Sob o sol de Juba

29/04/2009

Juba é quente.

Antes de aterrisar na cidade, o piloto disse que lá faziam 36ºC.

Desde então, não tive acesso a outras medições, mas duvido que em qualquer momento, mesmo à noite, a temperatura tenha baixado para menos de 28ºC, 29ºC.

Quando cheguei ao meu hotel (na verdade um amontoado de contêineres, cada um com quarto e banheiro embutidos), estava atordoado pelo calor.

A recepcionista, acostumada que deve estar com estrangeiros desorientados e encharcados de suor pisando em Juba pela primeira vez, me entregou a chave do quarto e disse: “you go take a shower now!”

Obedeci. E até deixar a cidade, ontem à tarde, tomaria pelo menos quatro banhos frios por dia — um deles durante a madrugada, para conseguir voltar a dormir.

O calor de Juba distorce a nossa percepção do tempo e do espaço. Enquanto estive lá, sempre fiz os mesmos caminhos: do hotel ao mercado, do mercado ao restaurante, do restaurante ao hotel.

Mas dependendo da hora do dia, eles pareciam mais longos ou mais curtos — e a diferença era sensível.

Em alguns momentos, nem sequer os reconhecia e me sentia perdido.

Se então pedia ajuda a alguém que encontrasse na rua, ouvia como resposta resmungos indecifráveis.

Não que não me entendessem: eu fazia as perguntas em inglês, e a maioria das pessoas em Juba entende inglês — no Sudão, mesmo no sul, a língua mais falada é o árabe; o inglês era a língua dos colonizadores.

Mas todos pareciam anestesiados pelo calor, incapazes de me dar atenção.

Parte desse comportamento, acredito, também tem a ver com o fim recente da guerra por aqui.

Muitos dos homens com quem cruzava no meu caminho lutaram durante a guerra. Muitos passaram dez, vinte anos escondidos nas matas, atacando de surpresa acampamentos militares dos “árabes — como os sudaneses do sul se referem aos do norte.

Faz só três anos que esses homens vivem em cidades e levam uma vida de civil, livres da ameaça permanente de serem atacados e mortos.

É compreensível, portanto, que ao longo de tantos anos esses homens tenham embrutecido e, hoje, não saibam como reagir se interpelados na rua por um estranho que pede informações em inglês.

Uma das coisas que mais me chocaram quando fui morar em Luanda (Angola) era a multidão de ex-combatentes pelas ruas. Após o fim da guerra, em 2002, a maior parte dos soldados angolanos foi desmobilizada.

Sem qualquer qualificação profissional e desumanizados por tantos anos de conflito, não restava a esses homens outra opção que não trabalhar como seguranças particulares.

Em Luanda, eles estão em todas as esquinas, cochilando em cadeiras de plástico. Recebem uma refeição por dia e cumprem turnos de até 72 horas. Em troca disso, ganham não mais que 100 dólares por mês. Muitos estão permanentemente embriagados; outros, à beira da loucura.

Como em Angola, os ex-soldados sudaneses dificilmente se adaptam a outras atividades. E eles não são os únicos: em geral, mesmo em Juba, é raro ver sudaneses (homens ou mulheres) empregados em hotéis, restaurantes ou mercados — quase todas as vagas no setor de serviços são ocupadas por quenianos ou ugandenses.

Curiosamente, a queixa dos patrões (nascidos no Sudão ou não) em relação aos seus funcionários sudaneses é a mesma que cansei de ouvir em Angola de patrões (nascidos em Angola ou não) sobre os seus funcionários angolanos: eles são preguiçosos, ou eles só querem ser funcionários públicos, ou se pegam qualquer resfriado ou se alguém da família morre, faltam vários dias….

O que reforça a minha crença de que, pior que a destruição física causada por uma guerra, é a desestruturação social que ela acarreta, da qual a desvalorização do trabalho é apenas um sintoma.

“Depois da paz, os sudaneses só querem saber de empregos em ministérios…”, me disse um sudandês dono de um hotel.

Eu fui espiar esses ministérios: erguidos com material pré-fabricado, todos cheiram a tinta fresca, de tão novos — foram construídos há três anos, desde que, com o acordo de paz, o sul do Sudão conquistou certa autonomia administrativa.

Sob o sol escaldante e junto com os hotéis-contêineres e os precários barracos empoeirados montados por toda a cidade, esses ministérios pré-fabricados dão a Juba o ar de um acampamento no deserto, prestes a ser desfeito.

Anúncios

7 Respostas to “Sob o sol de Juba”

  1. manuel fernandes said

    joao , e umas fotozitas nada!????

  2. m.Jo said

    João,
    Dizem que o Sudão é um dos campeões na prática da mutilação genital feminina. Será que vale um post?
    Bjks

  3. Coronel Kurtz said

    “pior que a destruição física causada por uma guerra, é a desestruturação social que ela acarreta”

    beautifully written!

  4. Carol said

    Muito bom esse post, especialmente essa parte sobre as cicatrizes da guerra..É incrível como muito do discurso sobre reconstrução de Estados pós-conflito acaba ignorando essa dimensão psicológica, que, por sua vez, impede qualquer reconstrução de fato..

    bjo

  5. […] Tranco-me. Vou direto ao chuveiro, assim como aprendi em Juba. […]

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: