“Esta é a minha irmã. Se você quiser, ela é sua”

26/05/2009

Harar, Ilha de Moçambique, Zânzibar.

Não imaginava que encontraria na África cidades tão antigas, tão cheias de histórias – e o mais surpreendente: que preservaram, ao longo de séculos, as suas características essenciais.

Com a exceção talvez de Zânzibar, que foi recentemente descoberta por turistas europeus (e sabiamente se modificou para tirar proveito disso), Harar e a Ilha de Moçambique parecem, no geral, alheias às transformações econômicas/tecnólogicas/sociais que o mundo vivenciou nas últimas décadas – séculos?

Em Harar, por exemplo, a rotina de alguém não é definida pelos seus horários de trabalho ou estudo, como ocorre no mundo a que estou habituado, mas sim por uma série de rituais e cerimônias que começam ao amanhecer e terminam tarde da noite.

Durante esses rituais, pode-se trabalhar ou estudar – mas ninguém jamais deixará os rituais de lado para apenas trabalhar ou estudar.

Na quinta-feira, no meu primeiro passeio por Harar, notei que no interior de pequenas vilas, as pessoas reuniam-se em varandas, sentadas no chão, em círculos – e lá permaneciam por horas.

Às vezes, um homem deixava momentaneamente o cícrulo para polir uma ferramenta; uma mulher caminhava até um varal, de onde retirava algumas roupas secas; uma criança se levantava para buscar algo no mercado.

Mas logo todos voltavam, reassumiam os seus lugares e se reintegravam aos rituais em curso.

***

É sexta-feira, 10h da manhã. Estou caminhando pelo Jugol, o bairro murado de Harar.

Sempre que passo por portões que dão acesso a vilas, estico o pescoço para ver o que as pessoas fazem lá dentro.

Na maior parte das vezes, ninguém me nota.

Mas, desta vez, um homem jovem sentado numa roda percebe a minha presença e acena, convidando-me a integrar o grupo.

Há cerca de 15 pessoas no círculo, entre homens, mulheres e crianças.

Todos mascam qat – uma planta que nasce aos montes nas redondezas de Harar e é rica em cationina, uma anfetamina (ao menos é isso o que diz a Wikipédia).

A Organizacão Mundial da Saúde considera o qat uma droga, causadora de dependência psicológica, mas na Etiópia e na Península Arábica o seu uso é tolerado.

Conforme me aproximo da roda, os homens abrem espaço e apontam o lugar onde devo me sentar, junto deles – as mulheres sentam-se à nossa frente; as crianças estão espalhadas.

Jogam-me algumas almofadas e logo me dão um punhado de qat. Alguns fumam narguilé (que aqui se chama shisha, ou dokdoka).

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Abdul, o rapaz que me convidou a integrar o grupo (à direita, na foto abaixo), fala inglês muito bem – aprendeu na universidade, quando cursou tecnologias da informação.

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Quando digo que sou do Brasil, começamos a conversar sobre futebol. Os outros homens presentes também querem participar – ora falam em amárico, ora em oromifa; Abdul os traduz.

Querem saber por onde anda Rivaldo e o que se passa com o decadente Ronaldinho Gaúcho. Um deles, mais velho, afirma que o seu ídolo maior do futebol foi Zico.

Todos são unânimes ao falar de Kaká, que, além de excelente jogador, consideram “um cara decente”, e lembram a final da Copa do Mundo de 1994, quando Baggio perdeu o pênalti que deu o título ao Brasil – “naquele dia, houve uma grande festa na Etiópia”, me diz um deles.

Os etíopes, assim como os africanos de quase todos os países em que estive, torcem nas Copas do Mundo primeiro para os países africanos, depois para o Brasil — a exceção fica por conta de angolanos e moçambicanos, que torcem para Portugal (Freud explica).

Digo que Ronaldo Fenômeno está de volta, jogando num time pequeno do Brasil para recuperar a sua forma física, e que talvez participe da próxima Copa, na África do Sul.

Eles vibram.

Os assuntos mudam: falamos de política, Brasil, café, Obama, piratas somalis.

De cinco em cinco minutos, alguém me entrega um punhado de folhas pequeninas de qat, as mais potentes.

Eu agradeço, mas vou devagar — afinal, nem nos tempos da universidade fui da turma da maconha.

Masco algumas folhas e escondo outras embaixo dos meus travesseiros.

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Eles me tranquilizam: “não faz mal, veja: até as crianças gostam!” Olho para o lado: um bebê de menos de dois anos, os olhinhos arregalados, masca um punhado de qat que ele mesmo levou à boca.

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Este é o ritual que abre o dia: o primeiro qat. Um aperitivo, eles me explicam, já que à tarde é que o qat será consumido para valer.

O segundo ritual, que se inicia uma ou duas horas depois, é a cerimônia do café – eles mesmos a chamam assim.

As mulheres primeiro preparam o fogareiro, lavam os grãos maduros do café, torram-nos (com o cuidado de não deixar que queimem muito) e os transformam em pó – tudo isso leva uns 40 minutos.

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O pó é misturado à água fervente e, em seguida, o café (delicioso) é servido a todos na roda – crianças e bebês também, é claro.

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Até aquele momento, não sentira nenhum efeito mascando o qat. Mas eles me avisaram que, assim que engolisse o café, eu o sentiria.

Como de fato senti – é impressionante: assim que o café é engolido, o corpo esquenta e vem uma sensação de torpor. Tudo passa a ocorrer em câmera lenta.

Eles querem saber se estou bem, e a todo momento me tranquilizam – “o efeito vai passar, não se preocupe”.

E passou mesmo, uns 20 minutos depois – os outros, que mascaram muito mais qat do que eu, ficaram anestesiados por até uma hora, quietinhos, mexendo no cabelo.

Depois vem a comida: eu fui servido primeiro e ganhei dois pratos só para mim – num, havia injera de sorgo com batata (bem apimentada — foto abaixo); noutro, injera de teff com molho de espinafre, batatas e tomate (gostei mais deste).

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O resto da roda foi servido depois, numa só bandeja para todos. A comida acabou em poucos minutos. 

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À tarde, as cerimônias se repetem: mais qat (e eu pegando leve) e mais café. Periodicamente, alguém fazia uma prece, e todos fechavam os olhos e repetiam: “amém, amém…”.

Há na roda cristãos e muçulmanos. Todos rezam juntos.

Ao fim do dia, após conversar com alguém ao celular e já se sentindo íntimo de mim, Abdul me faz uma proposta: “Joe [é assim que me apresento: João é um nome impronunciável por aqui], gostei muito de você. Tenho uma irmã mais nova, com quem conversei agora ao telefone. Se você quiser, ela é sua. Ela está vindo aqui – você a verá, ela é linda.”

Ela chegou em alguns momentos, e Abdul não mentira sobre os seus atributos.

Abdul: “o que achou dela? Você a quer para você?”

Incrédulo, respondi: “e o que ela acha disso?”

Sem recorrer à irmã, ele me respondeu: “Ah, ela concorda! Ela gostou de você, eu sei. As mulheres daqui adoram um faranji [estrangeiro, em amárico, ainda que a palavra seja usada no mesmo sentido de muzungu, em suaíli, querendo dizer “branco”].

Enquanto isso, a jovem harari (20 anos) olhava para baixo – porque era tímida, acredito, e não por estar constrangida com a situação.

Mas eu sim estava constrangido, e Abdul, notando isso, me deu tempo para pensar: “continue a sua viagem e, quando terminar, volte para Harar. Aí você decide se quer se casar com ela ou não”.

Claro que eu sabia que a oferta não era um simples presente: casamentos na África geralmente implicam grandes despesas para a família do noivo, e Abdul certamente ganharia algo com isso.

Ainda assim, é raríssimo que famílias harari aceitem que as suas filhas se casem com homens de outras tribos – e assim eu, um tupi-guarani,  me senti hornado com a oferta.

Despedi-me de Abdul e de todos na varanda às 9h da noite.

A energia elétrica fora cortada em Harar, como é normal, e a cidade estava na mais completa escuridão.

Voltei a pé para o meu hotel, cauteloso para não tropeçar em alguma hiena pelo caminho. 

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27 Respostas to ““Esta é a minha irmã. Se você quiser, ela é sua””

  1. Coronel Kurtz said

    sensaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaacionaaaaaaal!!!!

  2. thais said

    João,

    Duas coisas:
    1º O Ronaldo Fenômeno JOGA no melhor time do BRASIL
    2º Coloca foto da sua donzela, poxa!

    Se tiver tempo, passa aqui em Maputo
    Beijo e abraço,
    Tha e G.

    • João Fellet said

      Tha, Maputo ta sim nos planos!
      Devo passar uns dias ai la pelo dia 19 de julho. Aviso com antecedencia, claro.
      Nao tirei a foto da donzela… Mas descrevo-a pra vcs em Maputo.
      beijo!

  3. Taí um casamento que eu iria com prazer,com prazer mesmoooooooooooooooo…………

    Rapaz, pra mim foi o ponto alto da sua viagem……..
    Nem tenho o que falar pois achei o máximo tudoooooooooooooooooooo!!!!!!!!!!!!!!!!
    Só faltou sim a foto dela……..
    E digo mais, o Ronaldo tá dando o maior show por aqui no Brasil……
    Ressucitou como sempre……..e nem sou corintiana ein!!!!!!!!

  4. João!

    Sou leitor do blogue desde que vi recomendação do Pé na África, do qual também sou leitor.
    E… Ronaldo em time pequeno???
    Cê é porco né?

  5. Douglas Polo said

    Po, time pequeno é sacanagem…Salve o Corinthians!

    Cara, fantástico o seu blog… você faz o que todos queriam mas não têm coragem…

    Hmmm…Africa…bambi…estou certo?

  6. Sim… e a donzela?
    Posta a foto!

  7. Olá João,

    Acabei de descobrir o teu blog e estou a achar o máximo a tua viagem. Parabéns! É enorme o que estás a viver, tenho a certeza.

    Abraço e continuação de boa viagem. Vou acompanhar!
    Paulo César Santos

  8. m.Jo said

    João,
    Sua percepção sobre os 2 Ronaldos foi severamente afetada pelo quat.
    Decadente?
    Time pequeno?
    Ainda bem que passa.
    Bjks

  9. Mauricio said

    João,
    De blog indicado, secundário, da série B, passou a protagonista principal diário qdo o assunto é Africa, pela riqueza da narrativa de um quotidiano que fascina pelos costumes diferentes.
    Vá em frente

  10. Janaina said

    Abdul estava era a querer um bom alembamento, pá!
    Mais um belo relato, João.
    E maneira no qat. Mas que deu vontade de tomar esse café torrado na hora e preparo ao longo de um ritual de 40 minutos, isto sim não é que deu!
    Beijos

    PS: Só uma perguntinha… Vc volta? :-)

    • João Fellet said

      pois e, jan, alembamento — vc ta por dentrissimo da questao.
      sobre o cafe: aquele ritual e a coisa mais normal do mundo por aqui. entro num restaurantezinho qualquer, e logo vejo uma senhorinha sentada no chao, torrando os graos.
      sobre voltar: uma hora o dinheiro acaba….
      bjs!

  11. manuel fernandes said

    boas joao vc tem sorte demais minino …. a mim o cara ia falar, sai fora que essa ai é minha irma ou te quebro a cara hahahahahaahahah

  12. Tania said

    João, saia correndo daí ele quer casar a irmã que está ficando pra titia! Mas se por acaso é isso que voce quer, não se esqueça de mandar convite, iremos ao casamento com muito prazer! rsrsrsrsrs
    Tania & Ian

  13. Lúcia Nascimento said

    Gente, incrível!!! hehehe =D

  14. Patricia said

    Parabéns, adoro ler sobre a África e seus relatos são ótimos, espero um dia também poder fazer uma viagem até esse continente maravilhoso e ver de perto algumas dos momentos que vc descreve nesse blog que já é um dos meus favoritos.
    Parabéns

  15. Léo said

    João, com todo o respeito, mas o mais gato dessas fotos todas é você!!! Manda mais fotos suas!
    Parabéns!
    Léo

  16. João, aquele sapato fino por cima do fogareiro é seu? Aquilo dá para andar na terra?
    Reparei na almofada ao seu lado, seria uma mensagem da irmã do tal fulano?

  17. Guta Cunha said

    hahaha! Vc ve que o que mais causou furor por aqui,não foi o fato de um homem oferecer a sua irmã a um estrangeiro que acabara de conhecer, mas o fato de vc dizer q o Ronaldo está “num time pequeno”!haha! Curiosidades culturais…haha

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