Em Jerusalém, o que hoje é um templo sagrado para o Islamismo ontem pode ter sido um templo sagrado para o Cristianismo e anteontem, para o Judaísmo.

Em Jerusalém, as histórias das três grandes fés monoteístas se confundem. E no entanto, nenhum lugar do mundo foi tão disputado por elas.

Hoje, a população de Jerusalém é dividida entre judeus e muçulmanos — há pouquíssimos cristãos–, mas são os judeus quem dão as cartas.

Como a cidade está sob o controle de Israel, um país rico e ocidentalizado, monumentos históricos convivem lado a lado com outdoors e lojas de grife.

Apesar do domínio judeu, as mesquitas continuam em Jerusalém, assim como os muçulmanos — que, entrentanto, são tratados como estrangeiros, já que não têm direito à cidadania israelense, mesmo que nascidos na cidade.

A disputa, como todos sabem, e como os milhares de jovens israelenses armados espalhados pelas ruas não nos deixam esquecer, está longe de ser resolvida.

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Igreja perto do portão de Jafa

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Muro das Lamentações

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A cidade murada

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A via Sacra

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Jovens soldados na entrada do museu de Israel

Já não muito longe dali, em Tel Aviv, a história é outra.

Relativamente jovem, a cidade recebeu enormes levas de imigrantes judeus antes e após a criação de Israel. Mas diferentemente do que costuma ocorrer quando cidades incham muito rapidamente, Tel Aviv conseguiu crescer de forma equilibrada.

Para isso, contou com o talento de alguns imigrantes recém-chegados da Alemanha: arquitetos e artistas judeus seguidores da escola Bauhaus.

Perseguidos pelo regime nazista, eles encontraram em Israel condições para pôr em prática as noções que haviam acabado de aprender. Em Tel Aviv, construíram 4.000 edifícios conforme os ideais da Bauhaus, que pregava a ausência de ornamentos e a harmonia entre a função de um prédio e o seu design.

Hoje, a Cidade Branca, como ficou conhecida a região que concentra a maior parte desses edifícios, é considerada pela Unesco um patrimônio da humanidade.

Mas o charme de Tel Aviv não se deve só à sua arquitetura. A cidade está à beira do Mediterrâneo e é uma das mais verdes que já visitei.

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Enquanto em São Paulo o nosso governador — e possível futuro presidente do Brasil — decidiu acabar com os jardins da Marginal Tietê para construir novas pistas para automóveis (qual será o próximo passo? Cobrir o rio?), em Tel Aviv o asfalto tem dado lugar a jardins e ciclovias.

Por isso, caro governador, deixo aqui um apelo: antes de acabar com as poucas árvores que nos restam, dê um pulo em Tel Aviv.

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Estou em Tel Aviv, Israel. E eu preciso falar de Tel Aviv, uma cidade extraordinária que já entrou para a minha lista de favoritas.  

Também preciso falar de Jerusalém, que ficou para trás.

Para falar das duas, porém, tenho de mostrá-las.

Mas o computador em que estou não tem a entrada USB para que eu puxe as fotos da minha câmera. Ele também não deixa que eu salve imagens da internet.

Como estamos no shabat (pois é sexta-feira e já anoiteceu), dificilmente encontrarei outro cyber café aberto em Tel Aviv até o pôr do sol de amanhã, quando tudo volta ao normal.

Amanhã, porém, não estarei mais aqui, e sim na Grécia, que entrou no roteiro no lugar da Síria.

Para que o blog não fique às moscas até que volte a escrever, deixo dois links com fotos que tirei em Angola quando morava lá.

Este mostra as fotos de uma viagem que fiz ao Kuando Kubango, a província mais isolada do país (e que sofreu muito durante a guerra).

E este mostra o Roque Santeiro, o maior mercado de Angola (cujo nome homenageia a novela brasileira).

Jordânia

24/06/2009

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Espremido entre Israel, Arábia Saudita, Iraque, Síria e Líbano, o reino da Jordânia impressiona por sua estabilidade e progresso recente. 

Sim, reino – desde que se tornou independente, em 1946 (dois anos antes da criação de Israel), a Jordânia é comandada por uma família real que diz ser descendente do profeta Maomé, o pai do Islamismo.

É verdade que, nos seus primeiros anos de existência, o país andou se metendo em confusão: em 1967, associado à Síria e ao Egito, travou a Guerra dos Seis Dias contra Israel. O resultado foi humilhante para os países árabes: o Egito teve o Sinai ocupado; a Síria, as colinas de Golã; e a Jordânia perdeu o controle da Cisjordânia e da parte oriental de Jerusalém (os dois últimos territórios, habitados majoritariamente por palestinos, jamais seriam recuperados).

Desde então, 27 anos se passariam até que, em 1994, a Jordânia assinasse a paz com os israelenses, o que a tornou a primeira nação do Oriente Médio a reconhecer o estado de Israel. A ação foi condenada pelos países árabes vizinhos, mas permitiu que o reino enfocasse um agressivo programa de liberalização econômica.

Paralelamente, a Jordânia também passou a tolerar uma maior abertura política – em 1992, os partidos politícos foram legalizados e, em 2007, houve eleições parlamentares e municipais.

 No campo econômico, os sinais de prosperidade são visíveis a quem visita Amã, a capital jordaniana.

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Há numerosos condimínios de luxo em construção na periferia da cidade, onde já abundam shopping centers e restaurantes chiques. A abertura econômica vem influenciando os costumes dos jordanianos – nas ruas de Amã, é possível encontrar várias muçulmanas com trajes ocidentais e os cabelos expostos.  

Já no campo político, ainda que tenha feito progressos, o país continua nas mãos da família real. Como nas piores ditaduras africanas, há fotos do rei Abdallah, o líder supremo do país, em todos os cantos: ele com uniforme militar e ar sério, ele ao lado do pai, o falecido rei Hussein, ele sorridente, com os filhos…

Turistas que passarem pela Jordânia inevitavelmente viajarão pela Estrada do Rei (sim, ela é chamada assim mesmo), que liga Amã a Petra, a principal atração do país.

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Cidade do tempo dos egípcios, Petra tem uma peculiaridade: foi interiamente esculpida em rochas. E não, não estamos falando de simples cavernas.  

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Só faço um alerta a quem for visitar a Jordânia: a menos que você aceite passar quatro horas entre filas, revistas e postos de controle (com direito a evacuação por ameaça de bomba), em hipótese alguma cruze a fronteira do país com Israel na ponte Hussein, perto do Mar Morto.

E eu reclamando das duas horinhas de questionários na fronteira entre Israel e o Egito…

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Eilat, Israel

Foi com grande expectativa que, na companhia da minha família, deixei o Egito rumo a Israel. Embora eu não seja judeu – ainda que muitos pensem o contrário –, tenho fortes laços com a comunidade judaica em São Paulo e um profundo respeito por suas tradições e causas (o que não significa, que fique claro desde já, que concorde com a política atual do estado israelense).

 

O meu primeiro contato com a cultura judaica se deu quando, bem pequenininho, os meus pais me matricularam no Renascença, um colégio em Higienópolis (bairro em São Paulo com numerosa população judaica) frequentado quase que unicamente por judeus – e o que era mais próximo da minha casa, daí a escolha por ele.

 

Minha mãe conta que, depois que passei a estudar lá, às sextas-feiras, quando começava a entardecer, eu a avisava: “mamãe, shabat!” – referindo-me ao dia da semana sagrado para os judeus, o sábado.

 

Os anos se passaram, deixei o Renascença, mas a minha relação com a comunidade judaica só aumentaria, graças aos amigos que fiz no colégio Rio Branco – cuja maioria tem sobrenomes do tipo Brodsky, Saiovici, Shaffa, Grusnpum …    

 

Convidado por eles, passei a frequentar aos finais de semana o clube A Hebraica, um condomínio de lazer da comunidade em Atibaia (interior de São Paulo) e até jantares promovidos pela colônia para que jovens judeus socializassem.

 

Nesses anos todos, acostumei-me a ouvir expressões como bar mitzvah (a cerimônia que marca a passagem, para os  meninos, da infância para a vida adulta; já as meninas têm o bat mitzvah) e palavras como shalom, pessach, quipá…

 

Por tudo isso, imaginava que deixar o lado egípcio da fronteira e adentrar o israelense seria como voltar ao meu bairro, à minha escola. Mas, na verdade, a minha sensação foi a de chegar a um acampamento de férias – tanto porque o lado israelense da fronteira é todo organizado, bonito,  quanto porque os oficiais israelenses se pareciam fisicamente com os monitores dos acampamentos de férias que eu frequentava no Brasil!

 

Todos muito jovens (não mais do que 20 e poucos anos), todos bem nascidos, todos sorridentes. As mulheres, grande maioria – ou meninas, já que muitas não deviam ter mais de 20 anos –, tinham cortes de cabelo da moda e usavam maquiagem.

 

Os rapazes tinham óculos escuros Ray Ban, vestiam camisetas dry fit e carregavam M16s com enorme naturalidade. Todos, meninos e meninas, cumprindo com afinco o serviço militar obrigatório de Israel (eles cumprem por três anos; elas, por dois).

 

Jovens, porém rigorosos. Entrar em Israel, como já imaginava, implica passar por uma série de detectores de todo tipo, e toda bagagem é revistada com cuidado.

 

Até aí tudo bem. O problema foi quando tive de mostrar o meu passaporte – a uma policial de no máximo 22 anos – e descobriram que estive recentemente no Sudão, um inimigo declarado de Israel.

 

A moça, que falava inglês perfeitamente, como todos os outros, endureceu o tom de voz:

 

– O que você foi fazer no Sudão?

– Turismo.

 

A resposta não colou, e então tive de explicar que havia feito uma longa viagem pela África por terra e que, entre a Etiópia e o Egito, tinha um Sudão no meio do caminho.

 

Para piorar a minha situação, pedi a ela que não carimbasse o meu passaporte (já que qualquer vestígio de entrada em Israel nele me impediria de visitar quase todos os países do Oriente Médio). Muitos viajantes fazem esse pedido, e quando isso ocorre os oficiais costumam carimbar uma folha à parte.

 

Mas como eu acabara de passar pelo Sudão, notei que aquele pedido depôs ainda mais contra mim. Fui então encaminhado a uma salinha, onde uma outra policial (também 20 e poucos anos, mas um tipo mais durona) começou a me interrogar sobre o meu paradeiro.

 

Percebi que, de tempos em tempos, ela refazia, com outras palavras, alguma pergunta que já fora feita – para ver se eu me contradizia, acredito.

 

Ao fim do questionário, quando os meus pais e o meu irmão já me aguardavam do lado de fora, tive de esperar por duas horas numa cadeira até que todas as informações que eu acabara de dar fossem checadas pela inteligência israelense.

 

Não, eu não era um terrorista, e assim tive a permissão para entrar no país – e ainda por cima sem o carimbo no passaporte (infelizmente, a minha mãe bobeou e deixou que carimbassem o dela, o que fez com que tivéssemos de tirar a Síria do nosso roteiro).

 

Saí do acampamento de férias, o posto fronteiriço israelense, para entrar num resort  caribenho – a cidade de Eilat.

 

Algumas horas em Eilat já dão uma boa dimensão do nível de desenvolvimento de Israel.

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À beira do Mar Vermelho, a cidade é uma Riviera de São Lourenco (a praia da moda para a elite paulistana – ou isso já mudou?) 10 vezes maior e 10 vezes mais rica. As calçadas são limpíssimas, os hotéis, moderníssimos, os carros param para que os pedestres atravessem, e os garçons e vendedores são educados e bem treinados.

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Como Eilat fica pertinho de Petra, na Jordânia (da qual falarei no próximo post), resolvemos deixar para visitar Jerusalem e Tel Aviv  depois.

 

Ou seja, terei de atravessar a fronteira de Israel outra vez – algum palpite de quantas horas de espera enfrentarei  dessa vez?

 

Ah, se eles soubessem que, com quatro anos de idade, eu até rezava em hebraico…

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Maior cidade da África e do mundo árabe, com cerca de 16 milhões de  habitantes em sua região metropolitana, o Cairo engloba vários Cairos.

Tem o Cairo islâmico, famoso por suas mesquitas centenárias e pelo Khan el-Khalili, a região comercial mais agitada da cidade; tem o Cairo moderno, do bairro Mohandiseen, cheio de lojas descoladas e redes de fast food; tem o Cairo dos faraós, onde ficam as pirâmides de Gizé e a esfinge; tem o Cairo cristão, repleto de igrejas coptas…e fico por aqui, ou este texto ficaria extenso demais.

 

Como todas as cidades que cresceram além da conta, o Cairo enfrenta problemas urbanos sérios. O trânsito, por exemplo, tornou-se tão caótico que todos os semáforos foram desligados, pois já não faziam mais diferença – será que São Paulo um dia ficará assim?

 

O Cairo deveria ser a última cidade no meu roteiro, mas decidi ouvir as dicas de amigos e dar uma esticada para o Oriente Médio.

 

Desde que deixei o Egito, há três dias, já passei por Eilat, em Israel, e por Petra, na Jordânia. Agora escrevo de Amã, a capital jordaniana (que só pela comida já vale a visita 

As falhas na pontuação deste post, aliás, devem-se às configurações do computador, ajustado para o árabe.

 

Nas próximas semanas, explorarei um pouco mais da Jordânia, voltarei a Israel e ainda irei à Turquia e à Hungria. Mais adiante, volto à África para dela me despedir de vez – um pulo por Moçambique está planejado antes que, na África do Sul, eu embarque no voo que me levará de volta ao Brasil, no fim do mês que vem.

 

Até lá, pretendo continuar postando aqui algumas histórias e fotos, ainda que provavelmente não no mesmo ritmo com que os vinha publicando.

 

Este blog se tornou um vício, e acho que seria incapaz de encerrá-lo de supetão. Então vamos aos pouquinhos…

 

PS: A todos que me acompanharam nesta jornada, e em especial aos que costumam deixar comentários, o meu mais sincero agradecimento. Foi também graças à  companhia de vocês que em momento algum me senti só.

 ***

 

 

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Enfim, Cairo

18/06/2009

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Faz seis meses que, de um computador em Angola, comecei a riscar a linha que corta o mapa acima. 

 

A cada dia, esticava o risco um pouquinho, após pesquisar rotas, ler relatos de viajantes ou receber dicas de amigos que já haviam viajado pela África.

 

O planejamento todo levou dois meses. Ao fim, estava decidido a cruzar o continente do sul ao norte, de Joanesburgo ao Cairo, e por terra. Segundo os meus cálculos, levaria quase cinco meses para completar o roteiro. 

 

Na véspera da minha partida, a excitação deu lugar ao medo. Olhava assombrado para o mapa da África dividido por aquele enorme traço, imaginando como seriam os meus próximos cinco meses. Até que chegou a hora de partir.

 

Nos dias que se seguiram, o desenrolar da viagem continuou a me preocupar – jamais havia passado tanto tempo na estrada e sabia que enfrentaria condições duríssimas.

 

Decidi então me agarrar a uma frase do escritor moçambicano Mia Couto que lera alguns meses antes. Diz essa frase que não importa a casa onde moramos, mas onde em nós mora a casa.

 

Assim, voltando-me a mim mesmo, buscando as minhas referências, adquiria a confiança para seguir o meu caminho. 

 

Aos poucos, a viagem começava a sair do papel: de pontinhos num mapa, as cidades no roteiro ganhavam cor, cheiro, tornavam-se concretas. À medida que eu avançava, algumas cidades que não faziam parte da minha rota passavam a integrá-la, ao passo que outras eram deixadas de lado. Conforme ganhava vida, o roteiro ia se redefinindo.   

 

E aos poucos eu ia conhecendo as pessoas que tornariam essa viagem tão especial e que anulariam qualquer receio que ainda restasse em mim. De todas elas, a mais marcante foi, sem dúvida, Mr. Brown, o inglês que encontrei enquanto atravessava o lago Vitória, entre a Tanzânia e Uganda.

 

Por uma semana, ouvi maravilhado as histórias daquele homem, que apesar da idade (78 anos) é tão atirado à vida. Impressionava-me sobretudo a confiança com que ele empreendia os seus esforços e se lançava aos seus objetivos.

 

Por trás dessa confiança, sustentando-a, havia uma crença no poder transformador do homem, ou mais que isso: uma crença no homem.

 

Quando, sozinho, decidiu montar um grupo de discussões com os presos da maior penitenciária de Uganda, Mr. Brown não pensou nos riscos que corria. Ele sabia que no presídio encontraria pessoas, e confiava profundamente no que resultaria do seu encontro com elas.

 

Depois que deixei Mr. Brown, passei por alguns dos momentos mais difíceis da minha viagem: a emboscada no sul do Sudão, a tensa passagem pelo norte do Quênia (que ainda não narrei aqui) e a viagem de trem pelo Saara.

 

Naquelas horas, pensava na serenidade com que o Mr. Brown lidava com as dificuldades. E assim me fortalecia e me renovava para o passo seguinte, para a cidade seguinte, para o próximo encontro. Até que cheguei ao Cairo, a última cidade do meu roteiro.

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Ryszard Kapuscinsky, um que já viajou muito pela África, escreveu que as nossas viagens só têm início, jamais fim – pois, mesmo que retornemos aos nossos pontos de origem, elas continuam a se desenrolar na nossa memória.

 

Estou cruzando a África há seis meses, quando, de um computador em Luanda, comecei a traçar o meu roteiro. Tenho certeza de que essa travessia durará para sempre. 

Susan Sontag talvez tenha vindo ao Egito antes de escrever sobre a semelhança entre as câmeras fotográficas e as armas de fogo, objetos que protegem o homem do que lhe é desconhecido e hostil e lhe dão a sensação de estar no controle.

Se, num templo egípcio, nos deparamos com ameaçadoras esculturas antropozoomórficas (muitas decapitadas) ou com indecifráveis colunas de hieróglifos, não há motivos para pânico: basta lhes apontar as nossas câmeras e disparar à vontade. O alívio é imediato.

Nem sempre foi assim. No século 19, bem antes da câmera fotográfica portátil, os turistas que vinham ao Egito lidavam de outra maneira com os monumentos que encontravam pelo caminho.

Simplesmente inscreviam os seus nomes nas paredes e colunas dos templos, entre ou em cima dos hieróglifos e dos desenhos em relevo.

Será que assim pensavam reduzir a distância que os separava dos tempos daquelas construções? Será que, com os seus nomes inscritos nas rochas, aquele mundo grandioso e indecifrável deixava de lhes ser tão ameaçador? Será que daquela maneira queriam pegar carona na imortalidade dos faraós?

Ou eram apenas espíritos de porco curtindo um cruzeiro pelo Nilo nos tempos dos nossos tataravós?

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O Egito nos esmaga

15/06/2009

Templo de Hatshepsut

Templo de Hatshepsut

Difícil saber qual a minha lembrança mais antiga do Egito.

 

Ele estava nas histórias de aventuras no deserto, recheadas de  múmias, camelos e pirâmides, a que assistia nos desenhos animados e que lia nos gibis.

 

Mais adiante, vieram as aulas da professora Bruna, no Colégio Rio Branco, quando aprendi sobre as suas mais importantes dinastias, os faraós mais famosos, a organização da sua sociedade, a importância das cheias do Nilo para a sua economia. 

 

Outros tantos anos depois e, às vésperas do vestibular, o país reapareceu nos meus estudos, nas aulas do cursinho.

 

Então aprendi sobre a sua decadência e dominação pelo Império Romano, sobre a expansão islâmica no seu território, a ocupação britânica e, por fim, a sua independência, os conflitos envolvendo o Canal de Suez e a Guerra dos Seis Dias com Israel.

 

Enquanto isso, fora das aulas, o Egito deixou os desenhos animados e as histórias em quadrinhos para ocupar as páginas de revistas, em matérias de turismo, e programas televisivos sobre a descoberta de novos templos e túmulos.

 

Ironicamente, ter lido, ouvido e visto tanto do Egito ao longo da minha vida me deixou receoso de visitar o país. Afinal, acreditava que dificilmente poderia me surpreender com o que encontrasse. Mais além: tinha medo de me decepcionar.

 

E eis que chego aqui e sou absolutamente esmagado pelo que encontro.

 

Nunca, em lugar nenhum que já visitei na minha vida, me senti tão minúsculo.

 

Os templos construídos pelos egípcios têm uma monumentalidade que, milênios depois, e mesmo com as mais avançadas tecnologias, o homem não conseguiu igualar. E não foi por falta de tentativas – as catedrais góticas, os arranha-céus de Nova York e Brasiília (por que não?) estão aí para comprovar.

 

O mais interessante é pensar que o que chegou a nós dos egípcios antigos não foram as suas casas, os seus palácios, mas sim os monumentos que eles ergueram aos deuses e aos mortos.

 

Milênios antes de nós, na civilização mais antiga de que se tem notícia, o homem já se indagava sobre quem governava o seu destino, o que os aconteceria após a morte, que forças coordenavam o Universo.

 

Para mim, os templos erguidos pelos egípcios encerram um paradoxo: mostram que eles reconheciam a sua pequenez diante do Divino ao mesmo tempo que revelam a sua divindade, já que aquelas obras extraordinárias saíram de suas mãos.

 

Ao erguer esses templos, os faraós queriam perpetuar a sua existência, tornar-se imortais. Milênios depois, e as construções continuam em pé, majestosas.

 

Os faraós podem descansar, pois conseguiram. 

***

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Interior do templo de Edfu

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Edfu

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Arusha, Tanzânia

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Vilarejo Maasai perto do lago Manyara (Tanzânia)

Assuã

13/06/2009

Cidade mais ao sul do Egito, Assuã tem como principal via uma avenida, a Corniche, que é a cara da Marginal de Luanda – e por isso gostei dela desde o início.

 

Só que em vez ter à frente a baía de Luanda, a Corniche está voltada ao Nilo, que aqui tem águas azuis bem clarinhas.

 

Por si própria, e por estar perto de Abu Simbel, para muitos o templo mais extraordinário do Egito, Assuã é uma das paradas obrigatórias para quem vem para este país.

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A Marginal de Lu… digo, a Corniche

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A sharia al-Souk (ou rua do mercado) 

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Vista do Nilo a partir da ilha de Elefantina 

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O Nilo (ao fundo, os luxuosos barcos para cruzeiros)

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Abu Simbel

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É, agora começo a entender por que o Egito atrai multidões de turistas desde pelo menos o século 19…