Através da fronteira com a Tanzânia

29/03/2009

mapa

Estou em Mtwara, na Tanzânia.

Não planejava vir para cá já. Mas eu estava muito perto da fronteira, e atravessar fronteiras é sempre uma tentação tão grande quando eu viajo, que não resisti e vim.

Assim, inverto o meu roteiro: passo primeiro por aqui e, em seguida, vou à Zambia e ao Zimbábue, para depois voltar a subir.

A travessia foi uma aventura e começou à 1h30 da manhã de hoje, quando acordei com batidas na porta do meu quarto:

­- Amigo! Borda, borda!

Sonolento, abri a porta:

­- O quê?

­- Vamos para a borda!

­- Borda?

­- Ya, para a borda, fronteira!

(Mais uma palavra para o dicionário de portunglês: borda, que vem de border).

-­ Mas agora? Não são nem duas da manhã… Ontem vocês me disseram que sairíamos às 3h.

-­ Ya, mas tem que ser agora. Sorry lá, pá…

Aprontei-me e parti.

Um caminhão estava à minha espera. Eu, assim como outras 15 pessoas, iria esmagado na carroceria, junto com caixas de cerveja e sacos de arroz.

A noite estava tão clara – em alguns instantes, já tinha visto três estrelas cadentes – que achei viajar daquela maneira poderia ser agradável.

Até que o caminhão partiu por uma terrível estrada de terra. O estado da via não parecia incomodar o motorista, que corria a pelo menos 100 km/h.

Nós, passageiros (?), nos segurávamos como podíamos, levando pancadas de todos os lados a cada buraco vencido.

Para piorar, fazia muito frio, pois na carroceria estávamos expostos a um vento cortante. Nunca torci tanto para que amanhecesse.

Duas horas depois, quando o sol começou a surgir, vi que provavelmente estava no lugar mais selvagem da África em que já havia estado.

As pequenas vilas que cercavam a estrada se tornavam cada vez mais dispersas. A partir de certo ponto, notei que todas as hortas tinham galhos empilhados ao redor.

Aquilo, explicou-me um dos passageiros, era para evitar que fossem destruídas por animais selvagens. E se esses animais forem elefantes?, quis saber. “Aí os galhos não farão a menor diferença”, ele riu.

Quando o dia já estava claro, chegamos ao posto fronteiriço da polícia moçambicana. Na minha vez de mostrar o passaporte ao guarda…

-­ O sr. não tem o carimbo de entrada no país.

Procurei pelo carimbo – e realmente o policial estava certo.

-­ O sr. tem razão. O policial na fronteira deve ter se esquecido…

­- Isso é grave, muito grave. O sr. terá de voltar ao ponto por onde entrou no país e conseguir o carimbo. O sr. entrou pela África do Sul, certo?

Eu sabia que, com essas frases, o que ele queria dizer é: “Caso você não me dê dinheiro, vou segurá-lo aqui por muito tempo”. Mas eu, que já tinha lidado com tipos muito piores em Angola (prometo um texto a respeito), não estava disposto a ceder tão facilmente:

-­ Sr., eu sou jornalista e estou numa missão de trabalho. Vim a Moçambique fazer uma reportagem sobre o desenvolvimento do país. Fiquei muito impressionado com o que vi até agora. Sei que o sr. está desempenhando um papel muito importante e seguirei as suas instruções: se me disser que tenho de voltar à Africa do Sul, voltarei.

Ele não esperava essa resposta. Ficou mudo por alguns instantes e começou a gaguejar:

– Bem, neste caso, eu o ajudarei… Mas há certos problemas burocráticos, o sr. não tem o carimbo de entrada, o que é muito grave… Façamos o seguinte: o sr. pagará uma pequena taxa, e eu o deixarei ir.

Café, ajuda, gasosa (como em Angola o refrigerante é chamado)… já tinha ouvido inúmeros eufemismos para propina, mas taxa era a primeira vez.

– E qual o valor dessa taxa?

– 100 meticais [uns 4 dólares].

Aceitei e, com um ar importante, despedi-me dele. Ao apertar suas mãos, disse-lhe que ele era um profissional exemplar.

Entre orgulhoso e sem jeito, ele agradeceu. “Faço apenas o que está ao meu alcance… “

Depois do posto, a aventura ainda não tinha terminado.

Antes, era preciso cruzar o largo rio Romuva, à bordo de um barquinho de madeira superlotado (com uma mão, o barqueiro conduzia o motor; com a outra, segurava um balde com o qual despejava para fora a água que ia inundando o fundo do barco e já molhava os nossos pés).

“Se isto afundar, para que margem eu nado?”, pensei. Isso se não houvesse crocodilos, claro.

Mas cheguei ao outro lado e cá estou, em Mtwara.

A primeira impressão da Tanzânia é boa: embora eu esteja numa cidade pequena, e hoje seja domingo, o comércio está em ebulição.

No caminho para a lan house em que estou, vi um marceneiro polindo alguns móveis. Fazia muito tempo que não via um marceneiro, e a presença dele me pareceu um sinal de certa prosperidade.

Amanhã, talvez eu vá para Dar es Salaam – uma cidade da qual sei muito pouco, mas que sempre me encantou com o seu nome. Dar es Salaam…

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4 Respostas to “Através da fronteira com a Tanzânia”

  1. Krishna said

    Fala, João. Continuo seguindo com muita admiração tua viagem!

    Abraço,
    Krishna

  2. Pete said

    Taí uma verdade: o nome Dar es Salaam dá vontade de conhecer a cidade.

  3. Mari said

    Quem jogou Carmen San Diego – game de uns 15 anos atrás, rodava em DOS – conhece beeeem Dar es Salaam. :-)

  4. raoni said

    haha, achei esse aqui agora! eu n tinha visto esse post. eu tenho q te contar a minha experienciia. ela foi um pouco mais punk… mas vc tem q postar o prometido das tretas em angola!

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