Perseguindo detritos da humanidade

18/05/2009

Porque estou cada vez mais convencido de que quanto mais nos distanciamos da nossa terra, mais fundo mergulhamos nas nossas memórias mais antigas, peço licença à minha querida amiga Ju para dividir com vocês este lindo texto do Lévi-Strauss, que li há algum tempo no blog dela:

Sobretudo, indagamo-nos: o que viemos fazer aqui? Com que esperança? Com que dificuldade?

Meus condiscípulos mais ajuizados que se inclinaram para a política hoje eram deputados, em breve, ministros.

Quanto a mim, eu corria os desertos perseguindo detritos da humanidade.

Quem ou o que me levara, afinal, a jogar pelos ares o curso normal da minha vida?

Era um estratagema, um hábil desvio destinado a me permitir a reintegração em minha carreira com vantagens suplementares e que seriam levados em conta?

Ou minha decisão expressava uma incompatibilidade profunda com meu grupo social, do qual, acontecesse o que acontecesse, eu estaria fadado a viver cada vez mais isolado?

Por um paradoxo singular, minha vida aventureira mais me devolvia o antigo universo do que me abria um novo, ao passo que este que eu pretendia dissolvia-me entre meus dedos.

Assim como os homens e as paisagens a cuja conquista eu partira perdiam, quando eu os possuía, o significado que eu esperava, assim também a essas imagens decepcionantes, conquanto presentes, substituiam-se outras, guardadas por meu passado e às quais eu não dera nenhum valor quando ainda pertenciam à realidade que me cercava.

Semanas a fio, naquele planalto do Mato Grosso, eu vivera obcecado, não pelo que me rodeava, mas por uma melodia muito batida que minha lembrança empobrecia ainda mais: a do Estudo número 3, opus 10, de Chopin, no que, por um escárnio cuja amargura também me sensibilizava, parecia resumir tudo o que eu deixara atrás de mim.

Tristes Trópicos, Claude Lévi-Strauss.

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2 Respostas to “Perseguindo detritos da humanidade”

  1. juborges said

    Esse texto é realmente muito fodaço. Li quando estava em algum lugar entre a África e a China e achei que não havia nada mais apropriado do que ele para descrever o que a gente aprende viajando. To com saudade, João! bjs

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