A travessia do lago Vitória

16/04/2009

Quando em Mwanza, Tanzânia, fiquei sabendo que o ônibus para a fronteira com Ruanda só sairia em cinco dias, fui tentar a sorte no porto da cidade, que fica à beira do lago Vitória, tão grande que parece um oceano.

 

Há algumas semanas, li no “Dark Star Safari”, livro em que o americano Paul Theraux narra a sua viagem do Cairo à Cidade do Cabo, que ele atravessara o lago Vitória de Kampala (capital de Uganda) a Mwanza de carona num cargueiro.

 

Para mim, essa travessia – à bordo de um navio chamado Umoja – fora um dos pontos altos do livro.

 

Pensei que poderia fazer o trecho inverso, já que também estava nos meus planos passar por Uganda.

 

Cheguei ao porto de Mwanza às 4 da tarde e vi que um cargueiro estava sendo carregado. Quando perguntei ao chefe da tripulação se havia espaço para mim, a sua resposta me encheu de alegria: “karibu”, ele disse.

 

(É impossível atravessar uma só porta na Tanzânia sem que se ouça karibo – bem-vindo, em suaíli. Minto: às vezes, os estrangeiros recebem as boas-vindas em inglês: “you’re most welcome” e “you’re warmly welcome” – esta, a minha favorita – são as formas mais comuns).

 

Subi no cargueiro e logo um dos membros da tripulação me levou ao quarto onde eu passaria a noite – afinal, só chegaríamos em Kampala na tarde do dia seguinte – e, enquanto apontava a minha cama, ouvi outra vez: “karibu”.

 

Asante”. Obrigado, respondi.

 

Perguntei-lhe então o nome daquele navio.

 

“This is the Umoja, sir.”

 

Umoja – o mesmo em que o Theraux havia viajado.

 

***

 

Fazia mais de quatro horas que estava a bordo e o Umoja continuava a ser carregado com enormes contêineres.

 

Mas eu não estava nem aí – o navio era tão encantador – imaginem um cargueiro inglês com 47 anos de idade em perfeito estado de conservação – e a tripulacão tão amigável, que me sentei e esperei pelo pôr do sol, tranquilamente.

 

Pouco antes, havia visto um senhor de cabelos brancos e com as costas curvadas embarcar com uma mala que devia ser muito pesada, dado o esforço dele para arrastá-la.

 

Mais tarde ele viria até mim e se apresentaria: chamava-se Hugh Brown, tinha 78 anos, era inglês e vivia no Maláui há dez anos.

 

Ele estava indo a Kampala construir com as próprias mãos (e por isso carregava aquela mala pesada, cheia de ferramentas) uma escola para crianças deficientes num bairro pobre da cidade.

 

“E quem pediu que o sr. construísse a escola?”, quis saber.

 

“A necessidade”.

 

Ele havia estado lá alguns meses atrás e, numa visita a esse bairro (Kamokya), impressionou-se com a quantidade de crianças deficientes abandonadas pelas ruas à própria sorte.

 

“Os pais acham que a deficiência tem a ver com algum ato de bruxaria e que, se cuidarem desses filhos, os próximos também nascerão com problemas. Então eles simplesmente abandonam as crianças, não as põem na escola nem lhes dão comida.”

 

Eu passaria o resto da viagem conversando com aquele homem.

 

Ficamos tão próximos que ele até me convidou a dormir em Kamokya, na casa de uma moça da comunidade que o ajudará na construção da escola.

 

E em Kamokya estou, e daqui escrevo.

 

Amanhã conto mais e tento postar algumas fotos da travessia.

Anúncios

6 Respostas to “A travessia do lago Vitória”

  1. Cfe said

    Meu caro,

    Descobri seu ótimo blog anteontem:, sou brasileiro, moro em Portugal e minha mulher é natural de Germiston, uma cidade dos arredores de Joanesburgo.

    Estive ano passado em Maputo, e visitei os arredores uma missão católica espanhola, em Nhanguene (acho que é assim que se escreve), que ensina ofícios a jovens e crianças. Transportei remédios para um rapaz que tendo epilepsia, não podia estudar já que as pessoas julgavam-no possuído. Digo isso porque em certa medida, e salvaguardando a proporção da “boa” ação, senti-me reconhecido na atitude do inglês.

    A propósito: Maputo é uma cidade duma calma e tranquilidade espantosas. Adrável para se viver.

    Que Deus lhe guie os passos.

    Saudações Vascaínas.

    Cfe

  2. Animal a tua história do Umoja! E que coincidência!

  3. Várias viagens dentro da viagem.

  4. Obama said

    Vc é o cara!

  5. Fernanda Matsinhe said

    Oi joao tua viagem ta mais interressante do que nunca, tou viciada no teu blog, e cada dia uma licao de vida…. essa tua historia mostra que o mundo talvez ainda tenha cura, pessoas como essas nos inspiram e nos dao esperanca de que talvez um dia tudo acabe bem……

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: