Candongueiro

06/04/2009

candon

Candongueiro é, em Angola, um dos nomes usados para se referir à van azul que constitui o principal meio de transporte no país.

Em Luanda, os candongueiros são parte da paisagem – para onde quer que se olhe, haverá vários deles, em geral presos em congestionamentos colossais.

No início, os candongueiros me aterrorizavam.

Além de conduzirem de forma temerária – e talvez por causa disso –, os motoristas (e os cobradores) dos candongueiros costumam se envolver em brigas de trânsito das mais selvagens.

Presenciei várias em que homens caídos eram chutados até perderem a consciência.

Isso sem citar os acidentes terríveis que provocam e em que, não raro, todos os passageiros morrem.

Passado algum tempo, porém, me dei conta de que esses motoristas e cobradores não mereciam ser vilanizados.

Afinal, executam um trabalho essencial e são, também eles, vítimas de condições atrozes.

Em geral, não são donos das vans que conduzem e têm de pagar, além do combustível que gastam, um valor diário aos proprietários dos veículos – assim, é como se começassem cada dia de trabalho devendo para o patrão.

Como o trânsito de Luanda é terrível, não conseguem fazer muitas viagens e têm de trabalhar por turnos extensos, ou terminarão o dia sem abater a dívida.

Como a atividade é mal fiscalizada (trata-se, ademais, de um sistema de transporte privado, em que as infrações são perdoadas mediante o pagamento de propinas), transferem parte do ônus aos passageiros, submetendo-os a condições desumanas.

Quem estiver dentro dessas vans certamente sofrerá bastante. Entretanto, quem estiver fora presenciará cenas curiosas: em Luanda, cada candongueiro costuma trafegar com uma bunda para fora da janela.

Isso porque, quando cada centímetro do veículo já está preenchido por passageiros, o cobrador, não tendo onde se sentar, põe a bunda para fora da janela – e, para isso, dobra o corpo como um contorcionista.

Os candongueiros não são uma exclusividade de Angola, e o modelo costuma se repetir com pequenas variações nos outros países africanos.

Em Moçambique, onde os peguei à exaustão (o que está na foto acima levou-me da Beira a Quelimane), vivenciei cenas que me fizeram elaborar três máximas sobre o sistema. São estas:

1 – Um candongueiro nunca deixa de levar um passageiro por falta de espaço

Em Nampula, quando a van completamente lotada que me levaria à Ilha de Moçambique preparava-se para partir, uma mulher chegou apressada, querendo embarcar.

O cobrador fez de tudo para colocá-la no carro  – ao mesmo tempo, empurrava a mulher, tentava abrir espaço entre os passageiros e ralhava com alguns que, segundo ele, não estavam colaborando.

Sem sucesso, conduziu a mulher para fora do veículo e, com a ajuda de outro passageiro, lançou-a para dentro através janela.

***

2 – Um candongueiro só freia para apanhar mais passageiros ou para que algum desça

Em Maputo, quando à bordo de um candongueiro estava a caminho de Laulane, na periferia da cidade, avistei, a uns 30 metros à frente, um rapaz que atravessava a rua despreocupado.

Embora soubesse que, caso não freasse ou mudasse a sua rota, atropelaria o rapaz, o motorista não reduziu a velocidade da van, que corria a uns 70 km/h, nem mudou a sua direção.

De olho no candongueiro, o rapaz continuava a sua travessia, confiante de que em algum momento o motorista desviaria ou frearia.

Mas não – o condutor manteve a velocidade e a rota.

Quando o choque com o rapaz era iminente, este jogou-se apavorado para o lado, salvando-se por um triz.

***

3 – Entrar num candongueiro é uma decisão sem volta

Em Inhambane, fazia quase duas horas que, dentro de um candongueiro já lotado, esperava pela sua partida rumo a Vilanculos.

O veículo, com 11 lugares, carregava 15 pessoas – isso além dos vários bebês e crianças, que não entram na conta dos cobradores por não pagarem passagem.

Mas nada disso importava, pois o candongueiro só parte quando está completamente preenchido e, segundo os cálculos daquele cobrador, ainda havia espaço para uma pessoa — embora eu não conseguisse imaginar onde.

Ao meu lado, um senhor queixava-se com outro sobre a demora da van em partir.

“Apanhei isto porque queria chegar mais cedo, e agora essa demora… Logo vai sair o autocarro [ônibus].”

Autocarro? Ouvir aquela palavra me deixou animado, pois pensava que a única opção para chegar ao meu destino era aquela van. Se soubesse que havia um autocarro, certamente teria esperado por ele.

Então lhes perguntei se sabiam de onde o autocarro de que falavam partiria.

Os dois me olharam assustados. “O senhor vai embora?”, um deles me perguntou.

Imediatamente percebi que, caso abandonasse a van, haveria mais um lugar a ser preenchido até que ela partisse, e isso poderia levar várias horas adicionais. É por isso que haviam reagido daquela forma à pergunta.

“Não, eu vou ficar”, respondi-lhes. E quando o último passageiro que faltava apareceu, entreolhamo-nos com cumplicidade.

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12 Respostas to “Candongueiro”

  1. Patrick said

    Suas crônicas são interessantíssimas

  2. Mara said

    João, o “candongueiro” moçambicano ainda é chamado de “Chapa”? Quando estive lá, alguns anos atrás, eram os famosos (e infernais) “chapas 100”, em referencia ao valor monetário da passagem (100 meticais, à época). Me parece que o 100 caiu por terra, em seguida, torrado pela inflação. Mas fiquei curiosa quanto à manutenção do nome original. Obrigada por compartilhar a deliciosa viagem. Ôh, vontade!

    • Fernanda_Matsinhe said

      eu respondo essa pelo Joao, sim ainda sao os tao famosos ‘chapa 100s’ eu que o diga , conheco-os muito bem… sou mocambicana….
      Joao tua viajem ta tudo de bom, tou morrendo de inveja amaria tar no teu lugar, tou lendo teus posts todos os dias que nem o jornal….
      bjao boa sorte ai pelas tuas novas aventuras

      • Mara said

        Legal, Fernanda! Morei em Maputo durante o ano de 1994, acompanhando a eleição presidencial. Voltei ao país em 2003, movida pela profunda paixão que ficou pelo seu país. Agora estou acompanhando essa viagem e matando um pouco as saudades. Tenho alguns amigos em Moz. Vc mora onde? Um grande abraço.

    • Fernanda_Matsinhe said

      Oi Mara, desculpa ai levei um tempao para te responder, eu tou a estudar na China, estou desde 2007 a fazer meu bacharel em telecomunicacoes….. com o blog do Joao, ate me animei em escrever o meu ,com um olhar sobre o oriente e nao existe pais melhor para fazer isso do que a china….

  3. menino said

    tou ficando viciado nesse blog e nesse continente. espero que você faça um guia da áfrica quando voltar.

    • João Fellet said

      pra fazer esse guia da africa eu teria que passar pelo menos uns cinco anos viajando. o que nao seria ma ideia… rs…
      abs

  4. cassia alves said

    Este blog xta a dar muita Karga. K me tornei blogdependente.

  5. João ,até Sampa hoje ficou melhor ,depois que li o seu blog! que delícia de jeito de escrever as coisas! so

  6. Paulo Coutinho said

    Sou um “caroneiro” nesta sua viajem pela África…que é fascinante…e prá acompanhar mais de perto, eu adoto sequir pelo google earth todos os lugares por onde vc passa!…deixo a dica…afinal…quem não tem cão caça como gato!…eu disse – como gato – porque é assim a frase…o gato caça só…é o caso de quem não tem cão…vai ter que caçar só…vixi…perdi um tempão prá explicar isso…e eu só queria dar a dica do google earth…abraços

  7. Lílian said

    Nossa…impressionante!Achei muito curiosa as 3 máximas sobre o sitema!
    Engraçado que só vim ler, especialmente, este post no seu blog porque tenho um amigo que escreveu sobre ele, e fez uma comparação muito interessante com o candogueiro e os transportes “alternativos”(que em muitos casos tornam-se a única opção)da cidade de Belém.
    Deixo aqui o link pra quem quiser conferir o post de Igor Reis,e ver que em nosso país também existe candogueiros!
    http://coexistindo.blogspot.com/2009/04/candogueiro-kombao-r100.html#comments

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