Uma tentativa de golpe e a minha despedida precoce do Quênia

06/05/2009

africa

Andava pelo centro de Nairóbi, a capital do Quênia, pensando no quão injusto é o apelido que a cidade ganhou por sua fama de violenta – Nairobberry.

Afinal, em poucas cidades africanas em me sentia tão seguro, caminhando por calçadas limpas e entre edifícios tão bem cuidados.

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Embora esteja próxima da linha do Equador, Nairobi tem, por causa da sua altitude (1.700 metros acima do mar), um clima muito agradável.

Aqui, pelo menos no centro da cidade, é impossível encontrar imagens clichês da África – como mulheres carregando baldes na cabeça com bebês presos às costas, cobertas por panos multicoloridos.

Pelo contrário, em Nairóbi, quase todos trajam roupas que seguem a mais conservadora etiqueta do Ocidente.

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Homens e mulheres andam para lá e para cá com muita elegância, como se fossem empresários a caminho de importantes reuniões de negócios; entretanto, a maioria dessas pessoas tem empregos modestos – secretárias, professores, comerciantes…

De qualquer forma, fazem parte de um grupo social que praticamente inexiste na enorme maioria dos países africanos: a classe média.

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Mas a prosperidade do centro de Nairóbi camufla a obscura situação política e social do Quênia.

Enquanto fotografava a cidade, fui abordado por um senhor de uns 45 anos que, à moda de Nairóbi, estava vestido com camisa de mangas longas e calça social.

“De onde você é?”, ele me perguntou.

“Brasil”.

“Ah, vocês produzem um cacau de excelente qualidade!”

Esperava ouvir “Brasil??? Ronaldinho! Kaká! Robinho!” – a previsível reação a que brasileiros no exterior estão acostumados quando a sua nacionalidade é revelada (e na África, há um fanatismo especial em relação aos nossos jogadores; em Nairóbi, várias vans exibem pôsteres dos nossos jogadores, e vi uma inteiramente dedicada ao goleiro Dida(!))

Portanto, fiquei surpreso que aquele homem mencionasse a nossa produção de cacau.

Perguntei-lhe como ele sabia a respeito do cacau brasileiro – seria ele fanático por chocolate?

“É que sou professor de geografia. Tenho grande interesse em agricultura”, ele me disse.

Então começamos a conversar ali mesmo, no meio da rua, sobre a agricultura brasileira e a queniana – outrora muito próspera, mas que levara um forte golpe durante o último grande conflito no país, no começo de 2008, após as últimas eleições presidenciais.

Após uma disputa apertada (e tudo indica que fraudada) em que o presidente Mwai Kibaki – da tribo kikuyu, a mais rica, numerosa e poderosa do Quênia – se reelegeu, no interior do país estourou uma revolta.

Armados com fuzis, machados e até flechas envenenadas, integrantes de tribos que se consideram marginalizadas pelos kikuyu (especialmente os luo, a tribo do pai do Obama) iniciaram uma ofensiva contra os rivais.

Os kikuyu eram perseguidos e mortos, e suas casas e lojas, saqueadas e incendiadas. Calcula-se que mais de 1.500 pessoas tenham morrido nos conflitos, e 300 mil tenham sido deslocadas (vi, vindo de Lodwar a caminho de Nairóbi, ao menos uns cinco grandes acampamentos onde boa parte desses refugiados ainda está alojada).

A violência paralisou o país por dois meses – o comércio, os bancos e as escolas fecharam; as colheitas foram suspensas; as operações nos portos foram parcialmente paralisadas.

O professor de geografia me contava que ele também fora afetado pelo conflito: “faz mais de um ano que não dou aulas…”

Como a conversa estava boa, ele sugeriru que a continuássemos num bar ali próximo.

Chegando lá, perguntou educadamente se eu poderia lhe pagar um chá e uma torta.

Ele estava em Nairóbi fazia duas semanas, participando de reuniões com outros professores que também haviam perdido o emprego depois do conflito. O objetivo era pressionar o governo a ajudá-los financeiramente, ou a restabelecer as condições para que voltassem a dar aulas.

Solidarizei-me com a causa dele e concordei em pagar a sua comida.

Notando uma grande cicatriz na sua testa, perguntei-lhe se ele era de uma tribo nilótica do norte do país.

Mas não, ele era um Meru, uma tribo queniana bantu e minoritária.

Aquela cicatriz tinha uma explicação macabra – durante o conflito pós-eleitoral, a escola em que ele trabalhava fora atacada, já que o seu dono era um kikuyu.

Ele estava lá no momento do ataque e, quando tentava fugir, levou uma machadada na cabeça.

Depois disso, só se lembra de ter acordado num acampamento da Cruz Vermelha, com o rosto todo enfaixado – provavelmente desmaiara após ser atacado e, milagrosamente, alguém o salvara, levando-o ao posto médico.

As cicatrizes que ele exibia eram as marcas do machado que por pouco não partiu o seu crânio ao meio.

Ouvia a história horrorizado, sorvendo lentamente o meu suco de maçã.

De repente, dois homens caminham em direção à nossa mesa.

“Com licença. Somos agentes da polícia especial queniana”, disse-me um deles enquanto mostrava uma carteirinha, que mal examinei. Os dois se sentaram na nossa mesa.

“Podemos saber sobre o que estão conversando?”, perguntou o outro homem – ambos estavam vestidos à paisana.

“Sobre nada. Acabamos de nos conhecer. Estamos conversando sobre os nossos países”, respondi, assustado com a abordagem.

À minha frente, o professor de geografia estava petrificado.

“Senhor”, disse-me o policial que me abordara. “Estamos procurando este homem há muito tempo. Aliás…”,  e disse voltando-se ao professor: “…você está preso”.

“Venha comigo agora”, disse-lhe o outro policial, levantando-se.

Mudo, o professor se levantou e caminhou até a porta do bar, acompanhado pelo agente.

O outro policial ficou sentado à minha frente.

“Quem é aquele homem??”, perguntei-lhe.

“É um ugandense. Está ilegal no país. Depois que a embaixada americana foi bombardeada aqui em 1998 [o ataque foi atribuído à Al Qaeda], aumentamos a nossa atenção em relação a estrangeiros neste país. O senhor, por sinal, de onde é? Onde está o seu passaporte?” – as perguntas tinham um tom ameaçador.

Mostrei-lhe, nas minhas mãos, a capa do meu passaporte: “Sou brasileiro, vê?” –torcendo para que ele respondesse “Brasil?? Robinho! Ronaldo!”

Mas ele examinou o passaporte em silêncio e, sem tocá-lo, acenou a cabeça, sinalizando que eu poderia guardá-lo.

“Ele me disse que era queniano, um meru. Como vocês chegaram até ele?”, quis saber.

“O pessoal do bar nos avisou que havia um homem com sotaque indígena aqui [na África, são considerados indígenas os povos nativos que ficaram à margem da modernidade – ao menos essa é a minha impressão.] Viemos checar e o reconhecemos”.

Neste momento, o segundo policial voltou à nossa mesa.

“Encontramos uns euros falsos com aquele homem. Você foi a última pessoa vista na companhia dele. Como podemos saber que não foi você quem lhe deu aquele dinheiro?”

Aquela situação toda já me parecia muito estranha, e, depois daquela última frase, tive a certeza de que aqueles homens tramavam um golpe contra mim.

Tentei sair da defensiva: “O senhor está fazendo uma acusacão contra mim?”

“Não. Estou apenas dizendo que encontramos dinheiro falso com aquele homem, e que você foi o último a ter contato com ele. Quando você o conheceu?”

“Agora há pouco, na rua. Ele me disse que era um professor de geografia, que era queniano – ele parecia dizer a verdade.”

“E como você confia assim nas pessoas? Podemos saber que moedas você está carregando na sua carteira?”, perguntou o segundo agente.

“Você me fez algumas perguntas, eu já lhe dei as respostas. Se quiser continuar com o questionário, então vamos à delegacia – e eu vou querer falar com a minha embaixada” – falei alto para que outras pessoas no bar ouvissem as minhas palavras, especialmente delegacia e embaixada.

A minha estratégia surtiu efeito – os outros clientes nos notaram, e os dois homens baixaram o tom.

“Não se preocupe, não precisaremos ir à delegacia. Foi um prazer conhecê-lo. Tome cuidado com estranhos – Nairóbi é um lugar muito perigoso”, disse-me o primeiro policial, o mais educado.

E foram ebora.

Esperei uns cinco minutos e também saí. Andava rápido e a cada minuto olhava para trás, para ver se alguém me seguia.

Cheguei ao hotel e comecei a especular sobre o que acontecera.

No princípio, cogitei que todos – o professor de geografia e os dois “policiais” – estivessem mancomunados, e que a cena da prisão tivesse sido uma encenação. O objetivo deles seria forjar uma ligação entre mim e o “imigrante ilegal” e, ameaçando me prender ou me interrogar, cobrar pela minha absolvição prévia.

Mas eu realmente acredito que o professor falava a verdade, e portanto descartei essa  hipótese.

Então cheguei a cogitar que os dois homens realmente fossem da tal polícia especial e que haviam farejado o teor politico da minha conversa com o professor – que teria sido preso por relatar para um estrangeiro a imundície da política queniana, manchando a imagem do país.

Mas descartei também essa hipótese porque, ainda que no Quênia haja perseguição política, aquele professor me parecia um peixe muito pequeno.

Fiquei, portanto, com a seguinte hipótese:

O professor de geografia era realmente um professor de geografia – queniano do interior, de uma tribo discriminada e sem nenhum tostão.

Já os dois homens eram picaretas – ainda que talvez realmente fossem policiais. Viram dois homens que poderiam ser estrangeiros e pensaram que poderiam intimidá-los.

Quando um deles constatou que a presa mais fácil – o pobre professor de geografia – era realmente queniano (e, portanto, não poderia ser extorquido por estar ilegal no país; ademais, ele nem tinha dinheiro algum), voltaram-se contra mim.

Mas eu também estava legal no país (além disso, era do Brasil – “Ronaldo! Robinho!” – um país distante e sem qualquer conexão com redes terroristas que poderiam operar no Quênia).

Percebendo que também seria difícil arrancar algo de mim, desistiram.

Ah, Quênia!

Como eu queria ficar mais por aqui – e escrevo isso com toda a sinceridade.

A tentativa de golpe no bar foi a melhor introdução ao país que eu poderia ter.

Quênia, claro, que não é feito só de intrigas políticas e rivalidades tribais e tentativas de golpe – mas que, para um jornalista, dão ao país um excelente tempero.

Queria muito ficar mais e ver Lamu, Malindi, Mobassa – as cidades costeiras com riquíssima história.

Queria ir ao Masai Mara, ver a migração dos bisões (a maior migração de mamíferos do planeta; dá para vê-la até do espaço!); e queria ficar mais tempo mesmo em Nairóbi, conhecê-la melhor, escolher o meu parque, o meu restaurante, o meu bar.

Mas o tempo urge, e eu preciso avançar, continuar a subir rumo ao Cairo.

Mais do que isso: há algumas semanas, não consigo pensar em outra coisa que não o meu próximo destino – a Etiópia, o país de guerras intermináveis e de crianças esquálidas, mas também um país com uma cultura milenar, o único país africano que jamais foi colonizado.

É para lá que vou daqui a pouquinho.

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9 Respostas to “Uma tentativa de golpe e a minha despedida precoce do Quênia”

  1. Carol said

    Nossa, que agonia que me deu a abordagem ao tal professor! Deu uma pena. Cheguei a torcer para que ele fosse, de fato, um picareta…
    Sorte na Etiópia!

    bjo

  2. sabrina bigao said

    Vi uma indicação para o seu blog no Blog da Folha. Adorei!!!!!!!
    vou passar sempre aqui!

  3. Gabriel Mitani said

    Digníssimo,

    Das belas histórias dessa gigantesca aventura, essa com certeza foi a que me causou a maior arritimia de todas. Haja coragem e perspicácia, não?

    Como é impossível lhe recomendar que aproveite ao máximo, me despeço com um abraço,

    Gabriel Mitani (CAJ/08)

    • João Fellet said

      Fala, mestre!
      Eu confesso que tambem sofri com uma arritmia na hora da abordagem.
      Mas somos jovens, o coracao ainda aguenta bem!
      abracao

  4. m.Jo said

    João,
    Acho que desejar sorte é pouco. Desejo inspiração. Que o Espírito Santo comtinue a te iluminar.
    Pode parecer babaca, mas funciona.Feitiçaria do bem.

  5. Fernando said

    Você vai passar pela Somália? Ou seria maluquice demais? Mas seria muito interessante um jornalista brasileiro na Somália! Ia dar o que falar! Que tal?
    Seu fã de carteirinha
    Fernando

    • João Fellet said

      Fernando, desta vez acho que a Somalia vai ficar de fora. Mas nos proximos anos, quem sabe.
      Abracos!

  6. Ainda bem que não se intimidou e conseguiu raciocinar na hora com clareza. Boa sorte.

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