No Luzira, o maior presídio de Uganda

18/04/2009

Mr. Brown, o senhor que conheci durante a travessia do lago Vitória, me convidou para visitar o maior presídio de Uganda – o Luzira, na cidade de Kampala.

Lá, todos os sábados um grupo de presos se reúne para discutir passagens da Bíblia – foi o próprio Mr. Brown quem montou o grupo, há alguns meses.

“Mas não são simples discussões”, me diria ele quando mencionou o assunto pela primeira vez, ainda à bordo do Umoja.

“Há presos com um nível intelectual altíssimo. Às vezes, eu participo das discussões, mas outras, fico quieto, só ouvindo. Você verá”.

Depois de facilmente conseguir uma autorização para entrar no presídio (a única condição era que eu não levasse a minha câmera), fui conferir a última sessão do grupo, hoje à tarde.

No alto de uma colina com vista para o lago Vitória, o Luzira não tem muros nem grades. O presídio está separado do resto da cidade por apenas uma baixa cerca de arame – ainda assim, as fugas são raríssimas.

Os presos dormem em casas rodeadas por um impecável jardim, cheio de flores, gramados e pomares.  

Sem passarmos por qualquer tipo de revista (somente deixei o meu celular com um guarda ao portão), entramos no presídio por volta do meio-dia e descemos uma escaradaria onde vários detentos conversavam sentados – alguns trajavam um uniforme amarelo; outros, roupas comuns.

Todos nos cumprimentavam amigavelmente.

Ao pé da escadaria, ficava a igreja onde ocorreria a reunião – um salão comprido e arejado, onde os presos espalham tapetes sobre os quais se sentam em círculo.

Uns dez homens vieram nos receber — “Mr. Brown!”, eles diziam, abraçando-o com força; eu recebia longos apertos de mão.

Nós dois nos sentamos em confortáveis cadeiras enquanto, conduzidos pelas batidas de três tambores, aqueles homens começaram a cantar e a dançar efusivamente, convocando os outros presos para a discussão que logo começaria.

Aos poucos, o salão foi enchendo.

Quando mais de 40 presos haviam se unido ao grupo, um deles leu a passagem que seria discutida – e que fora escolhida na reunião anterior, uma semana atrás, de modo que todos tivessem tempo de estudá-la.

O trecho tratava de um assunto espinhoso: o incesto.

O rapaz lia em luganda – língua da região de Kampala—e era traduzido simultaneamente por outro preso para o inglês, o idioma dos antigos colonizadores e que é falado, como segunda língua, mais ou menos em todo o país (mais adiante, outros presos fariam comentários em outras línguas e também seriam traduzidos para o inglês).

Logo de saída, enquanto o rapaz ainda lia o trecho, um dos participantes pediu a palavra para apontar o que considerava um erro de tradução daquela passagem na versão da Bíblia em luganda.

Outro preso interveio para dizer que não se tratava de um erro de tradução, mas sim de uma contradição.

A ideia ganhou o apoio de alguns, mas foi rejeitada pela grande maioria, que defendeu não haver qualquer contradição na Bíblia, pois isso poria em xeque a Verdade revelada pelo Livro Sagrado e, por conseguinte, derrubaria os pilares do Cristianismo.  

Do meu lado, Mr. Brown – que até então só fizera duas colocações pontuais na discussão – me cutucou: “viu só como eles estão atentos ao que lêem? É isso o que mais falta nas igrejas hoje em dia…”

A questão preliminar foi rapidamente superada, e iniciaram-se as discussões centrais.  

Deus realmente proíbe o incesto? Se sim, por que a Bíblia não o condena na passagem que acabara de ser lida?

A partir dessa questão, são evocadas outras: qual a verdadeira posição do Livro Sagrado sobre a poligamia? Segundo a Bíblia, um homem pode “herdar” a mulher do irmão se este morer – como é o costume em muitos lugares da África?

Para defender uma ou outra ideia (e não havia opinião unânime sobre nenhuma das questões acima), os participantes elencavam intrincados argumentos.

Eram ouvidos atentamente e, depois que encerravam a sua exposição, recebiam o apoio (parcial ou total) ou a rejeição (parcial ou total) de outros presos.

Cada um, lembre-se, expunha as suas opiniões numa língua enquanto era traduzido para outra.

 “Meu Deus!”, pensei – e acho que a ocasião era apropriada para evocá-lo.

Essas pessoas estão conduzindo uma discussão nas condições mais difíceis possíveis – cada um fala uma língua, os assuntos são polêmicos, há as falhas de tradução da Bíblia e há as falhas de tradução do que falam. E no entanto uns ouvem atentamente os outros e a discussão evolui! Como se esforçam para que se entendam – e que esforço hercúleo!   

No único momento em que a discussão parecia ter empacado numa disputa retórica, Mr. Brown pediu a palavra e citou o apóstolo Paulo, “que nos ensinou que um debate jamais deve centrar-se em si mesmo, ou perde a razão de ser”.

A ideia foi defendida por um homem baixo de uns 45 anos, que em seguida fez um discurso brilhante.

Sintetizou todas as questões levantadas pela discussão, citou uma passagem do Velho Testamento e, concluindo, expôs as suas visões sobre as questões abordadas.

Ao fim da sua fala, o líder do grupo (um homem conhecido por “pastor Andrew”, preso em Luzira há dez anos) encerrou a sessão, após duas horas de intensos debates. Antes, indicou a passagem que seria discutida na semana seguinte.

Despedimo-nos daqueles homens e deixamos o Luzira.

No caminho para casa, Mr. Brown me pergunta: “E então? Você sente que acabou de sair de um presídio?”

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12 Respostas to “No Luzira, o maior presídio de Uganda”

  1. RMM said

    São presos políticos?

  2. rosália andrade said

    Oi, João estava escrevendo e apertei o botão errado. Não seí se enviei. Vou falar tudo de novo.
    Estou acompanhando seu blog. Todo dia de manhã peço a Deus que te acompanhe nessa aventura. Fico muito preocupada com sua exposição , com essas estradas,com a comida, mosquitos e outros bichos. Fiquei arrepiada com a abordagem do T. Fiquei com uma pontinha de inveja com a visita ao Presídio. Mereço um relatório especial na volta. O trabalho desenvolvido no presídio é muito comum aqui também. Já temos em algumas unidades projetos semelhantes ao Círculo de Leitura. Vejo que você está feliz. Totalmente aberto para a vida. Acho que você herdou do seu avô a curiosidade e a facilidade de comunicação. Estou no sítio , todos mandam beijos . A Conceição ficou encantada com seu blog. Manda um beijo.

    • João Fellet said

      Oi, tia. Gostei muito de receber a sua mensagem.
      Voce obviamente tera um relato bem detalhado da minha ida ao presidio — enquanto estive la, pensei em voce em cada minuto.
      Mande um beijo para a Con e para todos na sua casa: tio Caca, Bru, Diego e a Olivia.
      beijos,
      Joao

  3. Fernanda Matsinhe said

    Oi de novo Joao, e so para agradecer mesmo, o momento que Deus te iluminou para escrever esse blog, ta me inspirando muito msmo, essa historia ai mostra que nao existe barreiras para a Fe em Deus e na vontade de se superar e fazer melhor na vida…. gostaria msmo de saber mais sobre o Mr Brown, deve ser alguem incrivel de conhecer, Deus ta te iluminando msmo com as pessoas que bota no seu caminho, com a excessao do T. mas se a gente pensar por um outro lado, e so um forca de vontade e potencial usado a servico do mal, e de coisas negativas, porque que com todos os riscos que ele te contou que ja passou e vive passando, porque como ele te perguntou o que achava melhor, ficar pobre para sempre ou morrer tentando… imagina essa forca toda usada para fazer coisas boas…
    que Deus abencoe teus passos

    • João Fellet said

      Obrigado pela mensagem, Fernanda.
      Realmente parece que so tenho encontrado pessoas incriveis no caminho.
      abracos

  4. Gabriela said

    Oi! Nossa teu blog é muuuuuuuito bom, mto bem escrito e faz com que o leitor sinta que está participando do debate contigo!

    Boa viagem!

  5. Cara, o blog tá cada vez melhor.

  6. Joyce said

    Oi, João.
    Sempre tive uma visão diferenciada sobre os presídios e, depois do trabalho na FUNAP, esta visão apenas se intensificou. Muitas vezes, ao sair de uma unidade prisional, tenho a mesma sensação de “meu Deus, estava dentro de um presídio!”. Conheci muitas pessoas brilhantes e histórias maravilhosas! Com certeza, você também deve ter se esquecido, no meio da discussão, que estava dentro de um presídio!
    Boa aventura!
    Continuarei aqui… na “platéia”.

    • João Fellet said

      Joyce, quando voltar, quero conhecer melhor o trabalho da Funap. Vou cobrar a minha tia!
      abracos

  7. […] sozinho, decidiu montar um grupo de discussões com os presos da maior penitenciária de Uganda, Mr. Brown não pensou nos riscos que corria. Ele sabia que no presídio encontraria pessoas, e […]

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