – o que automaticamente impediria a minha entrada no país.

 

Mas fui vencendo barreira a barreira e, quando vi, estava num luxuoso ônibus a caminho de Cartum.

 

Luxuoso, sim, com ar-condicionado, DVD e comes e bebes para os passageiros.

 

Fotografei-o e irei mostrá-lo aqui assim que, mais uma vez, eu me livrar do vírus que periodicamente ataca o cartão de memória da minha câmera.

 

Conforme avançávamos no território sudanês, a vegetação ia ficando mais e mais escassa. Até que só havia grama seca e rochas, espalhadas por um horizonte plano, plano, plano.

 

Estávamos nos domínios do Sahel, a faixa de terra que cobre o continente africano da costa ocidental à oriental e faz a transição entre as savanas, ao sul, e o deserto do Saara, ao norte.

 

Quando, depois de umas três horas de viagem (por volta das 16h), o ônibus fez uma pausa, desci para esticar as pernas.

 

Estava perto da traseira do veículo, e o calor do motor sufocou a minha respiração. Afastei-me então do ônibus, somente para constatar que aquele bafo quente não vinha do motor coisa nenhuma: era simplesmente o vento.

 

Voltei correndo para o meu lugar, embaixo do ar-condicionado.

 

Mais cinco horas na estrada (asfaltada, impecável) e chegamos a Cartum.

 

Eram 21h.

 

Desço do ônibus e o bafo quente do motor continua me perseguindo por todos os cantos.

 

Consigo uma carona e vou atrás de um hotel.

 

Logo encontro um razoável. Por 30 dólares, quartos com ar-condicionado e ventilador. O recepcionista me mostra como devo usá-los – os dois devem ser ligados ao mesmo tempo.

 

Tranco-me. Vou direto ao chuveiro, assim como aprendi em Juba.

 

Após o banho, deito e durmo com o vento no meu rosto. 

 

Às 6h, acordo e vou logo resolver algumas pendências.

 

Todo estrangeiro no Sudão tem que se registrar na polícia até três dias depois da sua chegada. 

 

Fui até a polícia, paguei a taxa de 60 dólares (!) e me registrei.

 

E como todo estrangeiro que queira tirar fotos no país tem de pedir uma autorização no Ministério do Turismo, fui atrás dessa permissão.

 

Não me custou nada, mas mesmo com ela estou proibido de fotografar prédios do governo, pontos militares estratégicos (aeroportos, pontes, barragens) ou qualquer coisa que possa degradar a imagem do país no exterior (mendigos, favelas etc.).

 

São 17h. Estou num cyber café (internet velocíssima) desde as 15h.

 

Devo ficar aqui mais uma hora até encarar a rua de novo.

 

Agora não existe a menor possibilidade.

 

O calor que faz lá fora não é brincadeira. Não sei se são 40, 45 ou 50ºC. Depois dos 40ºC, cada grau a mais ou a menos não faz a menor diferença.

 

Os que se aventuram na rua agora (sim, há alguns) devem ter coisa muito séria para resolver.

 

Ninguém está de bobeira.

 

Ninguém sorri.

 

Enquanto isso, eu enrolo na internet.

 

Lá fora, o bafo quente do motor segue à minha espera.

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9 Respostas to “De volta ao Sudão”

  1. rosalia maria andreucci naves de andrade said

    Oi querido estamos com muita saudade.
    O blog está uma delícia, estou viajando com você.
    Agora o conselho de tia .
    Em algumas situações devemos ficar calados, ver e ouvir tudo com muita atenção porém, esperar o momento apropriado para falar.Algumas vezes o silêncio é muito importante.Lembre-se do ditado: Em boca fechada não entra mosca .Alguns comentários podem ser feitos em outra ocasião. Deixe algumas informações para um livro. Um beijo carinhoso de todos .
    Tia Rosália

  2. m.Jo said

    “…o calor do motor sufocou a minha respiração. Afastei-me então do ônibus, somente para constatar que aquele bafo quente não vinha do motor coisa nenhuma: era simplesmente o vento.”
    João,
    Tive essa sensação exata na primeira vez que desembarquei em Porto Velho. Pensei que o bafo quente vinha da turbina do avião.
    kkk
    bjks

    • João Fellet said

      nao eh incrivel como o nosso corpo se engana, m.Jo?
      por muito tempo eu continuei com a impressao de que o calor vinha de algum motor, embora eu soubesse que nao, que era o calor do ambiente.
      bjs

  3. bafo quente do motor é boa…..auhauhauhauah
    para mim era o inferno mesmo,hehehe
    Me abanava tanto que estou até hoje com tique nervoso,heheheheheeh
    bjs
    sonia

    • João Fellet said

      agora ja resolvi o meu problema com o calor, sonia (acabei de publicar um post sobre isso). o que vc vestia? e onde vc passou tanto calor, em gana?
      bjs

      • João,andei viajando por aqui e só hoje voltei…….e sim foi em Ghana ,divisa com Burquina Faso ( Sirigu e Volta ) que passei esse calor todo e quando sai de lá o calor iria para 55*(como disse ,nem sabia que as temperaturas chegavam a isso) Roupa,hummmmmmmm a vontade era de andar nua,massssssss as camisetas regatas de algodão da hering resolveram o problema assim como as bermudas ,tinha que ser de algodão,pois essas coisas sintéticas não resolviam nadaaaaaa.
        Todo o enxoval de calor que levei,não resolveu pois o que resolveu era roupa de algodão puro mesmo e cores claras,tipo branco e amarelinho.Nós pés chinelão havaiana mesmo……..Em Accra usava calça de um tecido chamado cheddar que era o que o povo de lá usava…….
        Para conseguir descansar desse calor todo ,ficava em baixo de arvores pois era o lugar mais fresco….
        Mas conto mais um dia,pois foi uma bela aventura………Agora sigo a sua,hehehehe
        abraços sonia

      • João Fellet said

        nossa… 55 graus… e eu aqui reclamando!
        mas vc tem razao, as roupas fazem toda diferenca.
        abracos

  4. juborges said

    Lembrei do Kapuscinsky descrevendo o calor. Se cuida! bjs

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