Até agora

17/04/2009

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Esse é o trajeto que percorri até agora.

Estou em Uganda. África do Sul, Moçambique e Tanzânia já ficaram para trás.

No olho, estou na metade do caminho.

Faltam pelo menos Quênia, Etiópia, Sudão e Egito.

Comecei a correr atrás do visto para o Sudão, um país praticamente inacessível para turistas mas que faço questão de visitar.

Consegui algumas boas pistas aqui em Kampala. Aguardemos.

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À bordo do Umoja

17/04/2009

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Pôr do sol à espera da partida

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De manhã, parece que estamos no meio de um oceano

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A cabine do capitão

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A sala de máquinas

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Café-da-manhã com a tripulação

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A carga

Quando em Mwanza, Tanzânia, fiquei sabendo que o ônibus para a fronteira com Ruanda só sairia em cinco dias, fui tentar a sorte no porto da cidade, que fica à beira do lago Vitória, tão grande que parece um oceano.

 

Há algumas semanas, li no “Dark Star Safari”, livro em que o americano Paul Theraux narra a sua viagem do Cairo à Cidade do Cabo, que ele atravessara o lago Vitória de Kampala (capital de Uganda) a Mwanza de carona num cargueiro.

 

Para mim, essa travessia – à bordo de um navio chamado Umoja – fora um dos pontos altos do livro.

 

Pensei que poderia fazer o trecho inverso, já que também estava nos meus planos passar por Uganda.

 

Cheguei ao porto de Mwanza às 4 da tarde e vi que um cargueiro estava sendo carregado. Quando perguntei ao chefe da tripulação se havia espaço para mim, a sua resposta me encheu de alegria: “karibu”, ele disse.

 

(É impossível atravessar uma só porta na Tanzânia sem que se ouça karibo – bem-vindo, em suaíli. Minto: às vezes, os estrangeiros recebem as boas-vindas em inglês: “you’re most welcome” e “you’re warmly welcome” – esta, a minha favorita – são as formas mais comuns).

 

Subi no cargueiro e logo um dos membros da tripulação me levou ao quarto onde eu passaria a noite – afinal, só chegaríamos em Kampala na tarde do dia seguinte – e, enquanto apontava a minha cama, ouvi outra vez: “karibu”.

 

Asante”. Obrigado, respondi.

 

Perguntei-lhe então o nome daquele navio.

 

“This is the Umoja, sir.”

 

Umoja – o mesmo em que o Theraux havia viajado.

 

***

 

Fazia mais de quatro horas que estava a bordo e o Umoja continuava a ser carregado com enormes contêineres.

 

Mas eu não estava nem aí – o navio era tão encantador – imaginem um cargueiro inglês com 47 anos de idade em perfeito estado de conservação – e a tripulacão tão amigável, que me sentei e esperei pelo pôr do sol, tranquilamente.

 

Pouco antes, havia visto um senhor de cabelos brancos e com as costas curvadas embarcar com uma mala que devia ser muito pesada, dado o esforço dele para arrastá-la.

 

Mais tarde ele viria até mim e se apresentaria: chamava-se Hugh Brown, tinha 78 anos, era inglês e vivia no Maláui há dez anos.

 

Ele estava indo a Kampala construir com as próprias mãos (e por isso carregava aquela mala pesada, cheia de ferramentas) uma escola para crianças deficientes num bairro pobre da cidade.

 

“E quem pediu que o sr. construísse a escola?”, quis saber.

 

“A necessidade”.

 

Ele havia estado lá alguns meses atrás e, numa visita a esse bairro (Kamokya), impressionou-se com a quantidade de crianças deficientes abandonadas pelas ruas à própria sorte.

 

“Os pais acham que a deficiência tem a ver com algum ato de bruxaria e que, se cuidarem desses filhos, os próximos também nascerão com problemas. Então eles simplesmente abandonam as crianças, não as põem na escola nem lhes dão comida.”

 

Eu passaria o resto da viagem conversando com aquele homem.

 

Ficamos tão próximos que ele até me convidou a dormir em Kamokya, na casa de uma moça da comunidade que o ajudará na construção da escola.

 

E em Kamokya estou, e daqui escrevo.

 

Amanhã conto mais e tento postar algumas fotos da travessia.

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No caminho para Ngorongoro, cruzamos com os Masai e os seus rebanhos

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À entrada do parque, um babuíno do grupo do que roubou o nosso biscoito

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Chegamos ao topo dos morros que rodeiam a cratera – é para lá que vamos

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Conforme descemos, avistamos vários pontinhos coloridos – gazelas, bisões, búfalos e zebras

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Bisões

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Um jipe como o nosso joga poeira nos pobres bichos

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Zebras

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A estrada e a chuva

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O lago infestado de hipopótamos (que estão ao fundo, só com as narinas para fora)

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A caçada: os leões preparam a linha de ataque…

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…a leoa líder passa pelos jipes…

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…e, percorrendo um círculo, prepara-se para atacar os três búfalos por trás (ao fundo, uma das vítimas)

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Enquanto isso, os búfalos pastam numa boa

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Até que a leoa ataca (deste ponto até o fim da perseguição gravei o vídeo, que postarei quando a internet permitir)

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Sem sucesso, os leões desistem (ao fundo, o motivo da desistência – a enorme manada de búfalos)

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A hiena que acompanhava a cena deve ter se frustrado

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Na saída do parque, um arco-íris

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Outra vez no topo do morro, a última olhada para a cratera

Percalços

13/04/2009

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Fui muito ousado (ou ingênuo) nos meus planos de chegar ainda hoje a Ruanda.

Tem chovido muito na Tanzânia, e as estradas fora do circuito turístico estão terríveis.

A foto acima é da estrada que me levou de Mtwara a Dar es Salaam, no fim do mês passado. A que peguei hoje, entre Arusha e Mwanza, não estava muito diferente.

Para piorar, o motorista dirigia como se estivesse competindo no Rali Paris-Dakar. Chacoalhei tanto nas últimas 13 horas que acho que meus órgãos saíram do lugar.

E ainda falta muito para Ruanda. Quem sabe – quem sabe, repito – amanhã eu chegue lá.

No caminho para o parque de Ngorongoro, através de vastas pastagens onde os Masai conduzem os seus rebanhos, avisto à minha frente, a uns cinco metros da estrada, duas enormes (e bastante verossímeis) estátuas de girafas.

Quem pôs essas estátuas aqui certamente quis criar expectativa nos turistas que vão ao parque, pensei, achando a atitude desnecessária e de mau gosto.

De repente, vejo uma das estátuas mexer o rabo. Em seguida, a outra torce o pescoço.

Não eram estátuas.

***

 

Ao portão do parque, rodeado por uma densa floresta, fazemos uma pausa para ir ao banheiro.

 

Somos seis: um casal de irlandeses, dois jovens finlandeses, eu e o guia, que também é o nosso motorista.

 

Na volta, quando a irlandesa abre a porta do jipe, um babuíno aparece do nada e salta para dentro. Numa fração de segundos, pega um saco com um pacote de bolachas e foge.

 

Ele então leva o saco ao pé de uma árvore e, rapidamente, tira a bolacha de dentro.

 

Sobe a árvore e, no topo, em vez de rasgar toda a embalagem de plástico, abre só a parte de cima, de modo que ela não se desfaça. E assim ele come as bolachas tranquilamente, pegando-as uma por vez.

 

Observava aquela cena admirado, custando a acreditar que aquele banuíno tivesse pego o saco com a bolacha e não as máquinas fotográficas ou uma bolsa cheia de dólares que estavam ali ao lado. Afinal, aquele animal parecia tão humano!

 

***

 

Chegamos ao topo do morro que rodeia a cratera.

 

A visão é espetacular: 700 metros abaixo de nós, avista-se uma imensa pastagem verde e plana, com um lago brilhante ao centro.

 

A cratera é tão ampla que é possível ver, dentro dela, áreas onde chove e áreas banhadas pelo sol.

 

Começamos a nossa descida.

 

Conforme nos aproximamos da cratera, vemos abaixo centenas de pontinhos pretos bastante próximos uns dos outros, e, mais adiante e igualmente numerosos, pontos alaranjados e acinzentados.

 

“Aqueles pontos são animais”, diz-nos Henry, o nosso guia.

 

Quando nos aproximamos mais, confirmamos: incontáveis gazelas, zebras e bisões se espalham pelo horizonte.

 

***

 

Depois de vermos, além das gazelas, zebras e bisões, chacais, rinocerontes, antílopes, elefantes e flamingos, fazemos uma parada para o lanche perto de um lago cheio de hipopótamos.

 

Henry nos avisa: “Se quiserem, vocês podem ir à beira do lago para tirar fotos. Mas só comam dentro do jipe”.

 

Um dos rapazes finlandeses desce do carro.

 

Dá alguns passos e solta um grito.

 

Olhamos assustados: um gavião o sobrevoa carregando um sanduíche.

 

O finlandês mostra uma das suas mãos, que, cortada pelas garras do pássaro, sangra. Distraído, ele não ouvira a recomendação do nosso guia.

 

Felizmente, o corte não foi profundo e, desinfectado o local, prosseguimos.

 

***

 

Estamos mais uma vez no meio das imensas pastagens naturais de Ngorongoro.

 

A cratera é auto-suficiente: há comida e água para os animais o ano inteiro, mesmo durante o perído seco.

 

Por isso, conta-nos Henry, os animais que estão aqui dentro jamais precisam sair. Se bem que, mesmo que quisessem, não poderiam, já que as paredes do antigo vulcão que  rodeiam a cratera são muito altas.

 

“Mas se os animais não conseguem sair da cratera, como eles vieram parar aqui?”, pergunto – afinal, parecia-me impossível que um hipopótamo escalasse uma montanha.

 

 “É um mistério”, diz Henry.

 

***

 

Ao longe, Henry avista com os binóculos sete leões adultos – seis fêmeas e um macho.

 

“Sete??”, espanta-se o irlandês.

 

“Sete”, responde Henry. “Os leões costumam caçar em grandes grupos, e acho que esses estão se preparando para atacar.”

 

Todos no jipe vibramos.

 

***

 

Os leões, outrora tão distantes que sem os binóculos eram quase invisíveis, agora estão a menos de 200 metros de nós.

 

Eles caminham devagar, param, caminham mais um pouco, sentam-se. E assim ficam longos minutos, até se levantarem e repetirem todo o ciclo.

 

“Eles fazem isso para não espantar as presas”, diz Henry.

 

Passados 30 minutos desde que os acompanhávamos, os sete leões estavam a menos de 100 metros de nós.

 

Alertados pelo rádio por nosso guia, os outros dois jipes na cratera estacionam ao nosso lado para assistir ao que estava por vir.

 

***

 

À nossa direita, a pelo menos 100 metros dos leões, umas 30 gazelas observam o movimento dos seus predadores completamente petrificadas.

 

A cena chega a ser cômica: elas vêem os leões se aproximarem e, como se tomadas pelo terror, não movem sequer as orelhas.

 

Por que não fogem? Por que esperam que os leões cheguem tão perto que escapar será impossível?, pergunto-me.

 

Talvez porque elas saibam que os leões não estão de olho nelas, mas sim em três búfalos que se desgarraram da sua enorme manada, a uns 300 metros à nossa frente, e pastam despreocupados bem à esquerda dos jipes – é para esses três búfalos que os leões olham fixamente.

 

Os leões continuam a se aproximar dos búfalos.

 

Agora, a uns 20 metros de nós, seis leões formam uma linha de ataque, enquanto uma leoa atravessa a estrada entre os jipes e, fazendo um círculo, prepara-se para chegar aos búfalos por trás.

 

A estratégia é clara: a leoa assustará os búfalos de modo que eles corram na direção dos outros seis leões, que estarão prontos para o ataque fulminante.

 

“Preparem-se: teremos ação a qualquer momento”, sussura-nos Henry.

 

Conter a ansiedade é quase impossível.

 

***

 

E de repente a leoa ataca!

 

Percebendo-a, os búfalos fogem apavorados.

 

Eles caíram direitinho na armadilha: correm na direção dos outros leões, que se agacham no capim bem ao lado da estrada.

 

Em fuga, os búfalos chegam à estrada: os dois primeiros conseguem habilmente passar por entre os leões, que, indecisos sobre quem atacar, vacilam e deixam que escapem.

 

Atrás deles vem o terceiro búfalo – o maior de todos.

 

Após passar rente aos dois primeiros jipes e ser atacado por um leão que não conseguiu derrubá-lo, o búfalo corre desgovernado pela estrada.

 

“Ele está vindo para cá!”, gritou o irlandês – e quando você vê um búfalo perseguido por sete leões correr na sua direcão, não importa que você esteja dentro de um jipe: você se apavora e as suas pernas tremem

 

A menos de dois metros de nós, o búfalo é atacado outra vez por um leão, que salta sobre as suas costas. 

 

Mas o leão não consegue se agarrar, e o búfalo deixa-o para trás, quase tirando uma lasca do nosso jipe – sentimos até o seu cheiro.

 

A perseguição continua, e os búfalos estão cada vez mais próximos da manada de que haviam se desgarrado.

 

Até que os leões desistem, já que leão nenhum, mesmo que acompanhado por outros seis, ousaria atacar uma manada de búfalos – a manada inteira uniria-se contra eles, e contra uma manada de 300 búfalos, nem o exército de Napoleão teria chances.

 

“Em 20 anos como guia, jamais vi um ataque de tão perto”, diz Henry, perplexo.

 

***

 

Enquanto recobrávamos o fôlego, conversávamos sobre a cena extraordinária que havíamos presenciado.

 

“Achei que o último búfalo iria bater no jipe!”, diz o irlandês. Eu concordo: “as minhas pernas estão tremendo até agora”.

 

“Acho que se ele nos tocasse o jipe viraria, de tão grande que era”, exagera um dos finlandeses.

 

A conversa prossegue enquanto partimos rumo ao portão do parque – a cena do ataque fora bastante longa, e já era hora de ir embora .

 

Conforme subimos as paredes da cratera, avistamos embaixo um arco-íris completo – vemos com nitidez onde ele começa e onde termina.

 

“Será que estou sonhando?”, diz a irlandesa, maravilhada.

 

“Isso aqui não é o Paraíso?”, pergunta-nos Henry, com um largo sorriso no rosto.

 

***

 

Parênteses: fotografei bastante o parque e consegui gravar a cena do ataque.

 

As fotos e o vídeo serão postados aqui assim que eu me livrar de um problema: a vida nesta parte do globo é tão abundante que se instalou até dentro da minha câmera, na forma de um vírus.

 

Quem sabe eu possa resolvê-lo em Kigali, Ruanda, para onde parto amanhã.

Arusha

09/04/2009

Estou em Arusha, no norte da Tanzânia.

No caminho para cá, vindo de Dar es Salaam, vi pela primeira vez, em mais de um ano no continente, a África que já conhecia do Brasil — a África das savanas, com vastas planícies rodeadas por montanhas e terra vermelha.

Não é de se estranhar que Arusha fique perto de alguns dos melhores parques africanos para se fazer safári (que, em suaíli, quer dizer jornada).

Amanhã parto para um dos mais especiais — o Ngorongoro, onde os animais ficam espalhados pela cratera de um antigo vulcão.

Volto no domingo.

A expectativa é grande.

Zanzibar

08/04/2009

Se em Dar es Salaam a separação Ocidente-Oriente é bastante sutil, em Zanzibar então se torna impossível saber onde termina um mundo e onde começa o outro.
Ao longo da sua história, a ilha (ou conjunto de ilhas) já esteve nas mãos de tantos povos — portugueses, árabes, ingleses e otomanos — que, hoje, por mais que o território faça parte da Tanzânia, difere radicalmente do resto do país.
A Cidade de Pedra, como é conhecida a área com as edificações mais antigas de Zanzibar, é deslumbrante.
Andar por suas ruas estreitas é como deslizar por entre as margens de um rio sinuoso — homens papeiam sentados; crianças vão ou voltam da escola; e as mulheres, cobertas das cabeças aos pés, parecem flutuar.
Só não sei se prefiro Zanzibar pela manhã, quando o mercado se agita com a chegada dos peixes, vendidos em leilões abertos, e da carne fresca de bois recém-abatidos…
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… se prefiro Zanzibar durante o dia, quando as ruas estreitas protegem-nos do sol abrasante e nos permitem explorá-las
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… se a prefiro no entardecer, quando as luzes são acesas e a temperatura fica mais fresca…
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… ou se a prefiro à noite, quando as pessoas se reúnem ao redor das lâmpadas, o comércio renasce e é possível ver apenas os contornos dos seus arcos e edifícios.

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Cheguei à ilha de Zanzibar no domingo à tardinha.

Como de costume, larguei a minha mochila no albergue e saí andando, sem mapa nem direção.

Seguindo um grupo de muçulmanas muito arrumadas, cheguei a um portão encravado num muro de pedras.

As mulheres atravessaram-no, e eu fiquei do lado de fora, inquieto.

Notando a minha agitação, um homem sentado ao pé do portão convidou-me a entrar: “you can come, it’s a wedding”, ele disse.

Acompanhando-o, atravessei um pátio amplo e subi uma escadaria, até chegar a uma janela, através da qual se avistava um salão.

A visão de dentro era impressionante: num canto, homens vestidos inteiramente de branco, com instrumentos de percussão às mãos; à frente deles, e de costas para mim, meninas encobertas por panos azuis; no resto do salão, mulheres enroladas em tecidos de todas as cores existentes.

Todos sentados ao chão, à espera de que o casamento começasse. “You can stay there”, disse-me o homem.

Agradeci, ajeitei-me e tirei a câmera do bolso.

De repente, o silêncio é quebrado pelo canto bonito e comovente de uma das meninas em azul.

Logo as outras meninas se levantam e, enquanto executam uma coreografia, também passam a cantar.

Então todas as mulheres do salão ficam em pé.

A música vai ficando agitada, e é aí que entram os homens com os seus tambores e pandeiros. De volta ao chão, as meninas em azul ora cantam, ora debatem-se como minhocas expulsas da terra.

As batidas vão ficando cada vez mais aceleradas, até que, no ápice, as mulheres erguem os braços e sacodem os seus panos, embrenhando-os nos panos das outras – a mistura de cores chega a entorpecer.

Depois, a música termina, e todos voltam aos seus lugares.

É a hora de a noiva entrar – e ela vem num vestido branco, com os braços tatuados e, para a minha surpresa, os cabelos à mostra.

Em silêncio, todos a olham enquanto atravessa o salão, de um extremo ao outro.

E sem que o noivo dê as caras, conforme manda a tradição, a cerimônia é encerrada.

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Candongueiro

06/04/2009

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Candongueiro é, em Angola, um dos nomes usados para se referir à van azul que constitui o principal meio de transporte no país.

Em Luanda, os candongueiros são parte da paisagem – para onde quer que se olhe, haverá vários deles, em geral presos em congestionamentos colossais.

No início, os candongueiros me aterrorizavam.

Além de conduzirem de forma temerária – e talvez por causa disso –, os motoristas (e os cobradores) dos candongueiros costumam se envolver em brigas de trânsito das mais selvagens.

Presenciei várias em que homens caídos eram chutados até perderem a consciência.

Isso sem citar os acidentes terríveis que provocam e em que, não raro, todos os passageiros morrem.

Passado algum tempo, porém, me dei conta de que esses motoristas e cobradores não mereciam ser vilanizados.

Afinal, executam um trabalho essencial e são, também eles, vítimas de condições atrozes.

Em geral, não são donos das vans que conduzem e têm de pagar, além do combustível que gastam, um valor diário aos proprietários dos veículos – assim, é como se começassem cada dia de trabalho devendo para o patrão.

Como o trânsito de Luanda é terrível, não conseguem fazer muitas viagens e têm de trabalhar por turnos extensos, ou terminarão o dia sem abater a dívida.

Como a atividade é mal fiscalizada (trata-se, ademais, de um sistema de transporte privado, em que as infrações são perdoadas mediante o pagamento de propinas), transferem parte do ônus aos passageiros, submetendo-os a condições desumanas.

Quem estiver dentro dessas vans certamente sofrerá bastante. Entretanto, quem estiver fora presenciará cenas curiosas: em Luanda, cada candongueiro costuma trafegar com uma bunda para fora da janela.

Isso porque, quando cada centímetro do veículo já está preenchido por passageiros, o cobrador, não tendo onde se sentar, põe a bunda para fora da janela – e, para isso, dobra o corpo como um contorcionista.

Os candongueiros não são uma exclusividade de Angola, e o modelo costuma se repetir com pequenas variações nos outros países africanos.

Em Moçambique, onde os peguei à exaustão (o que está na foto acima levou-me da Beira a Quelimane), vivenciei cenas que me fizeram elaborar três máximas sobre o sistema. São estas:

1 – Um candongueiro nunca deixa de levar um passageiro por falta de espaço

Em Nampula, quando a van completamente lotada que me levaria à Ilha de Moçambique preparava-se para partir, uma mulher chegou apressada, querendo embarcar.

O cobrador fez de tudo para colocá-la no carro  – ao mesmo tempo, empurrava a mulher, tentava abrir espaço entre os passageiros e ralhava com alguns que, segundo ele, não estavam colaborando.

Sem sucesso, conduziu a mulher para fora do veículo e, com a ajuda de outro passageiro, lançou-a para dentro através janela.

***

2 – Um candongueiro só freia para apanhar mais passageiros ou para que algum desça

Em Maputo, quando à bordo de um candongueiro estava a caminho de Laulane, na periferia da cidade, avistei, a uns 30 metros à frente, um rapaz que atravessava a rua despreocupado.

Embora soubesse que, caso não freasse ou mudasse a sua rota, atropelaria o rapaz, o motorista não reduziu a velocidade da van, que corria a uns 70 km/h, nem mudou a sua direção.

De olho no candongueiro, o rapaz continuava a sua travessia, confiante de que em algum momento o motorista desviaria ou frearia.

Mas não – o condutor manteve a velocidade e a rota.

Quando o choque com o rapaz era iminente, este jogou-se apavorado para o lado, salvando-se por um triz.

***

3 – Entrar num candongueiro é uma decisão sem volta

Em Inhambane, fazia quase duas horas que, dentro de um candongueiro já lotado, esperava pela sua partida rumo a Vilanculos.

O veículo, com 11 lugares, carregava 15 pessoas – isso além dos vários bebês e crianças, que não entram na conta dos cobradores por não pagarem passagem.

Mas nada disso importava, pois o candongueiro só parte quando está completamente preenchido e, segundo os cálculos daquele cobrador, ainda havia espaço para uma pessoa — embora eu não conseguisse imaginar onde.

Ao meu lado, um senhor queixava-se com outro sobre a demora da van em partir.

“Apanhei isto porque queria chegar mais cedo, e agora essa demora… Logo vai sair o autocarro [ônibus].”

Autocarro? Ouvir aquela palavra me deixou animado, pois pensava que a única opção para chegar ao meu destino era aquela van. Se soubesse que havia um autocarro, certamente teria esperado por ele.

Então lhes perguntei se sabiam de onde o autocarro de que falavam partiria.

Os dois me olharam assustados. “O senhor vai embora?”, um deles me perguntou.

Imediatamente percebi que, caso abandonasse a van, haveria mais um lugar a ser preenchido até que ela partisse, e isso poderia levar várias horas adicionais. É por isso que haviam reagido daquela forma à pergunta.

“Não, eu vou ficar”, respondi-lhes. E quando o último passageiro que faltava apareceu, entreolhamo-nos com cumplicidade.