Menu africano

21/05/2009

A Rê Summa e a Sônia me perguntam sobre a comida na Etiópia.

Até agora, não tive problema algum com ela.

Pelo contrário, a comida etíope (uso um termo impróprio; mais à frente explico) é a melhor que experimentei desde que deixei Maputo, no comecinho da viagem.

Maputo que tem uma enorme vantagem em relação às outras capitais africanas que visitei, pois as águas do Índico que a banham são riquíssimas em peixes e frutos-do-mar.

Tirei as fotos abaixo no Mercado do Peixe, uma das principais atrações gastronômicas da cidade.

Lá, numa feira, primeiro se compram os ingredientes que farão parte do prato.

Depois os ingredientes são levados a um dos vários restaurantes nos fundos da feira, onde são preparados conforme a orientação do cliente.

Há grande oferta de peixes, lulas, caranguejos, mariscos, camarões…

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Se é que os crustáceos acima podem ser chamados de camarões, já que, para mim, estão mais para lagostas.

Mas esqueçamos os camarões de Maputo, que – infelizmente! – ficaram para trás há um bom tempo.

Na maior parte da minha viagem, principalmente quando estive longe da costa e das capitais, as opções de comida eram menos atraentes.

Não que eu tenha passado fome: mesmo nas áreas mais remotas, era sempre possível encontrar algum bar ou restaurante que servisse pelo menos frango ou arroz.

Menos na Etiópia.

Além de ter um alfabeto próprio, um calendário próprio, uma igreja própria e até uma forma própria de contar as horas (aqui, o relógio marca 0h quando o sol nasce e são, para nós, 6h), os etíopes também têm, é claro, uma culinária própria.

Em todos os países africanos em que já estive, com a exceção de Uganda, a base da alimentação é uma massa pegajosa feita a partir da farinha de milho (ou, às vezes, de farinha de mandioca).

Em Angola, essa massa se chama funge.

Como sozinha ela não tem muito sabor, deve ser misturada a molhos de frango, carne, peixe, verduras…

Para ser sincero, não importa a mistura, nunca fui fã do prato – e poucas vezes tive algum prazer comendo-o.

Em Uganda, onde a base da alimentação é uma massa de banana (mas de uma banana levemente salgada, cozida ainda verde – seria a nossa banana-da-terra?), tive mais dificuldades para encontrar algo que me agradasse.

Mas não na Etiópia.

Ainda que não seja possível falar numa comida etíope (já que a Etiópia é formada por um conjunto de povos com tradições e culinárias muito variadas), nas cidades que visitei, comi com gosto quase todos os pratos típicos.

Este, abaixo, foi um dos mais saborosos: injera e carne de vaca com pimenta.

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Aqui, os pratos são geralmente servidos numa bandeja, como na foto.

O injera – o rolo bege (macio e molhadinho) feito de um cereal chamado teff e que está em quase todos os pratos — deve ser desenrolado na bandeja, e a carne, ou o ingrediente que o acompanhar (frango, peixe, legumes…), despejada em cima.

Deve-se então cortar um pedaço de injera, passá-lo na pimenta (o pó vermelho) e enrolá-lo em volta da carne, levando tudo à boca.

Até quatro ou cinco pessoas podem dividir a mesma bandeja — ou seja, num restaurante, um grupo de clientes tem de decidir em conjunto o que vai comer.

Assim como na África rural, o hábito na Etiópia é comer com as mãos.

Antes que alguém se preocupe com as condições de higiene, digo que em todos – todos – os lugares em que comi ao longo da minha viagem, inclusive em barracas no interior do Sudão, havia água e sabão para que os clientes lavassem as mãos antes e depois da refeição.

(Ironicamente, a única vez que passei mal após comer – leia-se: vomitei – desde que me mudei para a África, 1 ano e 3 meses atrás, foi depois de ir a um restaurante caro em Luanda, Angola.)

No caso da comida etíope, aliás, penso que nem haveria outra forma de comer que não com as mãos – seria quase impossível cortar o injera com garfo e faca e depois enrolá-lo na carne.

Além disso, noto que para os etíopes (e africanos em geral), comer é uma atividade que envolve também um prazer sensorial.

Num restaurante no norte de Moçambique, um rapaz me deu uma bem-humorada bronca que me esclareceu a questão: qual era a graça, disse-me ele ao me ver usando garfo e faca, em comer sem tocar a comida, sem tateá-la, sem sentir a sua textura?

Faz sentido, não?

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15 Respostas to “Menu africano”

  1. Coronel Kurtz said

    Seu post me lembrou os textos de Gilberto Freyre sobre culinária.

    É impressionante e admirável o gosto que vossa senhoria, soldado, tem por coisas novas.

    • João Fellet said

      Coronel, o seu elogio deve estar fazendo o Gilberto Freyre se revirar no tumulo.
      Mas obrigado, obrigado!

  2. Quando comemos uma sandes, um bolo, pastel ou fruta também comemos com as mãos mas um prato de arroz de marisco não se consegue. Tem a haver com o tipo de comida e com a tradição.
    Pela descrição a cozinha etíope parece criativa mas também só vi um prato.
    Vou confessar que não gosto muito de funge. Na moamba quase sempre peço arroz branco para acompanhar.
    Agora uma pergunta (como costume): em Moçambique e em Angola não comeu churrasco(de frango ou galinha)?

    • João Fellet said

      Comi sim, Antonio, mas so em Mocambique. Muito bom por sinal.
      Quanto ao arroz de marisco, acredita que ja vi gente comendo-o com as maos?

  3. Obrigadão João!,adorei olhar a comida e essa coisa do sensorial ,pensei que ouvesse mais influencia árabe como kebab(ai em cima) que sim são os espetinhos de frango com um monte de pimenta(mas saborosos)……..(em Ghana) e o mingau de arroz(powrige ?) e agua que vinha em saquinhos plasticos!!!(apesar do médico do Emilo Ribas mandar tomar agua só de garrafa e com gaz,heheheh)mas aonde achar?????????
    Mas adorei tudo: o relato,a forma,as fotos !!!!!!!!!!
    abraços e vamos em frente que tá muito bom!

  4. Janaina said

    João, menino-agora-semi-africano!
    Tem sido uma delícia te ler, acompanhar suas andanças e descobertas pelo enorme continente africano. Faz dias que tenho ensaiado uma mensagem para você. Hoje me vi obrigada a comentar. Isso que você descreve parece com o nosso angu, uma massinha de farinha de milho ou mandioca, escaldada, e de sabor neutro, capaz de casar perfeitamente e não brigar com qualquer outro sabor mais forte, como o de uma carne qualquer.
    E fiquei deveras curiosa com essa (é feminino?) tal de injera! É como se fosse um sanduíche de falafel só que com carne?
    Bem, era só para dizer que o blog está ótimo e que seus relatos me dão uma grande vontade de cair na estrada, de sair mundo a fora vivendo, coisa que pouco tenho feito por aqui!
    Beijo grande,
    Janaina

    • João Fellet said

      Jan!
      Pensei muito em vc ao escrever esse post — morrendo de medo de escrever alguma bobagem e vc ler! rs…
      Espero que nao tenha dito nenhum absurdo… =)
      Sobre o funge, ele e um pouco mais consistente que o nosso angu — nao gosto muito dele exatamente por isso: acho-o muito massudo, muito denso (por isso, alias, e que da para come-lo com as maos…).
      O (ou a) injera tem um sabor mais marcante que o do sanduiche de falafel (que e o gosto do cereal de que e feito, o tal do teff) e pode ser comido com tudo, nao so carne.
      Beijo grande e volte sempre, fiquei muito feliz em ler o seu comentario!

  5. manuel fernandes said

    joao o camarao de moçambique é considerado o melhor do mundo aqui em zurique custa o kg 70 francos suiços reais 130 luxo né mas vale a pena
    abraçao

  6. João Fellet said

    João, calma, não é você falando com você mesmo… É o hacker Zé.
    Entrei no seu blog novamente, vou padronizar as imagens todas, com o tempo, no tamanho de 460px de largura.
    Faça isso no decorrer das publicações agora, é só puxa-las até o tamanho certo (uma “legenda” indica isso no decorrer do processo). É isso.
    Quanto ao post: nunca comi tanta lagosta quanto aqui em Maputo, é o preço de um bom bife…
    Abraço!

  7. menino said

    agora, depois de toda essa explanação, diga: viu muitos McDonalds por aí ou este mal ainda não chegou ao continente?

  8. Fernanda Matsinhe said

    Oi joao,caraca hoje me deliciei lendo seu blog, faz tanto tempo que nao lia… advinha porque aqui na china agora todos os blogs da blogspot tao bloqueados tb, ja nao basta youtube e mais… mas prontos hoje deu pa usar um proxy pa entrar no teu blog tava muito curiosa pa saber onde tu ta, e o que tu anda fazendo…. parabens ai, morri de fome so de ver as fotos, e os mariscos de maputo.. ah ah que saudades da minha terra,entendo que nao gostes do funge como e chamado em angola, xima em mocambique, deve ser estranho se nao estas acustumado, mas eu que como desde pequenina amo e tou morrendo de saudades….
    bjao boa sorte na viajem
    que Deus te abencoe

    • João Fellet said

      Oi, Fernanda.
      Que dificil a conexao ai na China, hein?
      Quando escrevi o texto, imaginei que vc fosse sentir saudades da comida da sua terra!
      bjs

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