T.*, traficante internacional de drogas

30/03/2009

Não vou atrás das pessoas sobre quem aqui escrevo.

Elas simplesmente aparecem na minha frente, cruzam o meu caminho. Nos cumprimentamos, trocamos algumas palavras, e quando vejo já estamos conversando como velhos amigos.

Foi assim com o Horácio. Foi assim com a Sakina. E foi assim com o T.

Conheci-o enquanto almoçava num restaurante em Mtwara, sul da Tanzânia.

Ele estava sentado com dois amigos numa mesa ao ar livre e, como começou a chover, perguntou se os três poderiam se sentar na minha mesa, que tinha algumas cadeiras vagas e ficava numa área encoberta.

Claro que poderiam.

T. era o único que falava inglês, mas isso já me deixou bastante animado. Em Mtwara, quase todos só falam suaíli, língua de raízes bantu com fortes influências do árabe – logo, completamente incompreensível para mim.

Disse-lhe que era bom dividir a mesa com alguém que falasse inglês, e ele me perguntou de onde eu era.

Vi que seus olhos brilharam com a resposta.

Depois, prontificou-se a me ensinar algumas palavras em suaíli, para que eu não dependesse do inglês para me comunicar na Tanzânia.

Então lhe entreguei o bloco de notas que carrego a tiracolo, e ele começou a escrever as palavras que em suaíli correspondem a olá, obrigado, onde fica, quanto custa etc.

Quando me devolveu o caderno, apontou para a segunte frase em inglês que havia escrito logo abaixo da lista de palavras:

How can I buy heroin and cocaine from Brazil?”

Li em voz alta e, para me certificar de que ele realmente quisera dizer aquilo, perguntei-lhe, enfatizando cada palavra: “cocaine and heroin?”

Claro que era aquilo.

T. ouvira falar que o Brasil era um grande exportador de drogas e queria saber se eu tinha alguns contatos. Ele não estava interessado em consumi-las, segundo me disse, mas sim em revendê-las na Europa.

– Você já fez isso antes?, quis saber.

Ele riu alto: “Claro!”

E começou a me contar os pormenores do seu negócio.

– Itália, França, Espanha, Irã! Ótimos mercados!

– Mas você não tem medo de ser pego, de morrer?

– O que você prefere: morrer de doenças ou morrer lutando? Morrer pobre ou morrer rico? Eu prefiro morrer rico e lutando

Parecia que ele era um ator e tinha ensaiado a vida inteira aquelas frases.

– Você nunca foi preso?, prossegui.

– Sim, duas vezes. Três anos na Itália. Dois anos na França.

– E não desistiu?

– Eu era muito jovem naquela época. Agora estou com 33 anos, sou um profissional. Polícia nenhuma me pega mais.

– Tem certeza? O seu trabalho é muito perigoso…

– Meu trabalho é como qualquer outro — como o de um eletricista, por exemplo. Se um eletricista se descuida, também pode morrer.

– Onde você compra as drogas?

– Rússia e Afeganistão.

– Afeganistão? Mas o país não está em guerra??, espantei-me.

– E que país no mundo não está em guerra? A Tanzânia está. Os Estados Unidos estão. O Brasil também, eu vi na televisão.

Continuava admirado com as respostas que ele me dava. Poucos roteiristas conseguiriam criar falas tão originais, pensei. Fui adiante com a minha entrevista:

– Como você transporta a droga?

– No estômago. Quando chego no meu destino, tomo muito iogurte. Ela sai bem rápido! – e fez um ágil movimento com as mãos, como que reforçando a última frase.

Eu o alerto:

– No Brasil é perigoso. Lá a polícia mata. E você pode ser preso no aeroporto, ficar uns 15 anos na cadeia.

– Ninguém vai me pegar. Tenho vários passaportes. Só viajo de terno, na primeira classe. Ninguém desconfia. E só lido com pessoas em quem posso confiar. Por isso que estou falando sobre isso com você.

– Eu? E como sabe que sou confiável?

– Eu simplesmente sei [I just know]. Estou há muitos anos no negócio. Sou muito respeitado em Cabul, sabia? Quando chego lá, sou tratado como um rei. Eu pago bem os meus fornecedores. Também lhe pagarei muito bem se me ajudar. Pense na minha proposta.

– Pensarei – e tentei parecer convincente, já que achei que seria imprudente zombar de um traficante internacional de drogas.

Quando terminei o meu almoço e me despedi dos três rapazes sentados à minha mesa, T. pediu outra vez o meu bloco de notas.

“Este é o meu e-mail”, ele disse enquanto escrevia. “Me mande uma mensagem. Vamos fazer bons negócios. Você não se arrependerá”.

* Nome omitido após apelos maternos.

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10 Respostas to “T.*, traficante internacional de drogas”

  1. Ze Maia said

    sera que nao seria prudente voce apagar imediatamente esse post? (mas nao me esquece de passar o telefone do gajo antes…)

  2. menino said

    tem uns caras da eca que devem ter uns contatos. ô, certeza.

  3. paula said

    fala pra ele entrar em contacto com o beiramar…

  4. Mara said

    Ainda sobrou um nomezinho explícito aí no texto, pra desespero da mami… História surpreendente! Vai em frente!

  5. gabriela said

    hahaha… imagino o desespero da mamae!

  6. Andre Ruiz said

    Ola Joao,

    Estou fazendo um trabalho para a escola sobre Trafico Internacional, Beneficios e Prejuizos da Legalizacao das Drogas e seu Efeito na Comunidade e gostaria de comunicar-me com T, talvez ele poderia ajudar-me com uma entrevista? Por favor passe meu contacto a ele. Obrigado.

    Andre

    • João Fellet said

      Andre, não tenho mais o contato do T… De qualquer forma, acho que ele se recusaria a dar uma entrevista — ele me contou aquilo tudo sem saber que eu era jornalista.
      Abraços

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