Lalibela é considerada uma cidade sagrada para os seguidores da Igreja Ortodoxa Etíope, que são a maioria no país.

 

Lá, no início do século 13, foram esculpidas 11 igrejas a partir de imensas rochas encravadas no chão – hoje, todas essas igrejas estão tombadas pela Unesco.

 

Sem saber, cheguei a Lalibela no Dia de Maria, quando milhares de peregrinos adentravam a cidade para prestar homenagens à santa.

 

O que eu vi foi isso aqui:

 

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44ºC

28/05/2009

Vejo, no site do Weather Channel, a previsão do tempo nos próximos três dias para Cartum, a capital do Sudão:

 

Sexta-feira:

 

Ensolarado. Mínima – 29ºC; Máxima – 42ºC

 

Sábado:

 

Ensolarado. Mínima – 29ºC; Máxima – 43ºC

 

Domingo:   

 

Ensolarado. Mínima – 29ºC; Máxima – 44ºC

 

Estarei em Cartum daqui a uma semana.

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Na estrada entre Torit e Kapoeta, no sul do Sudão, o segurança de um caminhão filma, com o celular, o seu veículo tentando subir uma ladeira.

(continua)

Reconciliação

26/05/2009

Aos torcedores do time citado no último post que se sentiram ofendidos, proponho, para a nossa reconciliação, um brinde com a cerveja etíope que leva como nome um dos símbolos da vossa equipe.

 

St. George Beer – que, apesar do nome, é muito saborosa, devo admitir.

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Saudações tricolores – e não se fala mais nisso.

Harar, Ilha de Moçambique, Zânzibar.

Não imaginava que encontraria na África cidades tão antigas, tão cheias de histórias – e o mais surpreendente: que preservaram, ao longo de séculos, as suas características essenciais.

Com a exceção talvez de Zânzibar, que foi recentemente descoberta por turistas europeus (e sabiamente se modificou para tirar proveito disso), Harar e a Ilha de Moçambique parecem, no geral, alheias às transformações econômicas/tecnólogicas/sociais que o mundo vivenciou nas últimas décadas – séculos?

Em Harar, por exemplo, a rotina de alguém não é definida pelos seus horários de trabalho ou estudo, como ocorre no mundo a que estou habituado, mas sim por uma série de rituais e cerimônias que começam ao amanhecer e terminam tarde da noite.

Durante esses rituais, pode-se trabalhar ou estudar – mas ninguém jamais deixará os rituais de lado para apenas trabalhar ou estudar.

Na quinta-feira, no meu primeiro passeio por Harar, notei que no interior de pequenas vilas, as pessoas reuniam-se em varandas, sentadas no chão, em círculos – e lá permaneciam por horas.

Às vezes, um homem deixava momentaneamente o cícrulo para polir uma ferramenta; uma mulher caminhava até um varal, de onde retirava algumas roupas secas; uma criança se levantava para buscar algo no mercado.

Mas logo todos voltavam, reassumiam os seus lugares e se reintegravam aos rituais em curso.

***

É sexta-feira, 10h da manhã. Estou caminhando pelo Jugol, o bairro murado de Harar.

Sempre que passo por portões que dão acesso a vilas, estico o pescoço para ver o que as pessoas fazem lá dentro.

Na maior parte das vezes, ninguém me nota.

Mas, desta vez, um homem jovem sentado numa roda percebe a minha presença e acena, convidando-me a integrar o grupo.

Há cerca de 15 pessoas no círculo, entre homens, mulheres e crianças.

Todos mascam qat – uma planta que nasce aos montes nas redondezas de Harar e é rica em cationina, uma anfetamina (ao menos é isso o que diz a Wikipédia).

A Organizacão Mundial da Saúde considera o qat uma droga, causadora de dependência psicológica, mas na Etiópia e na Península Arábica o seu uso é tolerado.

Conforme me aproximo da roda, os homens abrem espaço e apontam o lugar onde devo me sentar, junto deles – as mulheres sentam-se à nossa frente; as crianças estão espalhadas.

Jogam-me algumas almofadas e logo me dão um punhado de qat. Alguns fumam narguilé (que aqui se chama shisha, ou dokdoka).

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Abdul, o rapaz que me convidou a integrar o grupo (à direita, na foto abaixo), fala inglês muito bem – aprendeu na universidade, quando cursou tecnologias da informação.

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Quando digo que sou do Brasil, começamos a conversar sobre futebol. Os outros homens presentes também querem participar – ora falam em amárico, ora em oromifa; Abdul os traduz.

Querem saber por onde anda Rivaldo e o que se passa com o decadente Ronaldinho Gaúcho. Um deles, mais velho, afirma que o seu ídolo maior do futebol foi Zico.

Todos são unânimes ao falar de Kaká, que, além de excelente jogador, consideram “um cara decente”, e lembram a final da Copa do Mundo de 1994, quando Baggio perdeu o pênalti que deu o título ao Brasil – “naquele dia, houve uma grande festa na Etiópia”, me diz um deles.

Os etíopes, assim como os africanos de quase todos os países em que estive, torcem nas Copas do Mundo primeiro para os países africanos, depois para o Brasil — a exceção fica por conta de angolanos e moçambicanos, que torcem para Portugal (Freud explica).

Digo que Ronaldo Fenômeno está de volta, jogando num time pequeno do Brasil para recuperar a sua forma física, e que talvez participe da próxima Copa, na África do Sul.

Eles vibram.

Os assuntos mudam: falamos de política, Brasil, café, Obama, piratas somalis.

De cinco em cinco minutos, alguém me entrega um punhado de folhas pequeninas de qat, as mais potentes.

Eu agradeço, mas vou devagar — afinal, nem nos tempos da universidade fui da turma da maconha.

Masco algumas folhas e escondo outras embaixo dos meus travesseiros.

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Eles me tranquilizam: “não faz mal, veja: até as crianças gostam!” Olho para o lado: um bebê de menos de dois anos, os olhinhos arregalados, masca um punhado de qat que ele mesmo levou à boca.

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Este é o ritual que abre o dia: o primeiro qat. Um aperitivo, eles me explicam, já que à tarde é que o qat será consumido para valer.

O segundo ritual, que se inicia uma ou duas horas depois, é a cerimônia do café – eles mesmos a chamam assim.

As mulheres primeiro preparam o fogareiro, lavam os grãos maduros do café, torram-nos (com o cuidado de não deixar que queimem muito) e os transformam em pó – tudo isso leva uns 40 minutos.

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O pó é misturado à água fervente e, em seguida, o café (delicioso) é servido a todos na roda – crianças e bebês também, é claro.

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Até aquele momento, não sentira nenhum efeito mascando o qat. Mas eles me avisaram que, assim que engolisse o café, eu o sentiria.

Como de fato senti – é impressionante: assim que o café é engolido, o corpo esquenta e vem uma sensação de torpor. Tudo passa a ocorrer em câmera lenta.

Eles querem saber se estou bem, e a todo momento me tranquilizam – “o efeito vai passar, não se preocupe”.

E passou mesmo, uns 20 minutos depois – os outros, que mascaram muito mais qat do que eu, ficaram anestesiados por até uma hora, quietinhos, mexendo no cabelo.

Depois vem a comida: eu fui servido primeiro e ganhei dois pratos só para mim – num, havia injera de sorgo com batata (bem apimentada — foto abaixo); noutro, injera de teff com molho de espinafre, batatas e tomate (gostei mais deste).

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O resto da roda foi servido depois, numa só bandeja para todos. A comida acabou em poucos minutos. 

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À tarde, as cerimônias se repetem: mais qat (e eu pegando leve) e mais café. Periodicamente, alguém fazia uma prece, e todos fechavam os olhos e repetiam: “amém, amém…”.

Há na roda cristãos e muçulmanos. Todos rezam juntos.

Ao fim do dia, após conversar com alguém ao celular e já se sentindo íntimo de mim, Abdul me faz uma proposta: “Joe [é assim que me apresento: João é um nome impronunciável por aqui], gostei muito de você. Tenho uma irmã mais nova, com quem conversei agora ao telefone. Se você quiser, ela é sua. Ela está vindo aqui – você a verá, ela é linda.”

Ela chegou em alguns momentos, e Abdul não mentira sobre os seus atributos.

Abdul: “o que achou dela? Você a quer para você?”

Incrédulo, respondi: “e o que ela acha disso?”

Sem recorrer à irmã, ele me respondeu: “Ah, ela concorda! Ela gostou de você, eu sei. As mulheres daqui adoram um faranji [estrangeiro, em amárico, ainda que a palavra seja usada no mesmo sentido de muzungu, em suaíli, querendo dizer “branco”].

Enquanto isso, a jovem harari (20 anos) olhava para baixo – porque era tímida, acredito, e não por estar constrangida com a situação.

Mas eu sim estava constrangido, e Abdul, notando isso, me deu tempo para pensar: “continue a sua viagem e, quando terminar, volte para Harar. Aí você decide se quer se casar com ela ou não”.

Claro que eu sabia que a oferta não era um simples presente: casamentos na África geralmente implicam grandes despesas para a família do noivo, e Abdul certamente ganharia algo com isso.

Ainda assim, é raríssimo que famílias harari aceitem que as suas filhas se casem com homens de outras tribos – e assim eu, um tupi-guarani,  me senti hornado com a oferta.

Despedi-me de Abdul e de todos na varanda às 9h da noite.

A energia elétrica fora cortada em Harar, como é normal, e a cidade estava na mais completa escuridão.

Voltei a pé para o meu hotel, cauteloso para não tropeçar em alguma hiena pelo caminho. 

Harar

25/05/2009

De volta a Adis Abeba (e à internet do Hotel Semien, a mais rápida que encontrei na minha viagem até agora), aproveito para mostrar mais um pouco de Harar.

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Passei os últimos dias em Harar, no leste da Etiópia.

 

Harar é considerada a quarta cidade mais importante para o Islã – depois de Meca, Medina e Jerusalém – e está na lista de patrimônios da humanidade da Unesco.

 

A parte mais antiga de Harar, chamada de Jugol, é rodeada por muros erguidos há quase cinco séculos para protegê-la de invasores.

 

Harar foi ao longo de muitos anos um importante centro comercial, atraindo mercadores do Chifre da África, da Península Arábica e de outras partes do mundo.

 

O mais ilustre deles foi o poeta francês Arthur Rimbaud, que se mudou para lá no fim do século 19.

 

Na sua passagem por Harar, Rimbaud se tornou bastante próximo do governador local, Ras Makonen, vendendo-lhe as armas que, algumas décadas depois, seriam usadas para expulsar da Etiópia invasores italianos.

 

Quando anoitece, todos os moradores de Jugol põem para dentro de casa as suas cabras e ovelhas, pois a cidade é invadida por hienas – que, de perto, são enormes, muito maiores do que cães.

 

O curioso é que, em Harar, homens e hienas convivem numa boa, e há até quem as alimente – uma tradição que, nos últimos anos, tornou-se também o ganha-pão de alguns, que cobram de turistas pelo show.

 

Esta é a Harar das enciclopédias e dos guias turísticos.

 

Amanhã, ou quando a internet permitir (e ela tem sido impiedosa comigo – por isso só há uma foto neste post), conto-lhes sobre as coisas incríveis que vivenciei na cidade.

Menu africano

21/05/2009

A Rê Summa e a Sônia me perguntam sobre a comida na Etiópia.

Até agora, não tive problema algum com ela.

Pelo contrário, a comida etíope (uso um termo impróprio; mais à frente explico) é a melhor que experimentei desde que deixei Maputo, no comecinho da viagem.

Maputo que tem uma enorme vantagem em relação às outras capitais africanas que visitei, pois as águas do Índico que a banham são riquíssimas em peixes e frutos-do-mar.

Tirei as fotos abaixo no Mercado do Peixe, uma das principais atrações gastronômicas da cidade.

Lá, numa feira, primeiro se compram os ingredientes que farão parte do prato.

Depois os ingredientes são levados a um dos vários restaurantes nos fundos da feira, onde são preparados conforme a orientação do cliente.

Há grande oferta de peixes, lulas, caranguejos, mariscos, camarões…

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Se é que os crustáceos acima podem ser chamados de camarões, já que, para mim, estão mais para lagostas.

Mas esqueçamos os camarões de Maputo, que – infelizmente! – ficaram para trás há um bom tempo.

Na maior parte da minha viagem, principalmente quando estive longe da costa e das capitais, as opções de comida eram menos atraentes.

Não que eu tenha passado fome: mesmo nas áreas mais remotas, era sempre possível encontrar algum bar ou restaurante que servisse pelo menos frango ou arroz.

Menos na Etiópia.

Além de ter um alfabeto próprio, um calendário próprio, uma igreja própria e até uma forma própria de contar as horas (aqui, o relógio marca 0h quando o sol nasce e são, para nós, 6h), os etíopes também têm, é claro, uma culinária própria.

Em todos os países africanos em que já estive, com a exceção de Uganda, a base da alimentação é uma massa pegajosa feita a partir da farinha de milho (ou, às vezes, de farinha de mandioca).

Em Angola, essa massa se chama funge.

Como sozinha ela não tem muito sabor, deve ser misturada a molhos de frango, carne, peixe, verduras…

Para ser sincero, não importa a mistura, nunca fui fã do prato – e poucas vezes tive algum prazer comendo-o.

Em Uganda, onde a base da alimentação é uma massa de banana (mas de uma banana levemente salgada, cozida ainda verde – seria a nossa banana-da-terra?), tive mais dificuldades para encontrar algo que me agradasse.

Mas não na Etiópia.

Ainda que não seja possível falar numa comida etíope (já que a Etiópia é formada por um conjunto de povos com tradições e culinárias muito variadas), nas cidades que visitei, comi com gosto quase todos os pratos típicos.

Este, abaixo, foi um dos mais saborosos: injera e carne de vaca com pimenta.

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Aqui, os pratos são geralmente servidos numa bandeja, como na foto.

O injera – o rolo bege (macio e molhadinho) feito de um cereal chamado teff e que está em quase todos os pratos — deve ser desenrolado na bandeja, e a carne, ou o ingrediente que o acompanhar (frango, peixe, legumes…), despejada em cima.

Deve-se então cortar um pedaço de injera, passá-lo na pimenta (o pó vermelho) e enrolá-lo em volta da carne, levando tudo à boca.

Até quatro ou cinco pessoas podem dividir a mesma bandeja — ou seja, num restaurante, um grupo de clientes tem de decidir em conjunto o que vai comer.

Assim como na África rural, o hábito na Etiópia é comer com as mãos.

Antes que alguém se preocupe com as condições de higiene, digo que em todos – todos – os lugares em que comi ao longo da minha viagem, inclusive em barracas no interior do Sudão, havia água e sabão para que os clientes lavassem as mãos antes e depois da refeição.

(Ironicamente, a única vez que passei mal após comer – leia-se: vomitei – desde que me mudei para a África, 1 ano e 3 meses atrás, foi depois de ir a um restaurante caro em Luanda, Angola.)

No caso da comida etíope, aliás, penso que nem haveria outra forma de comer que não com as mãos – seria quase impossível cortar o injera com garfo e faca e depois enrolá-lo na carne.

Além disso, noto que para os etíopes (e africanos em geral), comer é uma atividade que envolve também um prazer sensorial.

Num restaurante no norte de Moçambique, um rapaz me deu uma bem-humorada bronca que me esclareceu a questão: qual era a graça, disse-me ele ao me ver usando garfo e faca, em comer sem tocar a comida, sem tateá-la, sem sentir a sua textura?

Faz sentido, não?

A aldeia de Roba

20/05/2009

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O pai de Roba

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O mais novo membro da aldeia

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Coversa entre irmãos

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O abraço

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Os sobrinhos de Roba

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E o próprio

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Há oito anos, quando Roba Bulga vivia numa vila ao leste de Adis Abeba (Etiópia), descobriu que o seu pai havia se acertado com a família de uma jovem da sua tribo para que ambos se casassem.

Mas Roba tinha 16 anos e sabia que, caso se casasse, teria de interromper os estudos e, assim, estaria fadado a seguir os passos dos seus pais e avós – ou seja, abraçar a vida nômade e pastoralista dos karayu, a sua tribo.

E Roba queria continuar a estudar.

Sabendo das aspirações do filho (e sobretudo temendo-as), seu pai combinou em segredo o casamento com a família da jovem, que tinha a mesma idade de Roba — 16 anos.

Roba seria avisado do acerto apenas no dia da cerimônia – e aí não teria como negar-se a se casar, pois a comunidade toda estaria presente.

E uma vez casado, pensava o seu pai, Roba seria obrigado a se enquadrar nas tradições da tribo – o que significaria largar os estudos e se dedicar exclusivamente aos rebanhos dos karayu.

Entretanto, quando faltava uma semana para a data marcada para o casamento, a irmã de Roba soube dos planos do pai e os contou para o irmão.

E na noite seguinte, quando todos na sua aldeia dormiam, Roba fugiu, cortando a pé as terras que tão bem conhecia, sem temer as hienas e leopardos que àquela hora costumam atacar as suas presas.

Ele caminhou até a cidade mais próxima, a 20 km dali, e de lá pegou um ônibus para Adis Abeba, onde chegou de madrugada.

Então telefonou para uma antropóloga francesa que ali vivia (e que conhecera quando ela esteve na sua vila, para estudar os karayu) e pediu refúgio na sua casa.

Ela o acolheu.

Acostumado a viver entre os animais numa aldeia com 30 moradores, Roba estranhou terrivelmente Adis Abeba, cidade com 3 milhões de habitantes.

Para piorar, Roba não sabia uma palavra em amárico, a língua falada na cidade (e a língua oficial da Etiópia).

A sua salvação foi falar um pouco de inglês, que aprendera na escola (a sua língua-mãe é o oromifa, comum no sul da Etiópia.)

Adis Abeba, aquela cidade enorme, o aterrorizava – exceto quando escurecia e as suas ruas ficavam iluminadas.

Roba jamais havia visto lâmpadas – a eletricidade não chegara à sua aldeia, e, para ele, aquelas luzes que tomavam a cidade quando anoitecia pareciam flores.

Com a ajuda da antropóloga, Roba conseguiu matricular-se na escola em que, três anos depois, terminaria o ensino médio.

Enquanto isso, a sua família estava desesperada com o seu sumiço: temia-se que ele houvesse sido recrutado pelo exército (na época, a Etiópia travava uma guerra contra a Eritreia) ou que, sabendo do seu casamento, decidira se matar.

Foi só alguns meses depois que, por intermédio de um amigo, restabeleceu o contato com a sua vila.

Ficou aliviado ao saber que o acerto que o seu pai havia feito para o seu casamento não se arruinara: em vez de Roba, o irmão dele, um ano mais novo, se casou com a moça.

Roba marcou uma conversa com os mais velhos da sua aldeia, a quem explicou o motivo da sua fuga: ele queria continuar estudando porque sabia que, daquela forma, teria mais condições de ajudar os karayu no futuro.

Foi por não serem escolarizados, argumentou Roba, que os karayu, um povo minoritário na Etiópia, foram expulsos há cinco décadas das terras férteis em que viviam e que hoje enfrentavam condições tão duras.

Se continuasse a estudar, Roba prosseguiu, ele um dia poderia dar voz aos karayu, fazendo com que a sua história fosse ouvida e que, quem sabe, as suas terras fossem recuperadas.

Os mais velhos aceitaram os argumentos e marcaram uma reunião entre Roba e o seu pai.

Naquele dia, Roba estava apavorado – embora tivesse o apoio dos mais velhos (que detêm a autoridade entre os karayu), achava que o seu pai e os seus tios pudessem querer puni-lo fisicamente por ter fugido.

No encontro, o pai de Roba estava furioso: disse que o filho havia desonrado o seu nome na tribo.

No entanto, convencido pelos mais velhos, aceitou a vontade de Roba de continuar os estudos.

Hoje, Roba tem uma boa relação com o pai (os dois estão na foto acima) e está no último ano da faculdade.

A sua história foi recentemente descoberta por uma produtora etíope, que está gravando um documentário a seu respeito.

Fui apresentado a ele pelo embaixador do Brasil na Etiópia, Renato Xavier – que, por sua vez, o conheceu por intermédio de uma amiga italiana.

Roba está ficando famososo, e no entanto anda inquieto.

A sua graduação se aproxima, mas ele ainda não quer parar de estudar – agora, pretende fazer um mestrado em outro país.

Diz que na Etiópia quem decide o que cada um pode estudar é o governo – ele mesmo gostaria de estar cursando direito, mas após passar pelo processo seletivo da universidade, foi alocado no curso de inglês (a jusfiticativa oficial, que não o convenceu, foi a de que a sua nota não era boa o suficiente para obter uma vaga em direito – ele jamais teve acesso à nota).

O seu objetivo continua o mesmo: dar voz aos karayu, que têm passado por maus bocados desde que foram expulsos das suas terras para que o governo etíope criasse uma enorme fazenda de cana-de-açúcar no lugar.

Estive com Roba na sua vila no último fim-de-semana.

A região está sofrendo uma acelerado processo de desertificação: para dar de beber aos seus rebanhos, os karayu precisam conduzi-los por distâncias cada vez maiores.

Não são só os karayu que têm sofrido. Também sem pastagens nem água, os afar, outro povo pastoralista da região, têm disputado esses recursos com os karayu.

Há alguns anos, quando já morava em Adis Abeba e foi visitar a sua vila por alguns dias, Roba teve de pegar um fuzil e juntar-se ao seu pai, irmãos e tios, que tentavam impedir a entrada dos afar em território karayu.

Naquele confronto, 15 pessoas morreram.

Desde então, os conflitos entre os dois grupos têm sido frequentes – o último aconteceu na semana passada e vitimou, do lado karayu, duas pessoas.

Roba tem pressa de se fazer ouvir: ele sabe que, da próxima vez, os mortos podem ser os seus irmãos.

***

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A aldeia karayu

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A criançada

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Os pés

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Os irmãos de Roba

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Os animais