A Beira engana

17/03/2009

Quando cheguei à Beira, no domingo à tarde, pensei em dar no pé no dia seguinte. Com imensos casarões abandonados e ruas enlameadas, a Beira exala decadência.

Caminhava perplexo, sem acreditar que a cidade, outrora um importante entreposto comercial do império português, pôde degradar-se a tal ponto – e daí me lembrei, outra vez, de Luanda.

Mas, assim como Luanda, a Beira engana à primeira vista. É aqui que está surgindo um importante movimento que já começa a mudar o jogo de forças na política moçambicana, cujos principais atores são os mesmos desde que o país se tornou independente, em 1975. Não é pouca coisa.

Foi aqui na Beira, também, que vivenciei um dos momentos mais emocionantes da minha viagem até agora, e que me deixou mais seguro de que, por trás das suas fachadas em ruínas, a Beira está viva — e vibra.

No mesmo passeio do domingo, enquanto observava comovido alguns prédios caindo aos pedaços no centro da cidade, ouvi uma música alta e abafada. Seguindo a música, cheguei ao portão de uma escola pública, que, como os prédios ao redor, exibia janelas quebradas e paredes rachadas. Entrei.

Percebo que a música vem de um salão a poucos metros de mim. Caminho até ele e abro a porta. O salão está apinhado de crianças.

Algumas cantam e dançam extasiadas no palco, enquanto outras as acompanham igualmente radiantes da plateia.

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Era um concurso. Mas, ao contrário dos concursos do tipo de que já participei quando criança no Brasil (quando, envergonhado, subia ao palco mais para satisfazer a minha família do que por qualquer outro motivo), lá as crianças cantavam e sobretudo dançavam porque queriam, sem constrangimentos, e, mesmo quando a música acabava, era difícil convencê-las a descer.

Havia um único adulto no salão – o organizador do evento –, que anunciava com o microfone os jovens dançarinos ao mesmo tempo em que controlava o som.

Ao ver aqueles jovens dançarem, fiquei arrepiado. Quem já esteve em Angola e sabe o que é o kuduro me entenderá.

O kuduro é muito mais do que o ritmo preferido da molecada angolana. Cada jovem tem um estilo único e, quando dança, não apenas dança: é como se usasse o corpo para contar histórias, tirar sarro, travar duelos com os amigos, paquerar… A dança é o que condensa tudo.

As crianças que estavam naquele salão não dançavam kuduro, e sim (pelo que consegui identificar) um misto de marrabenta com outros ritmos moçambicanos. O efeito que aquela visão causava em mim, porém, era o mesmo.

Ao fim do concurso, todos saíram transbordando alegria e auto-confiança. Foi quando tirei estas fotos.

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Voltei para a minha (decadente) pensão com a certeza de que a Beira merecia mais tempo.

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9 Respostas to “A Beira engana”

  1. Deu para perceber até aqui a energia e a vibração!!!!!!!!! adorei!!!!!!!!!!!um abraço

  2. Fernanda_Matsinhe said

    Oi tudo bem?parabens pelo blog,ja li tudinho de uma ponta a outra,sou jovem Mocambicana de 20anos , a estudar eng telecomicacoes na China, faz dois anos que nao vejo minha terra…ler teu blog,ver as fotos me alegram muito e aumentam o meu despero pa voltar a sentir o cheiro da minha patria, sou “maputeca” pessoa nascida em maputo,mas vivi na beira durante boa parte de minha vida,tem horas que ate sonho quando podia descer para costa de sol para ver o por do sol, ou fim de semanas ou revellion preparados e tao esperados que pudia ir com grupo de amigos pa lugarem como Tofo ,Vilanculos.se tiveres opurtunidade de conhecer as ilhas de quilalea e matemo na provincia de norte Pemba garanto que nao te arrependeras,eu nao conheco mas tenho a certeza que e um paraiso…mais do que praias paradisiacas tenho saudades de uma terra em que com milhares de problemas que todos bem o conhecem como e caracteristica de quase todos paises africanos,ainda assim nao sei de onde meu povo tem um sorriso unico estampado no rosto,alegria natural,cantam e dancam sem aparente motivo quando talvez devesse ser o contrario so motivos para tristezas, mas eu entendi o dia em que alguem me disse “eu prefiro dancar e festejar mesmo que seja por nada ,porque eu nao sei se minha vida sera assim para sempre ,de que me adiantaria uma vida amargurada se talvez esse sofrimento nunca tera fim ”

    (desculpem a falta de acentos em meu texto,tou a usar um teclado que nao os contem…)

    • João Fellet said

      Oi, Fernanda. Fico muito feliz em saber que vc esta acompanhando o blog.
      Imagino as saudades que deve estar sentindo da sua terra ai na China. Mas esse distanciamento e bom, ja que vc desfrutara melhor de la quando estiver de volta.
      Obrigado pelas dicas de praias. Quero ir para Pemba, mas nao sei se terei tempo — meu visto vai expirar logo, logo.
      Abracos e volte sempre!

  3. Mirella said

    João, tive vontade de chorar ao ler este post. Morei na Beira em 2003/2004, quando trabalhei com crianças de um orfanato da Cruz Vermelha, na Ponta Gea. Você sabe se os meninos do orfanato estavam nesse concurso?
    Estou com muitas saudades das crianças, da Beira, de Moçambique. Vou passar minhas férias por aí em maio. Enquanto espero, mato as saudades com as suas histórias.

    • João Fellet said

      Oi, Mirella!
      Putz, nao sei se os meninos estavam la… Mas a escola era na Ponta Gea, entao pode ser.
      Abracos e boa viagem! (maio esta logo ai)

  4. m.Jo said

    Não conheço os ritmos moçambicanos, mas posso imaginar o arrepio. Outro dia vi umas crianças do Katambor dançando o kuduro. Fantástico.
    Estou adorando a viagem, João.
    Um beijo
    m.Jo

  5. Mara said

    Moz deixa a gente emocionada o tempo todo! Me lembro como se fosse hoje quando pisei na Beira. Misto de horror, admiração, emoção, aflição, paixão à primeira vista… Uma cidade repleta de mutilados de guerra, mas que não perdeu a ternura, jamais! Adorando a viagem também… Vai dando notícia!

  6. Clauber said

    Muito boas as fotos Jonyster
    Abraço

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