Matar em nome da chuva

08/03/2009

Esse é o título de uma reportagem publicada na edição de hoje do “Domingo”, um jornal semanal moçambicano com sede em Maputo.

 

Transcrevo abaixo alguns trechos da reportagem:

 

“‘Na machamba [horta] dele sai alguma coisa, mas na minha, não. Como é que o meu vizinho está sempre a mastigar qualquer coisa, e eu não?’  

 

Essa pergunta explica tudo. Nela gravita o crime cometido em Maquival, província da Zambézia, onde, em nome da chuva, alguns moçambicanos foram mortos, sem contemplações nem remorsos, alegadamente porque estavam a guardar a dita chuva apenas para eles e respectivas famílias.

 

Entre as vítimas mortais, figuram um secretário do bairro, a prima deste e um membro da comunidade surpreendido por uma bala perdida disparada pela polícia.

 

Em paralelo, três agentes da polícia foram feitos reféns e feridos quando tentavam, em vão, convencer a população que não era possível um homem guardar chuva dentro da sua casa.

 

(…)

 

Dia seguinte, a polícia reforçou-se. Armou-se até os dentes e conseguiu resgatar os seus homens, mas não evitou a pilhagem às residências, mais tarde queimadas.

 

Restabelecida a calma naquela localidade, os prevaricadores não desanimaram. Correram para a localidade de Zalala, torturando pessoas e destruindo habitações. Não se esqueceram de surrupiar, antes, tudo o que havia dentro das casas.

 

Aqui a vítima mortal foi Ruquia Ludai, igualmente acusasa de esconder chuva. Ela era prima de Emiliano Afuala, o secretário de um dos bairros, igualmente morto como cão, após apanhar pauladas, pedradas e socos.

 

(…)

 

Curiosamente, apesar de terem morto as pessoas suspeitas de esconder a chuva, esta continua sumida.”

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7 Respostas to “Matar em nome da chuva”

  1. m.Jo said

    Ouvi mês passado aqui em Luanda que os chineses estavam sendo acusados de “guardar a chuva”, para não atrapalhar obras de construção.
    Eu não tinha acreditado.

  2. Victória said

    São em momentos assim que a gente vê o quão atrasado um país pode ser, não é mesmo?! E como esses momentos são tristes.

  3. Também não entendo como este tipo de comportamento tem ressurgido nos últimos anos. A culpa vai direta para uma falha grave dos governos, que é a educação, ou melhor a falta dela. Afinal entendo!

  4. Jorge Barata said

    Meu, se stiver por Maputo, ainda, gostaria de trocar umas idéias consigo.
    Sou professor na UEM/ECA.
    Mande um “emílio”

    Um Abraço

    • João Fellet said

      Ola, Jorge. Infelizmente, o meu ultimo dia em Maputo foi bem corrido — so vi o seu email horas antes de ir embora. Talvez de um pulo ai antes de ir para o Zimbabue, no fim do mes. Eu te aviso.
      Abracos

  5. Samanta said

    Ouso discordar do Antonio: não acho que o fato tem a ver com educação. Acredito que o problema é que o tempo não passou na África como passou no resto do mundo. Talvez num dia não muito distante o João flagre africanos de iPhone na mão discutindo via SMS, em silêncio, que seus vizinhos devem estar escondendo chuva dentro de casa. Enquanto o tempo não começar a andar por lá, histórias assim continuarão a acontecer – e isso tem mais a ver com milênios de cultura do que estudo e cultura.

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