A pior forma de viajar pela África

07/05/2009

Cheguei a Addis Abeba, a capital da Etiópia, com o pior meio de transporte possível.

Se pensam que me refiro a uma van ou a um ônibus caindo aos pedaços, estão enganados.

Cheguei a Addis Abeba à bordo de um avião.

E estou certo de que não há jeito pior de viajar pela África do que de avião.

Não que as companhias aéreas africanas sejam ruins – até hoje, já viajei em aviões de três empresas angolanas, duas sul-africanas, uma ungandense e uma etíope (a que me trouxe até aqui — a Ethiopian Airlines).

Com a exceção de uma das companhias angolanas – a TAAG, a única que liga o Brasil a Angola e que certamente concorreria ao posto de pior empresa aérea do mundo (voando com ela, já passei as 10 horas do trajeto Rio – Luanda embaixo de uma goteira!)–, todas as outras tinham aviões modernos, foram pontuais e ofereceram um serviço eficiente.

E então por que digo que viajar de avião é a pior forma de se deslocar pela África?

Porque, num continente em que a cada 100 km percorridos numa estrada depara-se com um povo diferente, com tradições diferentes e uma língua diferente, os longos deslocamentos em curtos períodos que as viagens aéreas permitem provocam choques muito intensos.

Assim, acho inválida, no caso da África, a ideia de que quem viaja de avião ganha tempo para conhecer mais destinos.

A não ser que o objetivo do viajante seja apenas pisar no maior número de lugares possível, viajar de avião terá o efeito inverso; se ele de fato quiser conhecer os lugares que visitar, será melhor viajar por terra, sem percorrer distâncias muito longas de uma só vez.

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A estrada Torit-Kapoeta (Sudão)

Isso porque viajar por terra na África possibilita acompanhar melhor as transições de povos/culturas/línguas, o que ajuda a superar mais rapidamente o choque quando se pisa em algum lugar pela primeira vez.

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Vila à beira de estrada no Sudão

Além disso, caso queira realmente saber o que se passa com a maioria dos africanos – que ainda vive no campo, muitos em áreas somente acessíveis por terra –, um viajante terá de pegar a estrada e sofrer um pouco (desde, é claro, que haja um mínimo de segurança).

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Pneu furado na viagem Kapoeta – Quênia

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Ponte “cai-não cai?” na estrada para o Quênia

Vou da teoria à prática:

Quando fui de Uganda ao Sudão de avião (porque a estrada estava interditada), embora tenha “economizado” dois dias de viagem, levei ao menos uns três dias para começar a assimilar o ambiente que me envolvia.

Nesses três dias, me senti como se tivesse pousado num outro planeta e enfrentei uma enorme dificuldade para me comunicar, decifrar os sinais das pessoas e até me adaptar ao clima.

No entanto, quando cheguei por terra ao noroeste do Quênia a partir do sul do Sudão, depois de três dias de viagem (sempre parando à tarde nos vilarejos em que dormiria), embora estivesse pela minha primeira vez num deserto, não estranhei tanto assim.

Afinal, eu acompanhara a mudança gradual do clima, e o noroeste do Quênia é habitado pelos turkana, povo que tem muito em comum com os vizinhos toposa (que eu conhecera nos dias anteriores, no Sudão).

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Vila toposa, no Sudão

Tanto os toposa quando os turkana são povos nômades e com tradições pastoris, e as suas línguas e os seus costumes são similares.

A organização social dos dois povos gira em torno dos seus rebanhos – a principal fonte de comida e também a sua principal moeda: caso queira se casar, um homem deve presentear a família da futura mulher com algumas cabeças de gado (no caso dos turkana, servem também camelos ou bodes).

E caso cometa algum crime, a pena para um toposa ou um turkana será a perda de alguns de seus animais (que serão dados às famílias das vítimas).

Tão abrangente é o papel econômico dos rebanhos nessas sociedades que muitos turkana ou toposa jamais puseram as mãos numa nota de dinheiro.

Eu poderia ter lido sobre isso em algum verbete da Wikipédia e até discorrer sobre o assunto. Mas foi atravessando as estradas daquela região que tive a real dimensão do que aqueles animais significam para os dois povos.

Quando estava no meio da estrada entre Torit e Kapoeta, no Sudão, a minha van freou subitamente: à nossa frente, uns 200 bois bloqueavam a passagem.

Ao redor do rebanho, havia pelo menos dez pessoas, entre homens e mulheres e crianças, que aparentemente o conduziam para um pasto.

Quando nos aproximamos, vi que a maioria deles, inclusive algumas crianças, carregava uma AK nos ombros – eles guiavam aqueles bois como se estivessem escoltando um carro-forte.

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Um dos membros da escolta armada

As armas eram necessárias porque, como escrevi aqui, aquela região não tem dono, e,  para os seus habitantes, polícia é uma palavra sem sentido. Cada um tem de proteger por conta própria as suas riquezas das tribos vizinhos – porque os roubos de animais são constantes e geralmente resultam em matanças.

Se não tivesse percorrido aquela região por terra, talvez jamais tivesse a percepção de que, ainda que as rivalidades tribais a que se atribui grande parte das guerras no continente africano tenham origens remotas e pareçam incontornáveis, o que as alimenta e as torna tão duradouras é a ausência de Estado, de algum ente superior que submeta esses povos diversos às mesmas regras e que, sobretudo, faça valer a Justiça.

Fui muito longe – quando comecei este texto, queria apenas falar do choque que estou sentindo por ter vindo à Etiópia de avião.

Mas como o meu amigo Paulo Araújo me ensinou que, em blogs, não se deve escrever tanto, deixo o assunto (bem como a justificativa para que eu tenha vindo para cá de avião) para o próximo post.

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16 Respostas to “A pior forma de viajar pela África”

  1. Ei João,desde que vc pontue com fotos o texto fica ótimo ler tudo,eu adoro!
    abraços e vamos lá……..sonia

  2. Gabriela said

    Oi!

    Sim! Lendo esse post fiquei pensando q q tu ta fazendo aí?! heuauhe

    Goteira em avião é muito incrivel ehauheuaheuha

    Enfim, adoro ler teus post e achei muito justo que em caso de crimes a punição seja dar animais… talvez assim as pessoas cuidem melhor de seus próprios problems =)

    É fácil conseguir armas por aí?

    Beijos!

  3. Paulino said

    Amigo João,
    Com um texto fabuloso como esse seu, eu leria até o Alcorão inteiro em formato de um post de blog. Não se esqueça que Natal te espera
    Paulino

  4. Cfe said

    Paulo Araújo ?

    Eu conheço um Paulo Araújo na Net…

  5. Mara said

    João, sua narrativa tá super envolvente! Sem essa de escrever pouco… estou aqui babando! Manda mais! Boa sorte aí, cara!

  6. Lúcia Nascimento said

    Com certeza viajar de avião é perder um tanto do que é a África. Ao mesmo tempo, como já comentei, acho que pelo menos uma vez é interessante – porque de cima também dá pra perceber coisas diferentes. Os grandes vazios sempre me chamavam muita atenção!

    Mas… com certeza as viagens de van são mais cheias de histórias e de recompensas! =) Desde que sejam seguras, hehe!

    Sua viagem é fantástica, hein? É um dos meus sonhos de consumo! Aproveite!!

    Beijos

    • João Fellet said

      Oi, Lucia
      Concordo com vc: viajar de aviao tem a vantagem de permitir ver tudo por cima.
      beijos

  7. Concordo em pleno com a sua afirmação.

  8. CBR said

    João,

    Não nos conhecemos, mas partilho 100% com a reportagem e esplanação feita.
    Também sou um aficcionado desse tipo de viagens,por terra, nada melhor para se conhecer realmente a realidade de Africa ou de outro continente.
    Porém,o conceito de muita gente no nosso país, é que viagens longas ou curtas sómente se fazem de avião, porque quem viaja por terra, de automóvel ou de outro meio de transporte terrestre é: maluco ou pobre.
    No conceito de alguns, muitos, viagens são apenas áquelas efectuadas de avião,se possível em 1ªclasse. O que afinal conhecem: aereportos,centros comerciais, e na mais.
    Por incrível que pareça, conheço conterraneos nossos que vivem na capital, têm bons meios de transportes, mas não conhecem nada, nada, para além de Luanda.
    Não conhecem o povo, as diversas culturas, belezas naturais , etc, já nem falo em viajar para paragens mais longinquas, atravessar fronteiras.
    Disfruta da aventura, goza, boa viagem.

    Um abraço companheiro

    Fernando

    Para esses, os de avião, todos os outros que viajam por terra são malucos ou pobres.

    • João Fellet said

      Concordo plenamente, Fernando.
      Aproveite e viaje bastante por Angola — o que fiz pouco, e do que me arrependo.
      Abracos!

  9. Vanessa said

    Olá João! Mto interessante e bom o seu blogue!
    Estou adorando! Aparecerei mais vezes para desfrutar de suas viagens!
    Relate-nos o máximo que puder e nos permita conhecer a África, tão renegada por nós, que somos filhos dela!
    Grande abraço!

  10. […] Escrevi, há alguns dias, sobre a pior forma de viajar pela África. […]

  11. celia antas said

    oi viajante
    Gostei muito dos seus comentarios. Viajar é um curso comp´leto de Historia e Geografia com grande pincelada de ciencias sociais

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