O adeus a Mr. Brown

21/04/2009

mb

 

Nos anos 60, quando Mr. Brown trabalhava como marceneiro na Inglaterra, onde nasceu, viu no jornal que a Cruz Vermelha estava recrutando voluntários para atuarem como enfermeiros na Nigéria, então arrasada por uma guerra civil.

 

“Sentia que a vida que eu levava não estava me preenchendo. Então eu fui”, ele conta.

 

Em poucos meses, viu dezenas de crianças morrerem nos seus braços e pegou malária sete vezes. “Mas também salvamos muitas vidas, e essa é a maior recompensa que algém pode ter.”

 

Quando a missão acabou, voltou para a Inglaterra e, alguns anos depois, mudou-se com a mulher e os quatro filhos para o Canadá.

 

Comprou um pedaço de terra e começou a cultivá-lo – na Inglaterra, ele crescera no campo e trabalhara vários anos na lavoura.

 

Poucos anos depois, separou-se da mulher e perdeu o filho mais jovem num acidente de carro.

 

As lembranças da África o fariam voltar para lá nos anos 80, desta vez para trabalhar numa construtora no Quênia.

 

Lá, uma grave crise de úlcera o fez ser internado às pressas. A enfermeira que o tratou, uma jovem viúva mãe de dois meninos, chamou a sua atenção.

 

Quando teve alta, começaram a se encontrar e, em dois anos, os quatro se mudariam para o Canadá – Mr. Brown adotou os dois meninos como seus filhos.

 

Mas a relação com a sua mulher foi se desgastando, e, depois de cinco anos, os dois se separaram.

 

Com todos os filhos crescidos (os do primeiro casamento já estavam casados; os do segundo, na universidade), nada mais prendia Mr. Brown ao Canadá.

 

Foi então que, em 1998, teve outra chance de voltar à África. Um amigo missionário o convidara para ir ao Maláui, um dos países mais pobres do mundo, para ajudar em trabalhos comunitários.

 

Desde então, nunca mais saiu do continente.

 

Quando o conheci à bordo do cargueiro Umoja, onde ambos pegávamos uma carona para atravessar o lago Vitória da Tanzânia a Uganda, ele quis saber que países eu ainda pretendia visitar no resto da minha jornada pela África.

 

Disse que o Quênia, a Etiópia, o Egito e o Sudão – “se bem que não sei se conseguirei o visto para este…”, acrescentei, como costumo fazer sempre que cito o Sudão.

 

“Você quer ir para o Sudão??”, ele perguntou.

 

“Sim”, respondi, esperando que ele fosse me desencorajar.

 

“Então eu posso ajudá-lo! Estive lá duas vezes no ano passado, sou amigo do pessoal da embaixada!”

 

Fiquei impressionado. O que um homem daquela idade foi fazer num dos países mais perigosos do mundo?

 

Pois ele foi tentar ajudar as pessoas nos campos de refugiados no sul do país a retornar às suas terras, a reconstruir as suas casas e a voltar a plantar. Mas não deu certo.

 

“As pessoas lá perderam completamente a esperança, estão desoladas, e me parece que as próprias ONGs que as ajudam se acomodaram ou não têm interesse em que elas voltem para as suas terras. É uma pena: o solo lá é dos melhores – preto, fértil, fundo”.

 

“E o sr. não teve medo, não se sentiu ameaçado por lá?”

 

“Jamais me senti ameaçado neste continente – e eu vou a qualquer lugar. Você têm de ter mais de 70 aos para viajar pela África”, ele diz, entre risos.

 

“Nunca foi roubado?”

 

“Uma vez, quatro homens armados entraram de madrugada na minha casa no Maláui – a minha porta sempre fica aberta. Eles chegaram gritando, perguntando onde estava o dinheiro. De repente, um deles diz para os outros: ‘eu conheço esse homem, ele vai lá na prisão discutir a Bíblia…’ Eles levaram algum dinheiro, mas nunca mais tive problemas.”

 

Os problemas que Mr. Brown enfrenta no Maláui são de outra ordem: faz três anos que ele tenta convencer os camponeses da vila onde mora a adotarem a agricultura orgânica – segundo ele, a única forma de recuperar a produtividade daquelas terras.

 

Nas últimas décadas, a população do Maláui se multiplicou, e as terras foram progressivamente empobrecendo por causa das constantes queimadas e do mau uso de fertilizantes.

 

Hoje, o solo está ácido, as colheitas são pobres e não há mais terras virgens disponíveis.

 

Falta comida, as pessoas estão desesperadas, mas pouquíssimos se mostram interessados em adotar a agricultura orgânica – que recuperaria o solo praticamente sem gastos, mas que exige procedimentos com que os camponeses não estão habituados e não estão dispostos a aprender.

 

Lá, assim como no Sudão, disse-me o Mr. Brown, as pessoas perderam a esperança – nos últimos anos, só quatro famílias aderiram à técnica.

 

Ainda assim, ele não perdeu a esperança. “Às vezes me desanimo, mas sinto que certos fracassos são importantes para que não fiquemos superconfiantes e trabalhemos sempre com a maior dedicação”, ele diz.

 

A sua fé também o ajuda a não desistir das suas causas. Criado numa família anglicana, teve uma sólida formação espiritual e é um grande estudioso da Bíblia – ainda que não siga nenhuma religião.

 

A caminho de Kampala, Mr. Brown estava animado porque, depois de longos meses só de conversas frustradas com camponeses, voltaria a pôr a mão na massa, para construir uma escola para crianças deficientes num bairro pobre da cidade (Kamwokya).

 

“Eu me sinto bem quando estou envolvido num trabalho manual. Apesar da minha idade [78 anos], o meu corpo está bom. Só a cabeça que começa a falhar”, ele disse.

 

À noite, quando a tripulação do Umoja se preparava para deitar, eu o vi sentado no refeitório, com um grande caderno à frente. Ele ficou horas ali, concentrado, escrevendo sem parar – depois me explicou que faz aquilo todas as noites, num exercício contra a perda da memória.

 

Alguns dias depois, eu percebi que o Mr. Brown sofria fazendo algumas contas num papel – ele estava contabilizando os seus gastos do dia, como sempre faz, mas as contas não fechavam. Após algumas operações, ele perdia o fio da meada e tinha de recomeçar tudo do zero.

 

Então pediu a minha ajuda, e quando as contas finalmente fecharam, foi como se tivesse se livrado de um grande peso.

 

Depois do jantar, quando acabáramos de nos deitar no minúsculo quarto que dividimos em Kamwokya, ele me diria: “Sabe, João, envelhecer é duro… Mas é algo que você simplesmente tem de enfrentar.”

 

Enquanto estive em sua companhia em Kampala, Mr. Brown parecia feliz.

 

Como a construção da escola ainda não começara, já que ele esperava a adesão de alguns voluntários da comunidade – condição essencial para que cuidem dela quando ele for embora, conforme aprendeu –, Mr. Brown passava o dia conversando com alguns dos 15 jovens que ele ajuda pagando as mensalidades das suas escolas (em Uganda, até o ensino público é pago).

 

Mesmo à distância, Mr. Brown acompanha os jovens para ver se estão fazendo progressos e, quando há qualquer problema com algum, quebra a cabeça buscando soluções.

 

Nos últimos dias, a maior preocupação era Michael, um garoto de oito anos cuja doença nenhum médico conseguira diagnosticar (ele não fala, não responde a estímulos e costuma sumir de casa). Nas últimas semanas, Michael começara a urinar em si mesmo, e ninguém mais sabia o que fazer.

 

Mr. Brown seguia firme. Marcou novas consultas para o menino e teve uma longa conversa com os seus pais.

 

Sempre me lembrarei da tarde em que chegamos juntos a Kamwokya. Enquanto descíamos uma rua estreita de terra, com precárias casas de barro dos dois lados, uma menina de uns 8 anos veio correndo em nossa direção.

 

Ela saltou nos braços do Mr. Brown, que chorava. “Rachel, Rachel…Senti a sua falta…”

                                                                                       

No Umoja, ele já havia me falado de Rachel, a sua “favorita”. Na sua primeira visita a Kamwokya, há dois anos, encontrou uma menina muito magra e toda suja, acocorada sobre um monte de lixo.

 

Quando se aproximou, ela o encarou fixamente por longos segundos. Depois, sem dizer nada, agarrou-se ao seu pescoço e o abraçou com força.

 

“Ninguém nunca tinha me olhado daquele jeito”, ele me contara.

 

Rachel ouve perfeitamente, mas não consegue falar. Seus pais achavam que a sua deficiência era uma manifestação de feitiçaria e que, se cuidassem dela, teriam outros filhos deficientes. Então deixavam-na largada pelas ruas, como se fosse um cão vira-lata.

 

Mr. Brown convenceu os pais dela a acolherem-na, matriculou-a numa escola e comprou-lhe novas roupas. Hoje, Rachel parece uma menina normal.

 

Depois de abraçá-la, ainda emocionado, ele me disse: “é por coisas assim que sempre que me perguntam quando vou voltar para o Canadá, respondo: nunca!”.

 

Quando me despedi dele, ontem à noite, entreguei-lhe a foto acima,  com a sua “favorita”, dentro de um porta-retrato. Acho que ele gostou.

Anúncios

18 Respostas to “O adeus a Mr. Brown”

  1. Joyce said

    Linda história.
    Bela foto.

    Com certeza, ele adorou.

  2. manuel fernandes said

    em vez de estar a apodreçer num qualquer lar de idosos anda pelo mundo dando tudo o que tem e nao tem grande HOMEM

  3. allanpatrick said

    Uma grande figura!

  4. Fernanda said

    obrigada por partilhar esta história
    é importante o mundo conhecer estas “grandes” pessoas
    FR

  5. Lara said

    Histórias assim que nos fazem pensar que há uma solução para os dramas da humanindade.

    Bela postagem!

  6. Gisele said

    Morei em Angola por 16 meses até Dezembro ultimo decifrei-a e morro de saudades… Adorei seu projeto de atravessar a África, pena não te-lo conhecido em Luanda “paradiZe”! Boas estradas!

  7. Mara said

    Tocante! Grande história de vida! Grande encontro, não? Boa viagem. Continuo acompanhando…

  8. Obama said

    belíssima história.
    vc é o cara.

  9. Belo testemunho.
    Obrigado João e obrigado Mr.Brown.

  10. rosália andrade said

    Realmente é um belo testemunho. Envelhecer com essa garra, com objetivos tão nobre é invejável. Uma lição . Fazer o bem , fazer sempre alguma coisa que nos torne feliz, até o final.Um dia um menino me disse que aprendeu no caminho de Santiago de Compostella que devemos viver um dia por vez. Você está vivendo um dia por vez, dias abençoados, pelos encontros e conhecimentos adquiridos.
    Que Deus te abençõe. Um beijo.
    Tia Rosália

  11. Tássia N. said

    Para essas pessoas, a vida é melhor porque Mr. Brown existe.
    Independente de agências e/ou organizações humanitárias internacionais.

    Muito interessante o seu relato, João. Me envolveu, me comoveu. Me fez lembrar como o ser humano é capaz de transformar a vida ao seu redor, ainda que lute contra um batalhão sozinho. A diferença que uma pessoa pode fazer em meio ao caos. Acho que é uma questão de fé. Crença na vida.

    E me fez lembrar que para uma bela história, um belo personagem. Grande achado, jornalista!
    Beijos =)

  12. anarina said

    Obrigada!

  13. Lucia Parizi said

    Joao continue sua trajetoria ela nos trara grandes licoes de vida e conhecimentos….
    Fique com Deus e siga em frente.

  14. Eduardo Heleno said

    Valeu, João!

    Bela história!

  15. […] qualquer receio que ainda restasse em mim. De todas elas, a mais especial foi, sem dúvida, Mr. Brown, o inglês que encontrei enquanto atravessava o lago Vitória, entre a Tanzânia e […]

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: