Impressões de um alienígena em Adis Abeba

08/05/2009

Como escrevi no post anterior, ainda que viajar por terra seja, na minha opinião, a melhor forma de se deslocar pela África, deve-se levar em conta o risco que atravessar certas regiões remotas do continente encerra.

Estou no Chifre da África (ou, como dizem em Angola, no Corno d’África), uma  das regiões mais instáveis – senão a mais instável – do mundo.

horn_of_africa

À leste, está a Somália, uma terra sem lei nem governo.

Conheci em Lodwar (Quênia) uma jornalista que esteve no ano passado em Mogadíscio, a maior cidade somali (e, em tese, a sua capital – ainda que o governo lá constituído não controle mais do que o prédio em que está instalado).

Ela foi com um amigo somali e planejava ficar alguns dias, para relatar num jornal queniano como eram as condições de vida por lá.

Ela me contou que, nas ruas de Mogadíscio, todos os homens (inclusive alguns meninos) portam armas.

Queria lhe perguntar que moeda usavam, o que comiam (e de onde vinha a comida), como era o comércio, se as pessoas tinham documentos…

Mas ela não saberia me responder, pois, durante as poucas horas em que ficou na cidade, teve um ataque de pânico e, temendo que a sua nacionalidade (ou pior: a sua profissão) fosse descoberta, decidiu refugiar-se no aeroporto (sim, há um aeroporto que funciona razoavelmente por lá) e pegar o primeiro vôo de volta ao Quênia.

Recentemente, a Somália virou assunto mundial por causa dos ataques dos seus piratas.

No norte do Quênia, bem como no leste da Etiópia, são constantes os ataques da versão terrestre, digamos assim, desses piratas – os shifta. Como no sul do Sudão, valem-se do fraco policiamento para roubar quem trafega pela região.

Mas como não atacam cargueiros americanos ou europeus (e sim simples viajantes ou comerciantes da região), não ocupam as páginas dos principais jornais mundiais – ainda que seus ataques sejam mais letais.

Ora, se eu fosse viajar do Quênia à Etiópia por terra, atravessaria uma região onde os ataques dos shifta são frequentes.

O Paul Theroux, escritor americano que viajou por terra do Cairo à Cidade do Cabo em 2001, fez esse trajeto e o caminhão em que estava (pois ônibus não se aventuram pela região) foi alvejado. Por sorte, um dos passageiros estava armado e, após trocar tiros com os shifta, abriu caminho para que o veículo escapasse.

Eu, que não fazia questão de correr esse risco, resolvi vir para a Etiópia de avião.

Agora, por ter “pulado” as regiões e os povos que suavizariam a minha entrada no país, estou me sentindo um alienígena.

Adis Abeba é radicalmente diferente de qualquer outra capital africana em que já estive.

Se Nairóbi fica a 1.400 metros acima do nível do mar, Adis está a 2.600 metros.

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Carregando a minha mochila para lá e para cá, constantemente tenho de parar para retomar o fôlego.

Às vezes, não são os meus pulmões que me mandam parar, mas sim as cenas absurdas que presencio.

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Vejam a pilha de 20 (!!!) colchões que o homem à direita carregava na cabeça – quanto será que aquilo pesava??

E este burro parado no meio de um movimentado cruzamento – quem será que o deixou lá??

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Já estas cabras tinham dono (o sujeito de azul com a varinha) – mas o que faziam no centro da cidade???

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E esta fila de burros – o que carregavam?? Para onde iam??

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Perto daqueles animais, os inúmeros cães vira-latas de Adis nem chamam a atenção.

DSC04486

Mas a quantidade e variedade de animais em Adis Abeba (uma cidade de 3 milhões de habitantes!) não é o que mais me impressiona por aqui.

A cidade abriga pessoas que parecem saídas de filmes da Bíblia.

DSC04451

E os milhares de mendigos espalhados por suas ruas? Há velhos, mutilados, loucos, leprosos, cegos, aleijados, epiléticos, deformados – nunca vi tanta gente com um aspecto tão terrível.

E no entanto sobrevivem, pois muitos que passam lhes atiram moedas.

E o que dizer dos letreiros em amárico, a língua mais falada no país?

dsc04439

As letras não parecem bonequinhos dançando?

Vi tudo isso no meu primeiro dia na Etiópia.

Devo ficar em Adis Abeba uma semana, antes de viajar pelo interior (mas não em áreas dos shifta, mãe!).

Tenho quase um mês para absorver o máximo que puder deste país que, algo me diz, vou adorar.

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13 Respostas to “Impressões de um alienígena em Adis Abeba”

  1. menino said

    Aramaico é a língua mais falada do país? Jesus.

    Ow, Fellet, fiquei com uma curiosidade: você poderia descrever um dia inteiro seu por aí? Tipo, “24hs em Adis”?? Fiquei curioso pra saber como é sua rotina…
    abraço!

  2. Fernando said

    É verdade que muitos etíopes são judeus? Uma espécie de ramificação judia negra na África?
    Cara, vibro muito com suas aventuras!
    Você tem patrocínio nesta viagem? É a trabalho ou aventura mesmo?
    Um abraço
    Fernando

    • João Fellet said

      Ola, Fernando. Bem que queria um patrocinio, viu…
      Como respondi ao Antonio, sei que existem muitos judeus etiopes em Israel, mas nao sei quantos deles estao aqui.
      Vou pesquisar.
      Abracos

  3. Judeus e Cristãos Coptas, não é? Confirme, João.

    Acerca da altitude, as cidades no interior de Angola também ficam a grande altitude. Malanje (1000m), Huambo (mil e tal metros) e o Lubango (quase nos 2000m). Espero não estar enganado em relação às duas ultimas mas Malanje eu sei porque morei lá.

    • João Fellet said

      Acho que a maioria sao cristaos coptas, Antonio.
      Tenho a impressao de que os judeus nao sao tao numerosos — preciso me informar. Quero tambem ler sobre quando Israel resgatou milhares deles durante uma grande seca, atraves do Sudao.
      Quanto as cidades angolanas que menciona, infelizmente nao estive em nenhuma delas — fora de Luanda, so conheco Menongue, Benguela e Soyo.
      abracos

  4. Lara said

    Ah, vc não percebeu que no letreiro estava escrito “patras”? ;P

    Vc já tomou o café etíope? Dizem que é o melhor do mundo… Aproveite!

    • João Fellet said

      hahaha agora sim entendi o letreiro, Lara.

      O cafe etiope e fantastico. Vou escrever a respeito.

      abracos

  5. Coronel Kurtz said

    mamãe, fique tranquila. Isso é hilário.

  6. Joyce said

    Aproveite muuuito e não deixe de contar cada detalhe desta semana!
    Falei para a Rosália que estou ficando “viciada” com esta viagem.. :)
    Um abraço e… sorte!

  7. said

    Oi João, é a Renata da ECA. Legal o teu blog e suas aventuras. Me faz “viajar” um pouco quando estou de saco cheio de ficar sentada na frente do computador escrevendo minha dissertação. E engraçado de ver relatos reais sobre fenômenos que estudei recentemente, como o Exército do senhor de Uganda.
    Ah, e você tà fazendo freelas dai? Se sim, me fala onde posso ler suas matérias!
    Biejos

    • João Fellet said

      Oi, Re! Tudo bem?
      Que tal a vida de mestranda?
      A sua dissertacao e sobre a Africa??
      Vou te mandar os links dos freelas por email.
      beijos!

  8. Cesar de Lima e Silva said

    Genial todo o blog e em especial as letras que parecem bonequinhos dançando. Li sobre o seu projeto no site Novo em Folha e agora vou ficar por aqui, ok? Boa sorte, João.

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