Minhas viagens com Kapuscinski

03/04/2009

Estou lendo “Minhas viagens com Heródoto”, do jornalista polonês Ryszard Kapuscinski.

Kapuscinski é o maior responsável por eu estar perambulando pela África hoje.

Se você nunca leu nenhum livro dele, aliás, largue imediatamente o que estiver fazendo e vá comprar algum, qualquer um – e comece a planejar a sua viagem para cá.

“Minhas viagens com Heródoto” é, como já esperava, imperdível.

Nele, Kapuscinski mescla relatos das suas viagens nos anos 60 à Ásia e à África com trechos da “História”, a obra-prima do primeiro historiador da humanidade, Heródoto – de quem ele é fã incondicional, e de quem também nos tornamos fãs à medida que a leitura avança.

Por uma daquelas enormes coincidências, adivinhem onde o Kapuscinski estava quando abri o livro hoje pela manhã?

Sim, Dar es Salaam.

Que o mestre a descreva:

“Deixei Adis Abeba e me dirigi a Dar es Salaam – cidade localizada à beira de uma baía em forma de semicírculo tão perfeito que bem poderia ter sido uma dentre as centenas de baías existentes na costa grega, transportada para cá, para a costa oriental da África.

O mar estava permanente calmo; ondas pequenas e lentas, sussurrando ritmicamente, desapareciam sem deixar vestígios na areia quente da praia.

Nessa cidade, que contava com menos de 200 mil habitantes, juntou-se e misturou-se metade do mundo. Já o próprio nome, Dar es Salaam – que, em árabe, quer dizer “Casa da Paz” –, indicava a sua ligação com o Oriente Próximo (aliás, uma ligação infame, já que era por ali que os árabes faziam transitar seus escravos africanos.)

Mas o centro da cidade era predominantemente ocupado por indianos e paquistaneses, com todas as línguas e religiões existentes nessas duas civilizações: viam-se siques, seguidores de Aga Khan, muçulmanos e católicos de Goa.

Uma colônia separada era formada pelos imigrantes das ilhas do Oceano Índico – Seychelles e Comores, Madagáscar e Maurício –, uma bela raça resultante da mistura e da união dos mais diversos povos do sul.

Mais tarde, chegaram e se estabeleceram por aqui milhares de chineses, que trabalharam na construção da ferrovia Tanzânia – Zâmbia.

Um europeu que se defronta pela primeira vez com tal mistura de povos e culturas como a existente em Dar es Salaam decerto ficará impressionado com o fato de existirem outros mundos além do seu (mesmo que teoricamente isso já fosse de seu conhecimento).

Mas, acima de tudo, o que surpreende é que esses mundos se encontraram, mantiveram contato, se misturaram e conviveram sem a intermediação e, de certa forma, sem o conhecimento e a concordância da Europa.

Como ao longo dos séculos ela fora o centro do mundo num sentido tão literal e óbvio, era muito difícil para um europeu aceitar que, sem ele e além dele, havia civilizações com vida própria, possuidoras de tradições únicas e de problemas singulares.

E que, a bem da verdade, ele é que podia ser considerado um estrangeiro, um imigrante, e seu mundo, uma realidade distante e abstrata.”

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9 Respostas to “Minhas viagens com Kapuscinski”

  1. juborges said

    Eu terminei o seu “Guerra do futebol”. Adorei, achei melhor do que o do Heródoto. Passei pra minha amiga ler aqui na China, mas prometo levá-lo de volta para o Brasil! bjs e aproveite a viagem

  2. menino said

    um polonês foi o grande responsável por sua viagem pela áfrica? eita globalização.

  3. Carol said

    Muito legal seu blog.
    Estava lendo o Pé na África e vi a indicação do seu blog. Pensei: João Fellet, esse nome não é estranho. Estudei na sua sala no Rio Branco, no último ano. Legal ver alguém de lá fazendo algo tão bacana!
    Esperarei ansiosamente por sua viagem a Ruanda. Tenho uma grande vontade de conhecer o país..quem sabe um dia.

    • João Fellet said

      Oi, Carol. Que legal vc ter me achado! Lembro sim de vc na nossa sala do 3H3. rs…
      Devo ir a Ruanda daqui a uns 40 dias, mais ou menos. Mas logo vou postar a historia de um ruandense que conheci esses dias — um cara incrivel.
      Volte sempre!

  4. João ,adoro o Kapuscinski muito………….
    abraços sonia

  5. Já tô procurando o livro no estante virtual para comprar…

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