Como lidar com insetos africanos

27/03/2009

É na África que vivem alguns dos bichos mais incríveis do planeta: elefantes, girafas, hipopótamos, rinocerontes… Foi neste continente, também, que surgiu a espécie humana.

Tanta diversidade tem o seu preço. A vida na África é concorrida, e mesmo os homens ainda hoje travam com os outros animais uma disputa renhida pela sobrevivência.

Nade num riachinho qualquer abaixo do Saara e serão grandes as chances de você virar comida de crocodilo. Ou, quando estiver viajando pelo Quênia ou pela Tanzânia, ouse deixar o carro na estrada para passear no mato – leões, hienas e leopardos certamente estarão à sua espera.

E não pense que nas cidades você estará a salvo. Lá, muito pelo contrário, a competição pode ser ainda mais dura.

Em vez de feras selvagens, porém, você terá de lidar com espécies que apenas – apenas – aparentam menos ameaçadoras: as moscas e os mosquitos.

Sim, porque assim como elefantes, girafas e zebras, África também tem, e estou certo disso, a maior concentração de moscas e mosquitos do planeta.

Nas cidades africanas, são esses insetos os nossos maiores inimigos, e subestimá-los será um grave erro.

Como vivo – e sobrevivo – há mais de um ano na África, e, principalmente, em cidades africanas, aprendi algumas lições que quero compartilhar com vocês. Guardem este texto para quando forem convidados a trabalhar em Lagos, Nairóbi, Luanda ou Dar es Salaam.

Primeiro, às moscas:

As moscas africanas não são como as brasileiras. Ainda que à primeira vista não assustem tanto, já que são mais magras que as nossas, se é que isso é possível em se tratando de moscas, as moscas africanas são, e talvez justamente por causa da sua magreza, muito mais ágeis do que as nossas.

Por isso, quando estiver almoçando e elas cercarem o seu prato, excitadas, não tente afugentá-las.

Sempre que fizer isso, você perderá, e elas vencerão, pois, quando ameaçadas, as moscas africanas voam ainda mais rápido, e você ficará exausto até se dar conta de que elas não irão deixá-lo em paz.

Em vez disso, concentre-se na sua comida – o seu objetivo único deverá ser evitar que elas pousem lá. Se elas pousarem nos seus braços – e elas pousarão –, ou se pousarem no seu prato, mas ao lado da comida, não faça nada.

Sim, é possível que elas se contentem em ficar longos minutos nos seus braços ou na parte vazia do seu prato, e é para isso que você deve torcer.

Nesse caso, tentar espantá-las pode fazer com que elas levantem vôo e, de vingança, acredito, queiram pousar na sua comida. E isso é tudo que você não quer, já que as moscas podem pôr na sua comida os seus ovos, que por sua vez podem parar no seu estômago. E nós não queremos nem imaginar o leque de doenças terríveis que larvinhas de moscas africanas podem causar quando chegam aos nossos estômagos, certo?

Assim, caso as moscas pousem nos seus braços, na sua mesa, ou mesmo no seu prato, desde que não em cima da sua comida, deixe.

Aja somente – e somente! – se elas encostarem na sua comida. Mas tenha o cuidado de espantar apenas a mosca que avançou o sinal, e para isso basta um discreto movimento com os dedos – as outras moscas, já que nunca havera uma só mosca perto do seu prato, devem ficar despreocupadas.

Sobre as moscas, é tudo o que tenho a dizer. Moscas que, embora nocivas e bem maiores que os seus primos mosquitos, se é que eles têm algum grau de parentesco, não chegam nem aos pés dos últimos em termos de periculosidade.

Ah, os mosquitos africanos!

Repelente? Esqueça.

Sprays anti-insetos? Não gaste o seu dinheiro.

Os grandes laboratórios não testaram os seus produtos com mosquitos africanos.

Ou os mosquitos africanos não dão bola para eles, tão famintos que estão – pois, ironicamente, embora a África seja abundante em vida, os animais por aqui estão sempre famintos.

Mas após muitas noites mal dormidas e numerosas ofensivas fracassadas, aprendi algumas técnicas para lidar com os mosquitos africanos.

Sim, lidar, porque vencê-los é impossível.

O que é possível, garanto, desde que seguidas as minhas estratégias, é dificultar a vida deles e, assim, minimizar as chances de contrair alguma doença grave que eles transmitam – e aqui me refiro, sobretudo, à temida malária.

Às estratégias contra os mosquitos, portanto!

Primeiro, é bom dizer que, diferentemente das suas primas moscas, os mosquitos africanos só o importunarão, e emprego um verbo ameno para não assustar tanto, só o importunarão à noite, quando estiver dormindo, ou tentando dormir, o que costuma ser o caso, para o nosso desespero.

Alguns acharão que, para evitar o assédio dos mosquitos à noite, basta dormir dentro de um mosquiteiro. Ledo engano.

Os mosquitos africanos têm dentes (quem olhar de perto os verá) e facilmente darão um jeito de perfurar as frágeis redes do seu mosquiteiro. E, uma vez dentro, devorá-lo será mais fácil.

É melhor, portanto, enfrentá-lo em campo aberto, onde temos mais chances de defesa.

Quando um mosquito nos ataca enquanto estamos tentando adormecer, é natural que, irritados, queiramos nos levantar da cama, acender as luzes e tentar enfrentá-lo no claro, onde nos julgamos mais poderosos.

Jamais tente isso.

Será muito difícil encontrar o seu inimigo, já que os mosquitos africanos costumam se refugiar no teto, longe do nosso alcance, ou em lugares em que você jamais os procurará.

Mas caso você o ache e, mais além, consiga esmagá-lo contra a parede ou entre as suas mãos (o que exige maior perícia), sempre haverá outros mosquitos no seu quarto prontos para vingar o colega.

Proponho, em vez disso, outra estratégia, sabendo que alguns a considerarão insensata e talvez até suicida.

Por mais que faça calor e você esteja dormindo num quarto sem ar-condicionado ou ventilador (e provavelmente essas serão as condicões se você estiver numa cidade africana), cubra o seu corpo inteiro com o lençol, deixando de fora apenas o rosto e (o detalhe é importante) uma mão, que deve estar com a palma voltada para cima — não sei por que, mas mosquitos africanos não gostam das palmas das mãos e só as atacam quando elas são a única opção.

Inevitavelmente, em poucos segundos você ouvirá os terríveis zunidos dos mosquitos que se aproximam.

Mantenha a calma, não se mova: deixe que eles sintam o seu cheiro e se preparem para o ataque.

Logo, logo você sentirá que algum mosquito pousou no seu rosto, e eis o ponto crucial da estratégia: quando o mosquito tocá-lo, continue imóvel.

Sim, pois caso você se mexa de imediato, ele rapidamente se refugiará no teto, para depois voltar a atacá-lo – e noites inteiras podem ser perdidas nessa briga inútil.

Quando ele pousar no seu rosto, deixe. Conte até três (e não mais!) e, usando a mão que está fora do lençol, esmague-o contra o seu rosto. Doerá, é verdade, mas as chances de você acertá-lo são enormes.

É importante, porém, que você tome essa atitude exatamente três segundos após ele pousar no seu rosto.

Creio que, nesses breves instantes que antecedem a picada, o mosquito ponha os dentes para fora e, antevendo o prazer que sentirá em seguida, se descuide – é nesse momento que você o acertará em cheio.

Agir antes ou depois, entretanto, resultará em fracasso certo.

Seguindo as minhas dicas, você conseguirá matar todos os mosquitos que estiverem no seu quarto, e os zunidos cessarão.

A estratégia só não é infalível porque, às vezes, algum mosquito sobra na retaguarda — é esse que o picará quando, achando que matou todos, você adormecer.

Mas aí os riscos serão bem menores.

Como disse, guardem este texto. Ele um dia poderá ser útil.

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7 Respostas to “Como lidar com insetos africanos”

  1. Pete said

    Eu, pessoalmente, nunca tive problemas sérios com mosquitos em Luanda, o repelente Exposis funciona em mim e deixa todas as “pestes” bem longe…

  2. Silvia said

    Aquelas raquetes elétricas chinesas ainda não chegaram por aí? Leve uma daqui. Custa R$ 29 ou menos e podem mudar sua vida! A mosca ou o mosquito estouram, fica aquele cheiro de queimado no quarto, o seu karma piora horrores, mas o trem funciona de verdade.

  3. nossaaaaaaaaaa que epopéia,adorei o texto!!!!!!!!!mas tenho outras dicas: primeiro comprar o exposis,o de criança cheira melhor(mandioquinha)…….
    mas vc não poderá encostar em sacos plasticos,pois correr o risco de virar um homem-propaganda,de tão forte que é……..
    acostume-se a usar o tempo todo,nada de pele ao natural.Passe antes o bloqueador solar e por cima o exposis não deixe nada fora,nem atras da orelha ,ou estará morto…………. e com essa labuzeira toda ele até que respeita mais………ah! e na hora do banho ,como nem banhos com chuveiro tem,é de caneca mesmo e olhe láaaaaaaaa!!!!!!,vc nem precisa se preocupar em tirar tanto: vai criando uma camada na pele que te protegerá………………
    Vc acabará a viagem com outra cor,hahuahuahauha foi o que aconteceu comigo!!!!!!!!!!!

    • João Fellet said

      Obrigado pelas dicas, gente.
      Ja usei o Exposis, e ele realmente funciona. O problema dele eh que, alem de espantar insetos, ele tambem espanta pessoas. Ninguem consegue ficar perto com aquele cheiro! rs…
      Silvia, eu vi as raquetes chinesas em Luanda. Mas, como tudo que eh made in China, elas nao costumam durar mais do que um mes…
      Abracos a todos

  4. hahaha João, eu assino embaixo da dica do Exposis… Mas eu sempre falo pras minhas amigas no Brasil que os mosquitos africanos são mais inteligentes pois não ficam zumbindo na nossa orelha a noite toda vão direto ao ataque e quando vc acorda já está todo picado hahaha

  5. Alejandro said

    matei de rir com essa historia do mosquito.. uhahuauh
    nem imagina qto!!!
    foi um prazer ler tuas historias!!

  6. Noemia said

    Comecei bem meu dia ri muito dessas historias… Mas é duído mesmo esses mosquitos africanos, até então repelente tem sido a melhor coisa aqui em moçambique. E na hora de dormir além de fechar mais cedo ou deixar o dia todo fechado as portas dos quartos jogo baigon e vamos tentar dormir… Valeu gente.

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