Luanda X Maputo

09/03/2009

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A baía de Luanda num dia escuro de cacimbo

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O Museu de Geologia, em Maputo

Talvez a comparação seja imprópria, mas não resisto.

Desde que cheguei em Maputo, há oito dias, tento entender como a cidade, que tem tanto em comum com Luanda (foram as capitais das principais colônias portuguesas na África e, portanto, planejadas de forma semelhante), como ela tomou um rumo completamente distinto da sua “irmã” desde que Angola e Moçambique conquistaram a independência, nos anos 70.

Nunca vou me esquecer do dia em que pus os pés em Luanda pela primeira vez, em março do ano passado. O trânsito começava já no estacionamento do aeroporto. Mas o choque maior veio pouco tempo depois, quando saí do túnel que liga a avenida do aeroporto ao bairro da Maianga.

Da saída do túnel, que fica no topo de um morro, tem-se uma vista panorâmica de um bom trecho da cidade: ao fundo, avista-se a praia do Bispo e o grandioso mausoléu do Agostinho Neto, uma obra inacabada em estilo soviético que mais parece um enorme míssil na vertical.

Entre o mausoléu, o mar e a ladeira que desce até a Maianga, numa faixa de terra de uns 700 metros de largura, cada centímetro foi ocupado. Não é possível distinguir onde termina uma casa e onde começa a seguinte: os telhados de uma sobrepõem-se aos da outra, e assim sucessivamente até que se chegue ao mar.

A sensação é a de estar diante de algo que transbordou mas que não teve vazão. Ao longo dos últimos 30 anos, aqueles barracos foram se acumulando, acumulando, acumulando, e quando não havia mais espaço, foram ocupados os becos, as ruelas e até a areia da praia.

Senti-me estrangulado.

Maputo também enfrenta graves problemas urbanos – que, de resto, são comuns a qualquer cidade grande de um país em desenvolvimento. Entretanto, diferentemente de Luanda, conseguiu preservar a sua funcionalidade básica e é, ainda hoje, uma cidade agradabilíssima.

Arrisco algumas explicações para que tenha sido assim.

Enquanto a guerra civil moçambicana acabou em 1992, em Angola houve conflitos até 2002. Em Maputo, estima-se que haja 2 milhões de habitantes; em Luanda, são 5 milhões.

Mas o fator mais decisivo talvez tenha a ver com as diferentes estratégias que Portugal usou na administração das duas colônias.

Enquanto em Angola havia muitos portugueses – ou descendentes de portugueses – que desempenhavam tarefas relativamente simples (como a de vendedores, garçons, motoristas e até operários), em Moçambique, os portugueses ocupavam somente cargos de maior prestígio e eram, em geral, altamente escolarizados.

Anos 70. Angola e Moçambique se tornam independentes. A comunidade portuguesa se pica.

Em Moçambique, de um dia para o outro, não havia mais médicos, engenheiros e advogados. Em Angola, também não, mas lá foi pior, pois mesmo atividades mais básicas dependiam da mão-de-obra portuguesa.

Isso talvez explique como Maputo conseguiu se segurar, ao passo que Luanda mergulhou num completo “salve-se quem puder”.

Hoje, Luanda parece um campo de batalha. Ir a pé (ou mesmo de carro) à padaria implica enfrentar obstáculos variados.

Em Luanda, todos os serviços são pré-pagos, não se dá gorjeta, ninguém sabe os nomes das ruas, os elevadores não funcionam (ainda hoje falta manutenção), os carros há muito ocuparam as calçadas, falta luz e o esgoto jorra de todos os lados.

Em Maputo, apesar da degradação de algumas áreas, anda-se pela calçada (às vezes esburacadas, é verdade, mas calçadas, onde os restaurantes põem mesinhas), descansa-se no banco de um parque ou, simplesmente, passeia-se.

A cada dia, Luanda precisa ser desbravada, combatida. Lá, a cidade é o que separa uma pessoa do seu destino. Em Maputo, a cidade é o que une alguém ao seu destino.

Vou-me embora amanhã. Sinto que poderia ficar mais uma semana, um mês, uma vida – como bem diagnosticou a Carol, estou com “maputite”.

Espero voltar logo.

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12 Respostas to “Luanda X Maputo”

  1. Muito bem explicado. Que pena que vá já deixar Maputo. Já mergulhou no Índico?

    • João Fellet said

      Ola, Antonio. Ainda nao mergulhei no Indico — pretendo faze-lo nos proximos dias, quando passar por Tofo e Vilanculos. abracos

  2. Angola foi, durante 15 anos, saqueada pelos “amigos cubanos”. Levaram até os autocarros de Luanda.
    Angola perseguiu os brancos e os que gostavam dos brancos e até mesmo os que não gostavam dos brancos mas eram mais instruídos.
    Moçambique sobreviveu a estas febres. É a diferença.

  3. Nossa quer dizer que ja´tenho que arrumar as malas???????jáaaaaaaa???????,creio que tambem estava ficando com maputite,heheheh ,gostei!!!!!!!!!

  4. Quem passa por aqui sempre acaba doente! Siga sua jornada se não vai ficar preso e vivendo por aqui (o que não é nada mal!)

    abraços e mande notícias!

    e quando ficar puto, VAI PARA MAPUTO!

  5. Mara said

    Não vai “sarar” nunca! Maputo (Moçambique, África toda?)é um vício! Abração.

  6. Paulino said

    Amigo João,
    Eu gostava imenso de ter feito essa viagem com vc. Não vejo a hora de aterrar em Maputo, pois.
    Muito bom o post, vc é um jornalista fabuloso.
    Paulino

  7. daniel said

    um dia vc vai voltar em luanda e não iras compara-la com maputo mas sim com lisboa,cidade que numca provou uma superlotação de refugiados de guerra,olhe la o que dizes!!!com certeza vc deve ser portugues…..

  8. Tiago Baptista said

    Dispenso as apresentações, acrescento as palavras escritas por alguém que viu algo similar ao que vi – vivo em Luanda á 5 anos, já visitei Maputo por duas vezes..e a diferença é enorme.
    Sou lisboeta, o choque é enorme.

    Abraços!

  9. Nelson Filipe Nobela said

    Ola João! Agradeço em ter prestigiado a minha cidade natal. Obrigado…Obrigado e obrigado.

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