A história de Roba Bulga, que fugiu da sua aldeia porque não queria se casar

19/05/2009

DSC05013

Há oito anos, quando Roba Bulga vivia numa vila ao leste de Adis Abeba (Etiópia), descobriu que o seu pai havia se acertado com a família de uma jovem da sua tribo para que ambos se casassem.

Mas Roba tinha 16 anos e sabia que, caso se casasse, teria de interromper os estudos e, assim, estaria fadado a seguir os passos dos seus pais e avós – ou seja, abraçar a vida nômade e pastoralista dos karayu, a sua tribo.

E Roba queria continuar a estudar.

Sabendo das aspirações do filho (e sobretudo temendo-as), seu pai combinou em segredo o casamento com a família da jovem, que tinha a mesma idade de Roba — 16 anos.

Roba seria avisado do acerto apenas no dia da cerimônia – e aí não teria como negar-se a se casar, pois a comunidade toda estaria presente.

E uma vez casado, pensava o seu pai, Roba seria obrigado a se enquadrar nas tradições da tribo – o que significaria largar os estudos e se dedicar exclusivamente aos rebanhos dos karayu.

Entretanto, quando faltava uma semana para a data marcada para o casamento, a irmã de Roba soube dos planos do pai e os contou para o irmão.

E na noite seguinte, quando todos na sua aldeia dormiam, Roba fugiu, cortando a pé as terras que tão bem conhecia, sem temer as hienas e leopardos que àquela hora costumam atacar as suas presas.

Ele caminhou até a cidade mais próxima, a 20 km dali, e de lá pegou um ônibus para Adis Abeba, onde chegou de madrugada.

Então telefonou para uma antropóloga francesa que ali vivia (e que conhecera quando ela esteve na sua vila, para estudar os karayu) e pediu refúgio na sua casa.

Ela o acolheu.

Acostumado a viver entre os animais numa aldeia com 30 moradores, Roba estranhou terrivelmente Adis Abeba, cidade com 3 milhões de habitantes.

Para piorar, Roba não sabia uma palavra em amárico, a língua falada na cidade (e a língua oficial da Etiópia).

A sua salvação foi falar um pouco de inglês, que aprendera na escola (a sua língua-mãe é o oromifa, comum no sul da Etiópia.)

Adis Abeba, aquela cidade enorme, o aterrorizava – exceto quando escurecia e as suas ruas ficavam iluminadas.

Roba jamais havia visto lâmpadas – a eletricidade não chegara à sua aldeia, e, para ele, aquelas luzes que tomavam a cidade quando anoitecia pareciam flores.

Com a ajuda da antropóloga, Roba conseguiu matricular-se na escola em que, três anos depois, terminaria o ensino médio.

Enquanto isso, a sua família estava desesperada com o seu sumiço: temia-se que ele houvesse sido recrutado pelo exército (na época, a Etiópia travava uma guerra contra a Eritreia) ou que, sabendo do seu casamento, decidira se matar.

Foi só alguns meses depois que, por intermédio de um amigo, restabeleceu o contato com a sua vila.

Ficou aliviado ao saber que o acerto que o seu pai havia feito para o seu casamento não se arruinara: em vez de Roba, o irmão dele, um ano mais novo, se casou com a moça.

Roba marcou uma conversa com os mais velhos da sua aldeia, a quem explicou o motivo da sua fuga: ele queria continuar estudando porque sabia que, daquela forma, teria mais condições de ajudar os karayu no futuro.

Foi por não serem escolarizados, argumentou Roba, que os karayu, um povo minoritário na Etiópia, foram expulsos há cinco décadas das terras férteis em que viviam e que hoje enfrentavam condições tão duras.

Se continuasse a estudar, Roba prosseguiu, ele um dia poderia dar voz aos karayu, fazendo com que a sua história fosse ouvida e que, quem sabe, as suas terras fossem recuperadas.

Os mais velhos aceitaram os argumentos e marcaram uma reunião entre Roba e o seu pai.

Naquele dia, Roba estava apavorado – embora tivesse o apoio dos mais velhos (que detêm a autoridade entre os karayu), achava que o seu pai e os seus tios pudessem querer puni-lo fisicamente por ter fugido.

No encontro, o pai de Roba estava furioso: disse que o filho havia desonrado o seu nome na tribo.

No entanto, convencido pelos mais velhos, aceitou a vontade de Roba de continuar os estudos.

Hoje, Roba tem uma boa relação com o pai (os dois estão na foto acima) e está no último ano da faculdade.

A sua história foi recentemente descoberta por uma produtora etíope, que está gravando um documentário a seu respeito.

Fui apresentado a ele pelo embaixador do Brasil na Etiópia, Renato Xavier – que, por sua vez, o conheceu por intermédio de uma amiga italiana.

Roba está ficando famososo, e no entanto anda inquieto.

A sua graduação se aproxima, mas ele ainda não quer parar de estudar – agora, pretende fazer um mestrado em outro país.

Diz que na Etiópia quem decide o que cada um pode estudar é o governo – ele mesmo gostaria de estar cursando direito, mas após passar pelo processo seletivo da universidade, foi alocado no curso de inglês (a jusfiticativa oficial, que não o convenceu, foi a de que a sua nota não era boa o suficiente para obter uma vaga em direito – ele jamais teve acesso à nota).

O seu objetivo continua o mesmo: dar voz aos karayu, que têm passado por maus bocados desde que foram expulsos das suas terras para que o governo etíope criasse uma enorme fazenda de cana-de-açúcar no lugar.

Estive com Roba na sua vila no último fim-de-semana.

A região está sofrendo uma acelerado processo de desertificação: para dar de beber aos seus rebanhos, os karayu precisam conduzi-los por distâncias cada vez maiores.

Não são só os karayu que têm sofrido. Também sem pastagens nem água, os afar, outro povo pastoralista da região, têm disputado esses recursos com os karayu.

Há alguns anos, quando já morava em Adis Abeba e foi visitar a sua vila por alguns dias, Roba teve de pegar um fuzil e juntar-se ao seu pai, irmãos e tios, que tentavam impedir a entrada dos afar em território karayu.

Naquele confronto, 15 pessoas morreram.

Desde então, os conflitos entre os dois grupos têm sido frequentes – o último aconteceu na semana passada e vitimou, do lado karayu, duas pessoas.

Roba tem pressa de se fazer ouvir: ele sabe que, da próxima vez, os mortos podem ser os seus irmãos.

***

DSC04998

A aldeia karayu

DSC05062

A criançada

DSC05024

Os pés

DSC05074

Os irmãos de Roba

DSC05119

Os animais

Anúncios

10 Respostas to “A história de Roba Bulga, que fugiu da sua aldeia porque não queria se casar”

  1. Muito boa essa historia, e nos mantenha informad sobre o paradeiro dele e o documentario tb.
    abrax

  2. Fernando said

    João, confesso que fiquei muito emocionado com essa história do jovem que queria estudar. Que lição de vida, hein?
    Por aí se vê que nem sempre seguir a tradição é o melhor caminho.
    Um abraço
    Fernando

  3. bem João se de alguma forma puder ajudar ,gostaria ,isso é realmente muito importante pois o lugar que eu conheci em Sirigu/ghana a melhora foi feita por uma das senhoras que conseguiu estudar e assim poder ajudar sua tribo,infelizmente por aí é isso mesmo………..e é o único jeito senão acaba mesmo!
    Não sei como poderia! mas aqui vai uma mão………qualquer coisa mande pelo meu e-mail,que eu acredito que vc tem acesso,abraços sonia

    • João Fellet said

      Oi, Sonia. Tambem penso em como poderia ajudar. Dificil, dificil…
      Se tiver uma ideia, te aviso.
      Abracos

  4. Cristiano said

    É o que se pode chamar de uma história do karayu…

  5. Fantalle Hawas said

    If this is by English I am happy at all because this is about karayu and I am part of Karayu that Roba is my friend so I want to read it well.

  6. roba said

    Hey friends and readers, the film is already released and started to be seen. here is the trailer…http://www.youtube.com/watch?v=9exM-H0n3OA

    have a look at it and let me know you comments…

  7. Kuulani said

    To all those who have an interest in the Karrayyu and Roba you may like to see the website of an NGO that has been recently established to support the Karrayyu community:

    http://www.labatafantalle.org

    Roba is a founding member of this organisation which is looking for positive and sustainable ways forward during a time of rapid change.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: