A economia nua

23/04/2009

Continuo apanhando da minha câmera. Outra vez ela foi infectada por um vírus que impede que eu passe as fotos mais recentes para o computador.

Sem problemas. Até resolver isso, vou contando histórias que não tive tempo de contar antes.

Esta é sobre Moçambique.

Em março, atravessei o país do extremo sul ao extremo norte.

Lá, assim como em quase todos os países africanos, a maior parte da população ainda vive no campo.

Passei por vilas que ficavam a pelo menos 300, 400 km da cidade mais próxima.

Nas regiões mais isoladas, durante o período seco, tem de se pedalar por horas até se encontrar água.

Em muitas dessas vilas, não há escolas, e as aulas são dadas embaixo de árvores frondosas.

Come-se o que se planta e, se sobra algo, vende-se à beira da estrada para quem estiver passando.

Se se consegue algum dinheiro, compra-se sabão ou sal. Caso contrário, fica-se sem.

Por isso, quando um ônibus passa por essas vilas, os vendedores tentam com todas as forças convencer os passageiros a comprar o que têm às mãos (um punhado de amendoim, espigas de milho, mandioca, ovos cozidos, frutas – nada à venda é supérfluo).

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A concorrência é grande, então é preciso correr quando o ônibus chega para posicionar-se junto ao veículo.

Em algumas vilas onde o fluxo de viajantes é maior (e também a oferta de produtos), para alcançar as janelas dos ônibus e caminhões mais altos, os vendedores prendem as suas mercadorias em pedaços de pau.

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O que mais me impressiona nessas vilas é que, lá, é possível enxergar com clareza cada etapa da atividade econômica que as sustenta.

Batido, o milho que cresce ao lado das casas de barro se transforma em farinha.

Essa farinha é misturada com água fervida em fornos de carvão, por sua vez gerado a partir da queima da madeira em fornos de barro.

O resultado é uma massa consistente que, acompanhada por alguma erva silvestre, ou por uma galinha que há pouco ciscava entre as casas, ou por um peixe pescado no riacho mais próximo, transforma-se em refeição.

O processo todo está às claras.

Para essas pessoas, nada importam a cotação do dólar, a oscilação das bolsas mundiais ou a política do Obama para o continente africano.

O que as preocupa, sim, é se choverá o suficiente (mas não em excesso) após o plantio e se não haverá pragas na lavoura.

Em tempos de uma crise econômica mundial causada pela multiplicação desenfreada de complexos ativos financeiros, a economia dessas vilas nos traz de volta à realidade.

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8 Respostas to “A economia nua”

  1. manuel fernandes said

    era assim a 50 anos depois melhorou um pouquinho sera que vai piorar ainda ??? ai ai mae africa

  2. Esse é um cenário muito familiar em África.

  3. m.Jo said

    João,
    acho que vc tem toda razão. A economia hoje é uma ciência (?) auto-referenciada, umbigocentrista. Índices que se manipulam com o objetivo de produzir efeitos X, Y ou Z em outros índices. Há que se relembrar Magritte: Ceci n’est pas une pipe.
    Choques de realidade fazem bem.
    Um beijo, e continue nos alimentando com seus lindos textos.

  4. Paulo Eduardo said

    João,

    Desses lugares no interior de Moçambique, qual cidadezinha ou vilarejo você pode recomendar, digamos, que tenha algum atrativo concreto (além da experiência em si)? Exemplos: músicos, arquitetura, história, grupos étnicos? Você manda no meu email algumas sugestões, se tiver tempo?

    Obrigado,
    padu

    PS. venho acompanhando tuas andanças de sp, logo logo eu mesmo farei o mesmo!

    • João Fellet said

      padu, acho que as vilas perto de inhambane sao muito interessantes — as casas sao construidas com folhas de coqueiros. e eles plantam um monte de coisa na areia!
      e pertinho de maputo, entao vale a pena passar por la.
      abracos

  5. Mauricio said

    João,
    Parabéns pelo blog. As histórias e os relatos têm uma narrativa cativante e interessante. Uma espiada no blog diariamente no meio do trabalho se torna um “vício” e um sopro de ar renovado de outras realidades. Talvez seja projeção e vontade inconsciente de rodar pela Africa.

  6. Rapaz,isso me deu saudades daí,e simmmmmm em toda áfrica é isso aí………
    abraços sonia

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