Sakina

23/03/2009

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Eram 4h35 da manhã quando cheguei ao ônibus que me levaria de Vilanculos até a Beira, no domingo passado, dia 15. Estava cinco minutos atrasado, mas, por sorte, o ônibus ainda estava lá – segundo me haviam dito, aquele ônibus sempre partia na hora marcada.

O ônibus já estava cheio, e a maioria dos passageiros cochilava. Um bêbado entrou cambaleante, tirando sarro dos que dormiam. Mas foi só ele se sentar que logo também já dormia profundamente, roncando.

O meu lugar era bem à frente, ao lado do banco do motorista. Sentei-me e fiquei à espera da partida por 10, 15 minutos, já duvidando da pontualidade daquele ônibus. Até que uma mulher com cabelos pretos e lisos e brincos dourados nas orelhas entrou agitada.

Enquanto se dirigia ao banco ao meu lado, explicava a todos os passageiros o motivo do seu atraso: tinha medo de andar sozinha em Vilanculos àquela hora, e demorou para encontrar alguém que a acompanhasse até o ônibus. Mas que não nos preocupássemos, pois agora finalmente partiríamos.

Era a motorista.

Ao dar a partida, fez uma careta e chamou o cobrador: “Jaaaime! Algum passageiro entrou aqui com bebida?” “Sim, dona Sakina”, respondeu-lhe. “Mas ele já está a dormir.”

Ela sorri satisfeita e olha para mim: “Percebo logo se há bebida onde estou. Eu não bebo, na minha casa ninguém bebe, então sinto de longe o cheiro do álcool.” Pergunto-lhe se é muçulmana. Ela confirma.

O ônibus parte e alguns quilometros à frente, já na estrada, é parado por um grupo que acena. Alguns sobem, e um rapaz do lado de fora se dirige à janela de Sakina.

Diz que está com duas pessoas que precisam embarcar, mas que só pode pagar o equivalente a um terço dos bilhetes. Quer saber se não há um jeito.

Sakina explode: “Não acredito no que estás a fazer!”, e abre o colete. “Eu sou uma mulher, eu tenho mamas, tás a ver bem? Isso que estás a fazer não se faz jamais com uma mulher. Não deixei três filhos em casa para vir aqui brincar!”

Envergonhado, o rapaz sai de fininho, cabisbaixo. Sakina então chama o cobrador: “Jaaime! São duas moças ou dois rapazes que ele quer embarcar?” “Duas mulheres”. “Então deixa lá elas subirem…”, cede Sakina, contrariada.

Olho para o relógio – ainda não são 6h. Faço as contas e fico feliz ao saber que passaria as próximas 8 horas ao lado daquela mulher que se mostrava tão fascinante.

A viagem segue, puxo papo. Algo me intriga – embora fale perfeitamente o português (e se comunique com muitos passageiros em ndau, uma das línguas locais), Sakina tem os traços de uma indiana. Pergunto-lhe de onde é. “Da Beira”. Insisto: mas e a sua família? “Meus pais também nasceram lá, eram moçambicanos. Mas três dos meus avós vieram da ĺndia”.

Bingo.

Sakina se entusiasma e começa a falar da família. Diz que o pai era um homem riquíssimo. Tinha várias lojas, barcos de pesca e criava gado.

Vivia com a mulher e os oito filhos (cinco moças e três rapazes) numa ilha perto da Beira. Quando um dos filhos se adoentava, não deixava que viajassem de barco até a Beira, onde ficava o hospital mais próximo: mandava uma avioneta vir buscá-lo.

Então foram-se os portugueses, veio a guerra, e a família perdeu tudo, até o baú com as jóias que as cinco filhas ganhariam quando se casassem, jóias que pertenciam à familia há séculos e passavam de geração a geração. “Sobraram só as que estavam nos nossos corpos.”

Quero saber como Sakina virou motorista. Ela me diz que, em 2003, comprou três ônibus. No começo, contratou motoristas e não os dirigia. Mas estava perdendo muito dinheiro. Então decidiu começar a pegar a estrada também, para saber quais rotas estavam mais cheias e quais estavam mais vazias. Desse jeito, os motoristas não têm como enganá-la.

E assim vamos conversando por horas, até nos aproximarmos da Beira. Na periferia da cidade, enquanto esperávamos um passageiro que descera tirar a mala do bagageiro, Sakina salta do ônibus e corre na direção de um rapaz que carregava um galão.

Ela toma o galão das mãos dele, diz-lhe algo enfurecida e volta para o ônibus – pensando que ninguém fosse notar, o rapaz tentara surrupiar o galão, que estava no bagageiro. Mas Sakina estava atenta, de olho no retrovisor.

Quando já está sentada ao volante, preparando-se para partir outra vez, cinco rapazes amontoam-se na sua janela. Entre zombeteiros e ameaçadores, pedem dinheiro.

Ela então tira um facão do porta-luvas e ergue o braço. Os rapazes recuam, assustados, e Sakina acelera, deixando-os para trás.

Depois, olha para mim e, guardando o facão, diz: “Já rasguei vários com isto. Para fazer o que faço, uma mulher tem que se impor.”

Admirado, balanço a cabeça, concordando.

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10 Respostas to “Sakina”

  1. Patrick said

    Ótima história!

  2. manuel fernandes said

    conta mais conta mais…linnnnnndoooooo
    kanimambo

  3. Carlos said

    João,

    o candongueiro está sensacional!

    Sou leitor assíduo desse diário que já nasceu com cara de livro.
    Parabéns e grande abraço,

    Diário da África

  4. m.Jo said

    A áfrica e suas mulheres poderosas. É assim que nasce uma Rainha Ginga.
    Estou adorando a “nossa” viagem, se me permite a boléia deslavada.
    Bjks
    m.Jo

  5. essa é uma rainha,adorei!!!!!!!!!!abraços
    sonia

  6. Filipe Torquato said

    Adorei a história. Aliás, o blog está maravilhoso, bem como anunciado pelo Pé na África e Diário da África.

    Que aproveite muito essa deliciosa viagem. Seus leitores agradecem!! :D

  7. Boa reportagem. Esta viagem promete.
    Que corra tudo bem, com algum gindungo mas sem problemas.

  8. […] assim com o Horácio. Foi assim com a Sakina. E foi assim com o […]

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