Kapoeta

30/04/2009

Só para dar um gostinho de Kapoeta, no sul do Sudão:

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Sob o sol de Juba

29/04/2009

Juba é quente.

Antes de aterrisar na cidade, o piloto disse que lá faziam 36ºC.

Desde então, não tive acesso a outras medições, mas duvido que em qualquer momento, mesmo à noite, a temperatura tenha baixado para menos de 28ºC, 29ºC.

Quando cheguei ao meu hotel (na verdade um amontoado de contêineres, cada um com quarto e banheiro embutidos), estava atordoado pelo calor.

A recepcionista, acostumada que deve estar com estrangeiros desorientados e encharcados de suor pisando em Juba pela primeira vez, me entregou a chave do quarto e disse: “you go take a shower now!”

Obedeci. E até deixar a cidade, ontem à tarde, tomaria pelo menos quatro banhos frios por dia — um deles durante a madrugada, para conseguir voltar a dormir.

O calor de Juba distorce a nossa percepção do tempo e do espaço. Enquanto estive lá, sempre fiz os mesmos caminhos: do hotel ao mercado, do mercado ao restaurante, do restaurante ao hotel.

Mas dependendo da hora do dia, eles pareciam mais longos ou mais curtos — e a diferença era sensível.

Em alguns momentos, nem sequer os reconhecia e me sentia perdido.

Se então pedia ajuda a alguém que encontrasse na rua, ouvia como resposta resmungos indecifráveis.

Não que não me entendessem: eu fazia as perguntas em inglês, e a maioria das pessoas em Juba entende inglês — no Sudão, mesmo no sul, a língua mais falada é o árabe; o inglês era a língua dos colonizadores.

Mas todos pareciam anestesiados pelo calor, incapazes de me dar atenção.

Parte desse comportamento, acredito, também tem a ver com o fim recente da guerra por aqui.

Muitos dos homens com quem cruzava no meu caminho lutaram durante a guerra. Muitos passaram dez, vinte anos escondidos nas matas, atacando de surpresa acampamentos militares dos “árabes — como os sudaneses do sul se referem aos do norte.

Faz só três anos que esses homens vivem em cidades e levam uma vida de civil, livres da ameaça permanente de serem atacados e mortos.

É compreensível, portanto, que ao longo de tantos anos esses homens tenham embrutecido e, hoje, não saibam como reagir se interpelados na rua por um estranho que pede informações em inglês.

Uma das coisas que mais me chocaram quando fui morar em Luanda (Angola) era a multidão de ex-combatentes pelas ruas. Após o fim da guerra, em 2002, a maior parte dos soldados angolanos foi desmobilizada.

Sem qualquer qualificação profissional e desumanizados por tantos anos de conflito, não restava a esses homens outra opção que não trabalhar como seguranças particulares.

Em Luanda, eles estão em todas as esquinas, cochilando em cadeiras de plástico. Recebem uma refeição por dia e cumprem turnos de até 72 horas. Em troca disso, ganham não mais que 100 dólares por mês. Muitos estão permanentemente embriagados; outros, à beira da loucura.

Como em Angola, os ex-soldados sudaneses dificilmente se adaptam a outras atividades. E eles não são os únicos: em geral, mesmo em Juba, é raro ver sudaneses (homens ou mulheres) empregados em hotéis, restaurantes ou mercados — quase todas as vagas no setor de serviços são ocupadas por quenianos ou ugandenses.

Curiosamente, a queixa dos patrões (nascidos no Sudão ou não) em relação aos seus funcionários sudaneses é a mesma que cansei de ouvir em Angola de patrões (nascidos em Angola ou não) sobre os seus funcionários angolanos: eles são preguiçosos, ou eles só querem ser funcionários públicos, ou se pegam qualquer resfriado ou se alguém da família morre, faltam vários dias….

O que reforça a minha crença de que, pior que a destruição física causada por uma guerra, é a desestruturação social que ela acarreta, da qual a desvalorização do trabalho é apenas um sintoma.

“Depois da paz, os sudaneses só querem saber de empregos em ministérios…”, me disse um sudandês dono de um hotel.

Eu fui espiar esses ministérios: erguidos com material pré-fabricado, todos cheiram a tinta fresca, de tão novos — foram construídos há três anos, desde que, com o acordo de paz, o sul do Sudão conquistou certa autonomia administrativa.

Sob o sol escaldante e junto com os hotéis-contêineres e os precários barracos empoeirados montados por toda a cidade, esses ministérios pré-fabricados dão a Juba o ar de um acampamento no deserto, prestes a ser desfeito.

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A chegada a Juba

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O exército de 4X4s

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O centro comercial

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As placas das ONGs (à esquerda, um caminhão militar)

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Barracos no centro da cidade

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Os Ronaldos

Quem entra no sul do Sudão de avião já começa a ter uma ideia do que aconteceu com essa região nas últimas décadas.

Ainda que não haja nenhuma barreira natural que separe o Sudão de Uganda, percebe-se que a fronteira foi atravessada quando as numerosas vilas às margens das estradas do lado ugandense dão lugar a imensos campos despovoados e sem vida.

Maior país da África, o Sudão também abrigou (e ainda abriga, principalmente no caso de Darfur, no oeste) alguns dos mais sangrentos conflitos armados do continente.

O maior deles, uma guerra civil entre o sul e o norte do país, durou 21 anos e só terminou em 2005. Estima-se que 2 milhões de pessoas tenham morrido no conflito (como será que essas contas são feitas?).

A disputa era movida por antigas rivalidades entre os povos das duas regiões (o norte é majoritariamente árabe e muçulmano; o sul, negro e com grande presença de cristãos), bem como por rachas e conflitos tribais internos –especialmente no sul–, e pela disputa por riquezas naturais – leia-se petróleo.

Após o acordo de paz assinado em 2005, o sul conquistou uma certa autonomia administrativa e, em 2011, decidirá num referendo se irá se separar do resto do país.

Isso se o referendo realmente ocorrer, já que há quem acredite que o governo central, em Cartum, o adiará indefinidamente por não abrir mão das receitas advindas dos campos petrolíferos do sul.

A cidade de Juba, onde estou, tem 300 mil habitantes, é o centro administrativo da região e a base da maior parte das ONGs engajadas na reconstrução do sul do Sudão.

Aqui, quem põe os pés na rua inevitavelmente se depara com filas e mais filas de jipes 4X4 brancos, os veículos usados por todas essas ONGs para o deslocamento do seu pessoal. Enquanto fotografava a cidade, era quase impossível fazer com que esses carros não se intrometessem nas imagens.

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Vi jipes e placas de ONGs americanas, canadenses, norueguesas, belgas, suecas, irlandesas, italianas, alemãs, japonesas… pense num país desenvolvido qualquer, e certamente haverá pelo menos uma ONG o representando em Juba.

Tão numerosos quanto os jipes dessas ONGs são os usados pelos mais variados programas e agências da ONU que aqui operam (UNICEF, FAO, UNESCO, UNHCR, UNDP – haja siglas!).

Ainda que seja reconfortante saber que há milhares de estrangeiros empenhados em ajudar uma região tão necessitada, a presença dessas ONGs todas expõe a fragilidade do sul do Sudão e o quão difícil será o seu caminho daqui para frente.

Desde março, na província de Jonglei (a uns 300 km ao norte de onde estou), pelo menos 700 pessoas de uma tribo foram mortas por uma tribo rival, que a acusa de ter roubado o seu gado.

Sim, 700 pessoas foram mortas em retaliação pelo suposto roubo de alguns bois – e esse tipo de ação não é nenhuma novidade.

Num dos ataques mais recentes, na semana passada, dezenas de crianças morreram afogadas enquanto tentavam fugir atravessando um rio – caso não fugissem, provavelmente teriam sido raptadas pelos invadores.

Isso para dizer que, ainda que formalmente o sul do Sudão esteja em paz, as suas instituições são muito fracas para garanti-la de fato – a segurança de muitas zonas, aliás, ainda está a cargo dos capacetes azuis, os soldados da ONU.

Em muitos aspectos, Juba lembra Luanda, a capital de Angola, país que também saiu de uma guerra civil há pouco tempo (2002).

Como em Luanda, os sinais da guerra em Juba estão por todos os lados, embora não sejam tão óbvios: as enormes quantidades de lixo espalhado pela cidade, as favelas erguidas mesmo na região central (por gente que fugia do conflito no interior), o ronco incessante dos geradores (pois a rede elétrica não dá conta de abastecê-la) e as ruas esburacadas e sem asfalto, onde carcaças de carros e ônibus apodrecem.

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Tudo isso eco de um passado recente, quando, diante de uma guerra em curso, mesmo serviços públicos básicos inexistiam.

E assim como Luanda, que após o fim da guerra assistiu a uma enxurrada de estrangeiros, Juba sofre os efeitos dessa enorme população que veio acorrê-la nos últimos anos: faltam hotéis para hospedá-la (a saída é pagar até 150 dólares para passar a noite numa barraca ou num contêiner), e tudo é caríssimo.

Devo ficar alguns dias na cidade, antes de pegar uma estrada que me levará ao Quênia.

Isso se, até lá, o meu dinheiro todo não acabar.

Daqui a algumas horas, estarei em Juba, no sul do Sudão.

Queria ir por terra, atravessando o norte de Uganda, mas soube que, do lado sudanês, a estrada está inerditada (parece que uma ponte caiu recentemente por causa das fortes chuvas – estamos na época delas).

Então vou num avião pequeno, da Air Uganda.

Espero voltar a escrever aqui logo.

O rio

24/04/2009

Estão vendo este rio aí embaixo?

 

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É o Nilo.

Estou em Jinja (Uganda), a cidade onde ele nasce – ou melhor, onde ele começa o seu curso, já que a fonte que o alimenta é o lago Vitória.

Até chegar a Cartum, a capital do Sudão, o rio recebe o nome de Nilo Branco. Lá, encontra-se com o Nilo Azul, vindo da Etiópia, e passa a se chamar apenas Nilo – é este que cruzará lentamente todo o Egito, até desaguar no Mediterrâneo.

De agora em diante, ele me acompanhará durante boa parte do meu caminho.

Muito prazer.

A economia nua

23/04/2009

Continuo apanhando da minha câmera. Outra vez ela foi infectada por um vírus que impede que eu passe as fotos mais recentes para o computador.

Sem problemas. Até resolver isso, vou contando histórias que não tive tempo de contar antes.

Esta é sobre Moçambique.

Em março, atravessei o país do extremo sul ao extremo norte.

Lá, assim como em quase todos os países africanos, a maior parte da população ainda vive no campo.

Passei por vilas que ficavam a pelo menos 300, 400 km da cidade mais próxima.

Nas regiões mais isoladas, durante o período seco, tem de se pedalar por horas até se encontrar água.

Em muitas dessas vilas, não há escolas, e as aulas são dadas embaixo de árvores frondosas.

Come-se o que se planta e, se sobra algo, vende-se à beira da estrada para quem estiver passando.

Se se consegue algum dinheiro, compra-se sabão ou sal. Caso contrário, fica-se sem.

Por isso, quando um ônibus passa por essas vilas, os vendedores tentam com todas as forças convencer os passageiros a comprar o que têm às mãos (um punhado de amendoim, espigas de milho, mandioca, ovos cozidos, frutas – nada à venda é supérfluo).

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A concorrência é grande, então é preciso correr quando o ônibus chega para posicionar-se junto ao veículo.

Em algumas vilas onde o fluxo de viajantes é maior (e também a oferta de produtos), para alcançar as janelas dos ônibus e caminhões mais altos, os vendedores prendem as suas mercadorias em pedaços de pau.

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O que mais me impressiona nessas vilas é que, lá, é possível enxergar com clareza cada etapa da atividade econômica que as sustenta.

Batido, o milho que cresce ao lado das casas de barro se transforma em farinha.

Essa farinha é misturada com água fervida em fornos de carvão, por sua vez gerado a partir da queima da madeira em fornos de barro.

O resultado é uma massa consistente que, acompanhada por alguma erva silvestre, ou por uma galinha que há pouco ciscava entre as casas, ou por um peixe pescado no riacho mais próximo, transforma-se em refeição.

O processo todo está às claras.

Para essas pessoas, nada importam a cotação do dólar, a oscilação das bolsas mundiais ou a política do Obama para o continente africano.

O que as preocupa, sim, é se choverá o suficiente (mas não em excesso) após o plantio e se não haverá pragas na lavoura.

Em tempos de uma crise econômica mundial causada pela multiplicação desenfreada de complexos ativos financeiros, a economia dessas vilas nos traz de volta à realidade.

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Nos anos 60, quando Mr. Brown trabalhava como marceneiro na Inglaterra, onde nasceu, viu no jornal que a Cruz Vermelha estava recrutando voluntários para atuarem como enfermeiros na Nigéria, então arrasada por uma guerra civil.

 

“Sentia que a vida que eu levava não estava me preenchendo. Então eu fui”, ele conta.

 

Em poucos meses, viu dezenas de crianças morrerem nos seus braços e pegou malária sete vezes. “Mas também salvamos muitas vidas, e essa é a maior recompensa que algém pode ter.”

 

Quando a missão acabou, voltou para a Inglaterra e, alguns anos depois, mudou-se com a mulher e os quatro filhos para o Canadá.

 

Comprou um pedaço de terra e começou a cultivá-lo – na Inglaterra, ele crescera no campo e trabalhara vários anos na lavoura.

 

Poucos anos depois, separou-se da mulher e perdeu o filho mais jovem num acidente de carro.

 

As lembranças da África o fariam voltar para lá nos anos 80, desta vez para trabalhar numa construtora no Quênia.

 

Lá, uma grave crise de úlcera o fez ser internado às pressas. A enfermeira que o tratou, uma jovem viúva mãe de dois meninos, chamou a sua atenção.

 

Quando teve alta, começaram a se encontrar e, em dois anos, os quatro se mudariam para o Canadá – Mr. Brown adotou os dois meninos como seus filhos.

 

Mas a relação com a sua mulher foi se desgastando, e, depois de cinco anos, os dois se separaram.

 

Com todos os filhos crescidos (os do primeiro casamento já estavam casados; os do segundo, na universidade), nada mais prendia Mr. Brown ao Canadá.

 

Foi então que, em 1998, teve outra chance de voltar à África. Um amigo missionário o convidara para ir ao Maláui, um dos países mais pobres do mundo, para ajudar em trabalhos comunitários.

 

Desde então, nunca mais saiu do continente.

 

Quando o conheci à bordo do cargueiro Umoja, onde ambos pegávamos uma carona para atravessar o lago Vitória da Tanzânia a Uganda, ele quis saber que países eu ainda pretendia visitar no resto da minha jornada pela África.

 

Disse que o Quênia, a Etiópia, o Egito e o Sudão – “se bem que não sei se conseguirei o visto para este…”, acrescentei, como costumo fazer sempre que cito o Sudão.

 

“Você quer ir para o Sudão??”, ele perguntou.

 

“Sim”, respondi, esperando que ele fosse me desencorajar.

 

“Então eu posso ajudá-lo! Estive lá duas vezes no ano passado, sou amigo do pessoal da embaixada!”

 

Fiquei impressionado. O que um homem daquela idade foi fazer num dos países mais perigosos do mundo?

 

Pois ele foi tentar ajudar as pessoas nos campos de refugiados no sul do país a retornar às suas terras, a reconstruir as suas casas e a voltar a plantar. Mas não deu certo.

 

“As pessoas lá perderam completamente a esperança, estão desoladas, e me parece que as próprias ONGs que as ajudam se acomodaram ou não têm interesse em que elas voltem para as suas terras. É uma pena: o solo lá é dos melhores – preto, fértil, fundo”.

 

“E o sr. não teve medo, não se sentiu ameaçado por lá?”

 

“Jamais me senti ameaçado neste continente – e eu vou a qualquer lugar. Você têm de ter mais de 70 aos para viajar pela África”, ele diz, entre risos.

 

“Nunca foi roubado?”

 

“Uma vez, quatro homens armados entraram de madrugada na minha casa no Maláui – a minha porta sempre fica aberta. Eles chegaram gritando, perguntando onde estava o dinheiro. De repente, um deles diz para os outros: ‘eu conheço esse homem, ele vai lá na prisão discutir a Bíblia…’ Eles levaram algum dinheiro, mas nunca mais tive problemas.”

 

Os problemas que Mr. Brown enfrenta no Maláui são de outra ordem: faz três anos que ele tenta convencer os camponeses da vila onde mora a adotarem a agricultura orgânica – segundo ele, a única forma de recuperar a produtividade daquelas terras.

 

Nas últimas décadas, a população do Maláui se multiplicou, e as terras foram progressivamente empobrecendo por causa das constantes queimadas e do mau uso de fertilizantes.

 

Hoje, o solo está ácido, as colheitas são pobres e não há mais terras virgens disponíveis.

 

Falta comida, as pessoas estão desesperadas, mas pouquíssimos se mostram interessados em adotar a agricultura orgânica – que recuperaria o solo praticamente sem gastos, mas que exige procedimentos com que os camponeses não estão habituados e não estão dispostos a aprender.

 

Lá, assim como no Sudão, disse-me o Mr. Brown, as pessoas perderam a esperança – nos últimos anos, só quatro famílias aderiram à técnica.

 

Ainda assim, ele não perdeu a esperança. “Às vezes me desanimo, mas sinto que certos fracassos são importantes para que não fiquemos superconfiantes e trabalhemos sempre com a maior dedicação”, ele diz.

 

A sua fé também o ajuda a não desistir das suas causas. Criado numa família anglicana, teve uma sólida formação espiritual e é um grande estudioso da Bíblia – ainda que não siga nenhuma religião.

 

A caminho de Kampala, Mr. Brown estava animado porque, depois de longos meses só de conversas frustradas com camponeses, voltaria a pôr a mão na massa, para construir uma escola para crianças deficientes num bairro pobre da cidade (Kamwokya).

 

“Eu me sinto bem quando estou envolvido num trabalho manual. Apesar da minha idade [78 anos], o meu corpo está bom. Só a cabeça que começa a falhar”, ele disse.

 

À noite, quando a tripulação do Umoja se preparava para deitar, eu o vi sentado no refeitório, com um grande caderno à frente. Ele ficou horas ali, concentrado, escrevendo sem parar – depois me explicou que faz aquilo todas as noites, num exercício contra a perda da memória.

 

Alguns dias depois, eu percebi que o Mr. Brown sofria fazendo algumas contas num papel – ele estava contabilizando os seus gastos do dia, como sempre faz, mas as contas não fechavam. Após algumas operações, ele perdia o fio da meada e tinha de recomeçar tudo do zero.

 

Então pediu a minha ajuda, e quando as contas finalmente fecharam, foi como se tivesse se livrado de um grande peso.

 

Depois do jantar, quando acabáramos de nos deitar no minúsculo quarto que dividimos em Kamwokya, ele me diria: “Sabe, João, envelhecer é duro… Mas é algo que você simplesmente tem de enfrentar.”

 

Enquanto estive em sua companhia em Kampala, Mr. Brown parecia feliz.

 

Como a construção da escola ainda não começara, já que ele esperava a adesão de alguns voluntários da comunidade – condição essencial para que cuidem dela quando ele for embora, conforme aprendeu –, Mr. Brown passava o dia conversando com alguns dos 15 jovens que ele ajuda pagando as mensalidades das suas escolas (em Uganda, até o ensino público é pago).

 

Mesmo à distância, Mr. Brown acompanha os jovens para ver se estão fazendo progressos e, quando há qualquer problema com algum, quebra a cabeça buscando soluções.

 

Nos últimos dias, a maior preocupação era Michael, um garoto de oito anos cuja doença nenhum médico conseguira diagnosticar (ele não fala, não responde a estímulos e costuma sumir de casa). Nas últimas semanas, Michael começara a urinar em si mesmo, e ninguém mais sabia o que fazer.

 

Mr. Brown seguia firme. Marcou novas consultas para o menino e teve uma longa conversa com os seus pais.

 

Sempre me lembrarei da tarde em que chegamos juntos a Kamwokya. Enquanto descíamos uma rua estreita de terra, com precárias casas de barro dos dois lados, uma menina de uns 8 anos veio correndo em nossa direção.

 

Ela saltou nos braços do Mr. Brown, que chorava. “Rachel, Rachel…Senti a sua falta…”

                                                                                       

No Umoja, ele já havia me falado de Rachel, a sua “favorita”. Na sua primeira visita a Kamwokya, há dois anos, encontrou uma menina muito magra e toda suja, acocorada sobre um monte de lixo.

 

Quando se aproximou, ela o encarou fixamente por longos segundos. Depois, sem dizer nada, agarrou-se ao seu pescoço e o abraçou com força.

 

“Ninguém nunca tinha me olhado daquele jeito”, ele me contara.

 

Rachel ouve perfeitamente, mas não consegue falar. Seus pais achavam que a sua deficiência era uma manifestação de feitiçaria e que, se cuidassem dela, teriam outros filhos deficientes. Então deixavam-na largada pelas ruas, como se fosse um cão vira-lata.

 

Mr. Brown convenceu os pais dela a acolherem-na, matriculou-a numa escola e comprou-lhe novas roupas. Hoje, Rachel parece uma menina normal.

 

Depois de abraçá-la, ainda emocionado, ele me disse: “é por coisas assim que sempre que me perguntam quando vou voltar para o Canadá, respondo: nunca!”.

 

Quando me despedi dele, ontem à noite, entreguei-lhe a foto acima,  com a sua “favorita”, dentro de um porta-retrato. Acho que ele gostou.

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Como esse, há vários outros parques espalhados pela cidade – até um campo de golfe!

Mr. Brown, o senhor que conheci durante a travessia do lago Vitória, me convidou para visitar o maior presídio de Uganda – o Luzira, na cidade de Kampala.

Lá, todos os sábados um grupo de presos se reúne para discutir passagens da Bíblia – foi o próprio Mr. Brown quem montou o grupo, há alguns meses.

“Mas não são simples discussões”, me diria ele quando mencionou o assunto pela primeira vez, ainda à bordo do Umoja.

“Há presos com um nível intelectual altíssimo. Às vezes, eu participo das discussões, mas outras, fico quieto, só ouvindo. Você verá”.

Depois de facilmente conseguir uma autorização para entrar no presídio (a única condição era que eu não levasse a minha câmera), fui conferir a última sessão do grupo, hoje à tarde.

No alto de uma colina com vista para o lago Vitória, o Luzira não tem muros nem grades. O presídio está separado do resto da cidade por apenas uma baixa cerca de arame – ainda assim, as fugas são raríssimas.

Os presos dormem em casas rodeadas por um impecável jardim, cheio de flores, gramados e pomares.  

Sem passarmos por qualquer tipo de revista (somente deixei o meu celular com um guarda ao portão), entramos no presídio por volta do meio-dia e descemos uma escaradaria onde vários detentos conversavam sentados – alguns trajavam um uniforme amarelo; outros, roupas comuns.

Todos nos cumprimentavam amigavelmente.

Ao pé da escadaria, ficava a igreja onde ocorreria a reunião – um salão comprido e arejado, onde os presos espalham tapetes sobre os quais se sentam em círculo.

Uns dez homens vieram nos receber — “Mr. Brown!”, eles diziam, abraçando-o com força; eu recebia longos apertos de mão.

Nós dois nos sentamos em confortáveis cadeiras enquanto, conduzidos pelas batidas de três tambores, aqueles homens começaram a cantar e a dançar efusivamente, convocando os outros presos para a discussão que logo começaria.

Aos poucos, o salão foi enchendo.

Quando mais de 40 presos haviam se unido ao grupo, um deles leu a passagem que seria discutida – e que fora escolhida na reunião anterior, uma semana atrás, de modo que todos tivessem tempo de estudá-la.

O trecho tratava de um assunto espinhoso: o incesto.

O rapaz lia em luganda – língua da região de Kampala—e era traduzido simultaneamente por outro preso para o inglês, o idioma dos antigos colonizadores e que é falado, como segunda língua, mais ou menos em todo o país (mais adiante, outros presos fariam comentários em outras línguas e também seriam traduzidos para o inglês).

Logo de saída, enquanto o rapaz ainda lia o trecho, um dos participantes pediu a palavra para apontar o que considerava um erro de tradução daquela passagem na versão da Bíblia em luganda.

Outro preso interveio para dizer que não se tratava de um erro de tradução, mas sim de uma contradição.

A ideia ganhou o apoio de alguns, mas foi rejeitada pela grande maioria, que defendeu não haver qualquer contradição na Bíblia, pois isso poria em xeque a Verdade revelada pelo Livro Sagrado e, por conseguinte, derrubaria os pilares do Cristianismo.  

Do meu lado, Mr. Brown – que até então só fizera duas colocações pontuais na discussão – me cutucou: “viu só como eles estão atentos ao que lêem? É isso o que mais falta nas igrejas hoje em dia…”

A questão preliminar foi rapidamente superada, e iniciaram-se as discussões centrais.  

Deus realmente proíbe o incesto? Se sim, por que a Bíblia não o condena na passagem que acabara de ser lida?

A partir dessa questão, são evocadas outras: qual a verdadeira posição do Livro Sagrado sobre a poligamia? Segundo a Bíblia, um homem pode “herdar” a mulher do irmão se este morer – como é o costume em muitos lugares da África?

Para defender uma ou outra ideia (e não havia opinião unânime sobre nenhuma das questões acima), os participantes elencavam intrincados argumentos.

Eram ouvidos atentamente e, depois que encerravam a sua exposição, recebiam o apoio (parcial ou total) ou a rejeição (parcial ou total) de outros presos.

Cada um, lembre-se, expunha as suas opiniões numa língua enquanto era traduzido para outra.

 “Meu Deus!”, pensei – e acho que a ocasião era apropriada para evocá-lo.

Essas pessoas estão conduzindo uma discussão nas condições mais difíceis possíveis – cada um fala uma língua, os assuntos são polêmicos, há as falhas de tradução da Bíblia e há as falhas de tradução do que falam. E no entanto uns ouvem atentamente os outros e a discussão evolui! Como se esforçam para que se entendam – e que esforço hercúleo!   

No único momento em que a discussão parecia ter empacado numa disputa retórica, Mr. Brown pediu a palavra e citou o apóstolo Paulo, “que nos ensinou que um debate jamais deve centrar-se em si mesmo, ou perde a razão de ser”.

A ideia foi defendida por um homem baixo de uns 45 anos, que em seguida fez um discurso brilhante.

Sintetizou todas as questões levantadas pela discussão, citou uma passagem do Velho Testamento e, concluindo, expôs as suas visões sobre as questões abordadas.

Ao fim da sua fala, o líder do grupo (um homem conhecido por “pastor Andrew”, preso em Luzira há dez anos) encerrou a sessão, após duas horas de intensos debates. Antes, indicou a passagem que seria discutida na semana seguinte.

Despedimo-nos daqueles homens e deixamos o Luzira.

No caminho para casa, Mr. Brown me pergunta: “E então? Você sente que acabou de sair de um presídio?”