Dúvida existencial

30/03/2009

Observado pela recepcionista do albergue em Mtwara, preenchia com as minhas informações o livro dos hóspedes, para que ela pudesse me entregar a chave do meu quarto.

Nome, país de origem, motivo da viagem, documento de identificação, data de expedição, endereço residencial… Escrevia automaticamente, quase sem pensar, tão habituado que fiquei a esse procedimento.

Até que me deparei com uma categoria que jamais havia visto em qualquer outro livro de hóspedes: tribo.

Fiquei absolutamente sem reação.

Não poderia escrever brasileiro, pois, além de imprecisa, essa já era a minha resposta para a categoria nacionalidade.

Lembrei-me dos meus bisavós italianos, e por um instante pensei que talvez eu pudesse preencher o espaço com Calábria, ou ainda Tirol.

Mas aquelas eram as regiões da Itália de onde eles vieram, e não as suas tribos. Ademais, eles estavam muito distantes na minha linha genealógica, e, bom brasileiro que sou, houve muita mistura até que se chegasse a mim.

Pensei então em deixar aquele item em branco. No entanto, todos os cerca de vinte hospedes que naquele dia já haviam preenchido o livro tinham respondido a questão.

Li, assim, que um hóspede do Zimbábue era da tribo Ndebele; outro, queniano, era da tribo Kikuyu; já a grande maioria, proveniente da própria Tanzânia, era ou da tribo Makonde, ou da tribo Sukuma.

A recepcionista, impaciente com a minha demora em preencher aquele espaço, olhava para mim como que pensando: “Que raios de homem é este que não sabe nem o nome da sua tribo?”

Foi então que, como que iluminado por uma inspiração divina, segurei firme a caneta e, com inabalável convicção, escrevi: tupi-guarani.

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15 Respostas to “Dúvida existencial”

  1. Umberto said

    Perfeito! Muito bom mesmo :D

  2. Mara said

    Genial! Oportunidade rara… Adorando a viagem! Um abraço.

  3. m.Jo said

    rs….
    :)
    :)
    :)
    Ótima resposta.

  4. Paulino said

    Amigo João, esse post entra para a história, ahahaaha
    Fico imaginando o seu bico num momento como esses, ahaahaha
    responder tupi-guarani foi genial, os quatrocentões de higienópolis nunca vão te perdoar.
    boa viagem, paulino

  5. essa foi ótima João ,jamais imaginaria isso!!!!!!!!!
    mas boa idéia essa,já sei o que responder!!!!!!!!!

  6. juborges said

    hahahahha
    adorei.
    Aqui na China Brasil eu respondo que sou do bá xi.

  7. juliana said

    Nossa Joao….
    Eu estou vivendo aqui na Africa do Sul..e tambem varias vezes fico pasma…no trem eu ouco mais de 3 dialetos diferentes…vejo dancas e culturas tribais distantas o tempo todo…
    E ja tive essa mesma pergunta…de que tribo eu sou..com certeza quando voltar ao Brasil irei fazer uma pesquisa das minhas origens…
    Mas com certeza sou parte tupi guarani…
    me conta com foi sua viajem em mocambique…pode me escrever no julianacortez@uol.com.br. Estarei la de 7 a 20 de maio…..e queria saber os melhores lugares apra visitar…

    Obrigada abracos e boa viajem

  8. menino said

    humor fino. humor inteligente.

  9. clayton said

    Muito bom, joão

  10. Guta Cunha said

    Oi! Fiquei sabendo do seu blog pela Mayra e adorei!
    Esse post está muito bom!
    Tb tenho um blog de viagem (http://vamboravambora.wordpress.com) e gostei tanto do seu post que vou colocar lá! Mais gente tem que saber dessa historia! Espero que não tenha problema!:-)
    Qualquer coisa é só falar!
    Vou continuar acompanhando a sua viagem! Bem legal!
    bjus

    • João Fellet said

      Oi, Guta. Claro que nao tem nenhum problema em por a historia la no seu blog — por sinal, muito legal, parabens.
      Volte sempre!
      bjs

  11. Vitória said

    João, este foi o melhor POST, adorei, você vai chegar no Brasil com milões de histórias para contar, mas como eu já disse, de todas que eu li até agora, a melhor foi a do ‘TUPI-GUARANI’. hahahahaha.
    Beijos, te amo
    Victória.

  12. Paulo Coutinho said

    Não dá pra acrescentar nada aqui..yodos já falaram tudo!..mas que vc tirou essa do tupi-guarani do fundo-do-baú…isso vc tirou!

  13. […] famílias Harari aceitem que as suas filhas se casem com homens de outras tribos – e assim eu, um tupi-guarani,  me senti hornado com a […]

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