Juba e as cicatrizes da guerra

26/04/2009

Quem entra no sul do Sudão de avião já começa a ter uma ideia do que aconteceu com essa região nas últimas décadas.

Ainda que não haja nenhuma barreira natural que separe o Sudão de Uganda, percebe-se que a fronteira foi atravessada quando as numerosas vilas às margens das estradas do lado ugandense dão lugar a imensos campos despovoados e sem vida.

Maior país da África, o Sudão também abrigou (e ainda abriga, principalmente no caso de Darfur, no oeste) alguns dos mais sangrentos conflitos armados do continente.

O maior deles, uma guerra civil entre o sul e o norte do país, durou 21 anos e só terminou em 2005. Estima-se que 2 milhões de pessoas tenham morrido no conflito (como será que essas contas são feitas?).

A disputa era movida por antigas rivalidades entre os povos das duas regiões (o norte é majoritariamente árabe e muçulmano; o sul, negro e com grande presença de cristãos), bem como por rachas e conflitos tribais internos –especialmente no sul–, e pela disputa por riquezas naturais – leia-se petróleo.

Após o acordo de paz assinado em 2005, o sul conquistou uma certa autonomia administrativa e, em 2011, decidirá num referendo se irá se separar do resto do país.

Isso se o referendo realmente ocorrer, já que há quem acredite que o governo central, em Cartum, o adiará indefinidamente por não abrir mão das receitas advindas dos campos petrolíferos do sul.

A cidade de Juba, onde estou, tem 300 mil habitantes, é o centro administrativo da região e a base da maior parte das ONGs engajadas na reconstrução do sul do Sudão.

Aqui, quem põe os pés na rua inevitavelmente se depara com filas e mais filas de jipes 4X4 brancos, os veículos usados por todas essas ONGs para o deslocamento do seu pessoal. Enquanto fotografava a cidade, era quase impossível fazer com que esses carros não se intrometessem nas imagens.

dsc038501

Vi jipes e placas de ONGs americanas, canadenses, norueguesas, belgas, suecas, irlandesas, italianas, alemãs, japonesas… pense num país desenvolvido qualquer, e certamente haverá pelo menos uma ONG o representando em Juba.

Tão numerosos quanto os jipes dessas ONGs são os usados pelos mais variados programas e agências da ONU que aqui operam (UNICEF, FAO, UNESCO, UNHCR, UNDP – haja siglas!).

Ainda que seja reconfortante saber que há milhares de estrangeiros empenhados em ajudar uma região tão necessitada, a presença dessas ONGs todas expõe a fragilidade do sul do Sudão e o quão difícil será o seu caminho daqui para frente.

Desde março, na província de Jonglei (a uns 300 km ao norte de onde estou), pelo menos 700 pessoas de uma tribo foram mortas por uma tribo rival, que a acusa de ter roubado o seu gado.

Sim, 700 pessoas foram mortas em retaliação pelo suposto roubo de alguns bois – e esse tipo de ação não é nenhuma novidade.

Num dos ataques mais recentes, na semana passada, dezenas de crianças morreram afogadas enquanto tentavam fugir atravessando um rio – caso não fugissem, provavelmente teriam sido raptadas pelos invadores.

Isso para dizer que, ainda que formalmente o sul do Sudão esteja em paz, as suas instituições são muito fracas para garanti-la de fato – a segurança de muitas zonas, aliás, ainda está a cargo dos capacetes azuis, os soldados da ONU.

Em muitos aspectos, Juba lembra Luanda, a capital de Angola, país que também saiu de uma guerra civil há pouco tempo (2002).

Como em Luanda, os sinais da guerra em Juba estão por todos os lados, embora não sejam tão óbvios: as enormes quantidades de lixo espalhado pela cidade, as favelas erguidas mesmo na região central (por gente que fugia do conflito no interior), o ronco incessante dos geradores (pois a rede elétrica não dá conta de abastecê-la) e as ruas esburacadas e sem asfalto, onde carcaças de carros e ônibus apodrecem.

dsc038561

Tudo isso eco de um passado recente, quando, diante de uma guerra em curso, mesmo serviços públicos básicos inexistiam.

E assim como Luanda, que após o fim da guerra assistiu a uma enxurrada de estrangeiros, Juba sofre os efeitos dessa enorme população que veio acorrê-la nos últimos anos: faltam hotéis para hospedá-la (a saída é pagar até 150 dólares para passar a noite numa barraca ou num contêiner), e tudo é caríssimo.

Devo ficar alguns dias na cidade, antes de pegar uma estrada que me levará ao Quênia.

Isso se, até lá, o meu dinheiro todo não acabar.

Anúncios

8 Respostas to “Juba e as cicatrizes da guerra”

  1. Gabriela said

    Nossa, é uma aula de história esse blog :D É muito bom… Enfim, na tua opinião,as Ong’s conseguem fazer alguma notavel diferença? A guerra em Darfur é inacreditalvelmente violenta e acontece fazem tantos anos, como alguem nao conseguiu parar com isso antes de milhoes de pessoas morrerem?

    • João Fellet said

      Gabriela, acho que as ONGs fazem alguma diferenca sim, mas nao sei se o tamanho dessa diferenca. Provavelmente, sem elas seria pior.
      Mas mesmo com tantas ONGs, o Sudao esta um caco.

  2. Carol said

    Nossa, animal você estar aí no Sudão. Esse post deu uma vontade inacreditável de ir praí! Bom saber que ainda existem tantas ONGs e agências da ONU mobilizadas, pelo menos em Juba..
    Desistiu de Ruanda? Não liga não, sou meio obcecada por Ruanda…hehe

    • João Fellet said

      Oi, Carol. Putz, Ruanda ficou para tras. Tive que tomar uma decisao quando estava em Uganda — ir pra Ruanda ou para ca. Vim para ca…
      Beijos

  3. menino said

    cara, se acabar seu dinheiro, manda o número da conta q eu deposito. essas historias não podem terminar por falta de grana eheheheh.
    abraço!

  4. Fernando said

    Amigo, por falar em dinheiro (sem querer ser intrometido). Você está viajando por conta própria ou tem apoios, patrocínios? Sou um admirador da suas aventuras e acompanho atentamento sua trajetória. Parabéns pelos textos e fotos!
    Fernando

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: