A ilha

24/03/2009

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Depois de percorrer 2.000 km pela costa de Moçambique, achei que não fosse mais me surpreender com o que viesse a encontrar por aqui. E no entanto…

A Ilha de Moçambique, que deu o nome ao país, é daqueles lugares extraordinários a que, quando se chega, duvida-se da sua existência. Feito Macchu Picchu, no Peru.

Por quatro séculos, a ilha foi a sede da administração portuguesa na África Oriental. Antes disso, porém, já era um importante centro comercial e atraía mercadores persas, indianos e árabes – os últimos difundiram por aqui o islamismo, religião praticada pela grande maioria até hoje.

A ilha se divide em duas partes: a cidade de pedra, erguida há 500 anos pelos portugueses, e Makuti, a cidade africana, com casas cobertas por palha.

As duas partes são habitadas pelo povo local, os emakua. Como as povoações construídas à época pelos portugueses, a cidade de pedra tem ruelas estreitas e casas com paredes grossas.

Grande parte dessas casas jamais foi reformada, e o mais surpreendente é que a maioria permanece em pé.

Caminhando por essas ruas, sou tomado por uma vontade incontrolável de espiar pelas portas entreabertas, explorar os corredores dos casarões, tocar as suas paredes…

Às vezes, não resisto e vou entrando, com cuidado para não ser notado.

Assim, já flagrei homens que cochilavam estirados sobre pedras; garotos que jogavam futebol entre colunas em ruínas; mulheres que lavavam roupa com água retirada de cisternas; galos e galinhas que ciscavam atrás de comida; meninas que brincavam…

Enquanto caminho, penso em como aquelas pessoas enchem de vida aquelas casas em ruínas; em como a presença delas ali anula a passagem do tempo.

Quando anoitece, a ilha mergulha na escuridão. Se a maré sobe, as ondas explodem com violência nos muros, e a cidade balança como um barco em alto-mar.

As pessoas recolhem-se em suas casas, e as ruelas são invadidas por morcegos, que, aqui, não são ratos com asas, como se costuma dizer, mas verdadeiras ratazanas voadoras.

Vi alguns cujas asas abertas devem medir, sem exagero, mais de um metro de comprimento. Esses enormes morcegos gritam enlouquecidos e traçam rotas errantes, sempre passando rente às cabeças dos pobres humanos que arriscam sair de casa.

Talvez, muito antes dos emakua, dos portugueses e dos árabes, eles fossem os donos do pedaço.

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10 Respostas to “A ilha”

  1. Karina said

    Queira desculpar-me, devo admitir que você escreve bons textos em BOM PORTUGUÊS, ja li vários blogs de brasileiros e olha, São Poucos os que mereceram elogio.PARABÉNS e boa sorte do fundo do peito.

  2. Vc colocou de uma forma que fiquei terrivelmente com vontade de conhecer aí……….
    e vamos em frente,abraços sonia

  3. Umberto said

    Caro Candongueiro, por ter morando em Moçambique por dois anos, gostaria de dizer que estou me identificando muito com seu blog. O acompanho sempre. Boa viagem e boa sorte.

    ps: comentário preconceituoso da Karina. Jamais podemos generalizar uma percepção que temos.

  4. manuel fernandes said

    a ilha de moçambique eleita pela unesco justamente patrimonio da umanidade , nada fazendo porem para a preservar , quanto ao que portugal poderia fazer , vai se passar o mesmo como em goa o patrimonio portugues ai deixado é aproveitado pelos americanos ingleses alemaes etc ficando como sempre portugal a ver navios !!¨ os vascos da gama magalhaes cabrais devem estar a dar voltas nos seus tumulos !!¨ pois é ,é o fado lusitano no seu melhor
    kanimambo

  5. Fala, João. Tô com inveja, não passei por aí. As fotos tão ótimas, e toda minha solidariedade a você pelo sofrimento internético. Pus um link do seu blog no meu. Abraço e boa viagem.

  6. Nossa tô quase pegando carona nessa candonga. Não imaginava que Moçambique era tão bonita.

    Boa viagem!!!

  7. «Quando anoitece, a ilha mergulha na escuridão. Se a maré sobe, as ondas explodem com violência nos muros, e a cidade balança como um barco em alto-mar.»

    Isto é quase poesia.

  8. Paulo Coutinho said

    Bom…não vou jogar mais confete em vc!…vc é o cara!…como diria Fernando Pessoa – o maior poeta mesmo – vc tem o dom de encostar bem as palavras às idéias…e a gente, aqui, viaja com isso!…eu sou seu caroneiro confesso!…e aqui repito a dica…acompanhar o seu blog com o google earth aberto é melhor ainda…acabei de visitar a ilha!..vai fundo!..

    • João Fellet said

      Obrigado, Paulo. A dica do Google Earth eh excelente. Se a internet colaborasse, eu colocaria algumas imagens nos posts…
      Abracos e volte sempre!

  9. paula silvaHello said

    nasci na ilha de moçambique em 1962 vim para portugasl com 11 aos perto de 12,mas essa terra ficou no meu coração até ao dia de hoje e conforme passa o tempo mais ela me chama pois sua terra é linda e o seu povo maravilhoso,estou a par de tudo o que se passa lá,a degradação e tudo o que se passa por isso não sou saudosista mas uma emigrante que espera voltar a sua terra e é o que farei Deus me ajude

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