Terra de ninguém

01/05/2009

Estou em Lodwar, cidade no meio de um belíssimo deserto no noroeste do Quênia.

Agora que não estou mais no Sudão, posso contar o que aconteceu quando, lá, viajei de Juba a Torit, na última terça-feira.

Torit fica no meio do caminho entre Juba e a fronteira do Sudão com o Quênia.

Há apenas uma estrada que corta essa região – uma estrada de terra sem qualquer sinalização.

Eu sabia que nos últimos anos a região que essa estrada atravessa havia sofrido bastante com ataques de rebeldes do LRA (Lord Resistance’s Army), um grupo guerrilheiro de Uganda que ganhou fama por sua brutalidade – costuma incendiar vilas de civis e raptar meninas para fazer delas escravas sexuais.

O objetivo declarado do LRA é criar um Estado governado pelos 10 mandamentos bíblicos – mandamentos que, ironicamente, eles são os primeiros a desrespeitar.

Na prática, o LRA é apenas uma entre várias milícias que aterrorizam vilarejos numa região ingovernável que vai do nordeste do Congo ao sul do Sudão, passando pelo norte de Uganda. Seus integrantes vivem da pilhagem e da eventual ajuda de regimes políticos (diz-se que, durante a guerra civil sudanesa, o LRA recebeu armas do governo do Sudão para atacar alvos no sul do país).

Pois eu dizia que a estrada que eu pegaria de Juba a Torit foi, nos últimos anos, um alvo do LRA – que atacava quem estivesse passando (mesmo veículos da ONU) atrás de dinheiro.

Mas fazia dois anos que não havia incidentes por lá, desde que uma ofensiva conjunta dos exércitos de Uganda e do Sudão enfraqueceu o LRA e o fez buscar refúgio nas selvas do norte do Congo.

Mesmo assim, estava receoso, e por isso chequei dezenas de vezes (e com gente de todo tipo) para me certificar de que a estrada estava realmente segura.

Sim, estava segura, todos me garantiam. Tanto que, fazia poucas semanas, o exército sudanês havia desmontado uma grande base por lá – pois não havia qualquer ataque na região desde 2007.

Assim, entrei despreocupado na van que me levaria a Torit. Eram 8h10 da manhã, e os passageiros estavam chegando.

Quando todos os lugares foram ocupados, por volta das 9h30, achei que fôssemos partir. Mas lá ficamos. Como chovia horrores em Juba, pensei que o motorista estivesse esperando o temporal dar uma trégua.

Por volta das 11h, a chuva parou, mas só partiríamos às 13h, sem que nenhum novo passageiro tivesse chegado desde que a van enchera.

Íamos numa fila de três vans – a nossa era a última.

Estava sentado à frente, entre o motorista e um homem bem-vestido, com um crachá do SPLM na camisa – Sudan People’s Liberation Movement, o partido no poder no semi-autônomo sul do Sudão desde o fim da guerra civil, em 2005. Li que o nome dele era Anjelo.

Logo chegamos à estrada, em terríveis condições por causa da chuva.

Anjelo conversava com o motorista em árabe.

De repente, ele puxa papo comigo, em inglês: “O motorista está me contando que uma van como a nossa foi atacada nesta estrada hoje pela manhã.”

O quê? Depois de tantas inquirições, não esperava ouvir aquilo.

“E por que ele não nos avisou do ataque antes de partirmos??”, perguntei, indignado.

“Porque, se avisasse, todos os passageiros desistiriam de viajar. E ele precisa do dinheiro – essa é a vida dele, you know…”

Como reclamar não mudaria a minha situação, quis ter mais informações do ataque.

“Eles ainda não sabem. Eram cinco homens armados com AKs – podem ser do LRA, podem ser bandidos comuns. Fizeram uma emboscada quando a van passava. Como o motorista não parou, atiraram. Dois passageiros morreram, e o motorista e outros dois se feriram.”

Fiquei chocado. Disse a Anjelo que pensei que a estrada estivesse segura.

“Ela realmente estava segura – até hoje cedo. Foi o primeiro ataque desde 2007, o primeiro desde que o Exército desmontou a sua base.”

“Então talvez o Exército não devesse ter desmontado a base…”

Notando o meu nervosismo, Anjelo tentou me tranquilizar. “Não vai acontecer nada. Estamos viajando num comboio” – e logo entendi o porquê da demora em partirmos: como viajar naquelas condições era arriscado, os motoristas optaram por viajar em grupo.

Antes, porém, era preciso esperar que as três vans enchessem, e daí a longa espera.

O motorista, que falava poucas palavras em inglês, continuava a contar detalhes do ataque a Anjelo, que ia me traduzindo.

“Estamos perto de onde a van foi atacada. O motorista vai nos mostrar quando chegarmos lá”.

Pedi a Anjelo que lhe perguntasse se ele já havia sido atacado naquela estrada.

“Ele diz que até 2007 foi atacado muitas vezes, mas que nunca parou o carro. Sempre conseguiu fugir, desviando dos tiros. Ele diz que o motorista do carro à nossa frente já foi atingido – e ele tem uma marca de bala no ombro.”

“E por que eles não desistiram desse trabalho??”

Essa Anjelo respondeu direto, sem traduzir a pergunta ao motorista: “Porque esse é o trabalho deles, you know… Vão fazer o quê? Aqui não tem emprego.”

Conforme avançávamos, notei que as três vans andavam cada vez mais próximas. Até que o motorista virou-se para mim e disse: “this place, very dangerous!”.

Estávamos numa região montanhosa cortada por riachos. Até 2007, era lá que os bandidos costumavam atacar – depois de roubarem quem passasse por ali, fugiam pelas margens dos rios até a fronteira com Uganda.

A estrada tornara-se sinuosa, e a cada curva o meu coração acelerava. Os motoristas estavam mais atentos do que nunca.

Até que, ao longe, avistamos uns trinta homens uniformizados, que ocupavam toda a largura da estrada e caminhavam na nossa direção.

As três vans reduziram bruscamente a velocidade.

“Vamos voltar!”, disse em inglês uma passageira ugandense – àquela altura, todos na van já sabiam do ataque e, como eu, viajavam apavorados.

“Não”, retrucou Anjelo. “Aquele é o nosso exército – vê as bandeiras nos uniformes?”

Os motoristas prosseguiram lentamente, e felizmente Anjelo estava certo.

Avisado do ataque, o exército vasculhava a região atrás dos rebeldes. Alguns soldados carregavam metralhadoras; outros, rifles ou lança-granadas.

De longe, pareciam ameaçadores, mas, de perto, vi que eram apenas adolescentes desajeitados, carregando armas como se fossem brinquedos. Alguns caminhavam pelo mato, buscando pistas dos criminosos.

Ao me ver dentro do carro, acenavam e sorriam. Um deles, um grandalhão que carregava um rifle, veio me cumprimentar: “salaam aleykum” – que a paz esteja consigo, ele me disse, em árabe. “Wa aleykum salaam” – e que a paz esteja consigo, respondi, conforme aprendera em Dar es Salaam.

Depois de os deixarmos para trás, chegamos a um vilarejo – miserável, como todos que vira antes, sem plantações nem comércio, apenas algumas casas de barro cobertas por palha.

Lá estava o carro que havia sofrido a emboscada, parado no meio da estrada. Ao lado, alguns moradores conversavam sentados, tranquilamente. Um homem bebia uma cerveja.

Quando passamos pela van, vi uma gande marca de bala no vidro da frente.

O nosso carro parou, e quase todos os passageiros desceram para ver o estrago. Eu fiquei.

Alguns voltavam cuspindo; outros lamentavam, balançando a cabeca.

Anjelo veio até mim. “Um dos mortos ainda está dentro do carro. Vá lá ver. Você não disse que era jornalista?”

Mas eu não fui.

Só quis saber se era homem ou mulher, e onde ele fora atingido.

“Homem, uns 30 anos. Estava sentado no mesmo lugar que você. A bala entrou na cabeça, aqui” – e ele apontou para o centro da própria testa.

Partimos pouco depois. Daquela vila em diante, a estrada melhorou, e as curvas mais fechadas desapareceram.

Chegamos em Torit no fim da tarde.

Soube que, no dia seguinte, um comboio de carros carregando gente do governo e com escolta policial partiria para Kapoeta, perto da fronteira com o Quênia.

Dei um jeito de ir junto.

dsc03878

O comboio para Torit

dsc03918

Vila à beira da estrada

dsc03886

A van que sofreu a emboscada

Anúncios

16 Respostas to “Terra de ninguém”

  1. RMM said

    Ai João chega logo no Cairo,por favor. O nosso coração tácomeçando a ficar apertado demais.

    Que a paz esteja de verdade contigo.

    Um grande abraço.

  2. Coronel Kurtz said

    Putz, estou muito assustado e surpreso. Caraca, mano!

  3. Fábio Cremonesi said

    Rapaz, que perigo!

    Boa sorte, te cuida!

  4. Isso é como o título diz. Lugar perigoso, ainda bem que saiu daí.

  5. Rapaz,que coisa maluca ,eu sei como é aterrador a coisa,é muito maluco e a gente não vale nadaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa se cuida muito abraços sonia

  6. Fernando said

    Parabéns pela coragem amigo! É isso aí, não desista e siga em frente. A chance de levar um tiro aí e morrer e a mesma que qualquer um de nós tem no Rio ou S. Paulo, no Brasil em geral.
    Te acompanho diariamente!
    Um abraço
    Fernando

  7. Shin said

    Aê João. que histórias sensacionais. assustadoras, mas sensacionais. isso sim é conhecer o mundo. conhecer outros dramas. Fico com uma boa inveja de você. E parabéns pelo texto sincero. Me identifico com ele. metade um tremendo espírito aventureiro, metade um cagaço – sem medo de admitir que é um cagaço. afinal não somos heróis, somos pessoas normais que topamos paradas assim. forte abraço, Shin

    • João Fellet said

      grande shin, quanto tempo, hein?!
      fiquei mesmo com medo — nao tinha como mentir.
      muito bom ve-lo por aqui!
      abracao!

  8. Jardel said

    Meu caro, que foda!
    Só tenho isso a dizer, que foda!
    Quando vc voltar faço questão de sentar para ouvir estórias suas.
    Imagino o quão maravilhosos é passar por experiências tão diferentes das que a gente viveu até agora.
    Claro que nisso tudo está incluído muitas experiências desagradáveis, mas de qualquer maneira são experiências.
    Parabéns por continuar trilhando esse caminho por tanto tempo.
    Te invejo e te desejo o bem.
    Abraço.
    dell.

  9. Gisela Blanco said

    Eita João! Quanto adrenalina, rapaz! Acho que eu, no seu lugar, teria molhado as calças. O relato tá emocionante. Publica isso em alguma revista!
    Bjos

  10. […] na prática, o sul do Sudão é uma terra de ninguém, onde bandidos e conflitos tribais vitimam dezenas de vidas todas as […]

  11. […] que deixei Mr. Brown, passei por alguns dos momentos mais difíceis da minha viagem: a emboscada no sul do Sudão, a tensa passagem pelo norte do Quênia (que ainda não narrei aqui) e a viagem de trem pelo […]

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: