A casa de Horácio

07/03/2009

Horácio, Elsa, D. Maria Isabel, sr. Joaquim e Elton

Horácio, Elsa, D. Maria Isabel, sr. Joaquim e Elton

O Horácio me ligou ontem de manhã. Queria saber se ainda estava em Maputo. Ao ouvir que sim, convidou-me para conhecer a sua casa.

Econtramo-nos no início da tarde no centro de Maputo, de onde pegamos dois chapas até o Laulane, bairro na periferia da cidade.

No tempo colonial, o Laulane abrigava chácaras e casas de campo dos ricos de Lourenço Marques, como Maputo então se chamava.

Algumas dessas chácaras ainda existem, mas a explosão demográfica em Maputo que se iniciou durante a guerra e prossegue até hoje forçou a ocupação das áreas vagas de Laulane por moradores pobres, vindos de outras províncias ou da própria cidade.

Horácio vive na casa dos pais de Elsa, a quem chama de “minha esposa”, embora não sejam casados oficialmente.

Quando cheguei lá, por volta das 3 horas, toda a família veio me receber à porta. No quintal da casa, cadeiras foram dispostas em círculo sob a sombra de um toldo de jita, para que pudéssemos nos sentar e conversar.

Fico sabendo que o sr. Joaquim, o pai de Elsa, construiu aquela casa há quatro anos. Antes, morava com a mulher, D. Maria Isabel, e os dois filhos, Elsa e Pedro, num apartamento no Alto Maé, centro de Maputo.

Mas viver na cidade havia se tornado muito caro nos últimos anos, e o sr. Joaquim estava endividado. A solução foi vender o apartamento e comprar um terreno em Laulane, para onde levou os filhos e o neto Elton, de 8 anos.

A conversa se desenrola com naturalidade. Quando o inevitável assunto “novelas brasileiras” vem à tona, Elsa, que tem 23 anos, me pergunta por que os negros sempre são retratados como pobres e empregados dos brancos.

Pouco depois, ela e Horácio me convidam para uma volta por Laulane.

Caminhamos por ruas de terra até uma estrada-de-ferro, onde o casal costuma passear aos domingos.

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No caminho, Horácio me conta que está passando por grandes dificuldades. “Como sabes, João, estou desempregado. Elsa também. E agora, para piorar, ela anda meio doentinha…” – e então Elsa resmunga qualquer coisa em shangana, como que reprovando o assunto.

Mas ele prossegue: “é que ela está grávida, João”. Vejo que Elsa se incomoda ainda mais e decido não fazer perguntas a respeito.

Continuamos o passeio. Horácio volta a me dizer que anda bastante preocupado. Conta que já pagou 6 mil meticais (equivalente a uns 200 dólares) a alguém na esperança de conseguir para Elsa um emprego numa empresa de telefonia privada. Fazem isso até em empresas privadas?, espanto-me. Horácio ri. “Aqui é assim, João…”

O pior é que não há garantias de conseguir o emprego. Já faz mais de um mês que ele gastou todas as suas poupanças para que Elsa pudesse trabalhar. “Preocupo-me com ela, e só. Nós, João, somos homens e sempre damos um jeito – tu sabes como é. Mas ela… com ela é diferente”.

Voltamos à casa. É tempo de ir embora – o sol quase se esconde, e Maputo está longe.

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8 Respostas to “A casa de Horácio”

  1. manuel fernandes said

    sao vidas joao sao vidas e a dor da impotençia de nao poder ajudar,
    kalimambo joao kalimambo

  2. Samanta said

    Oi, João! Acabei de saber do seu blog, vou acompanhar com muito carinho – afinal, ler os seus textos e descobrir a verdadeira África são prazeres pra mim. Só fiquei pensando em uma coisa: o que você respondeu à Elsa? Abraços, Samanta :)

  3. Parabéns pelos textos que estão cada vez melhores!
    Puta viagem, Fellet.

  4. nossa sim,o que vc respondeu a ela?
    Estive em Ghana e realmente apareceram pessoas fantasticas de lindas e que não pediram nada e outras que pediram dinheiro,outras que me deram o cartão para arrumar algo aqui ,enfim muito triste!!!!!!!!!!!
    No Norte ,em Sirigu fizemos uma ” vaquinha ” para ajudar uma associação de mulheres mães solteiras que fazem cestos,mas me senti impotente!!!!!!!!!
    E em Pikoro num campo aonde se prendiam os escravos achei horrivel!!!!!!

    • João Fellet said

      Oi, Sonia! Morro de vontade de ir para Gana. Deve ser um lugar fascinante.
      Sobre a pergunta da Elsa, respondi que essa questao tambem e bastante feita no Brasil e que isso ocorre porque a TV no Brasil (e a publicidade, e o jornalismo…) espelha a vida dos mais ricos. Nesse mundo, os negros ficam de fora — tanto porque sao em geral mais pobres quanto porque ha racismo.
      abracos

  5. oi João,Ghana(Gana) é incrivel,andei pelos 4 cantos do pais e quero voltar……..quem sabe no ano que vem!
    mas agora quero acompanhar vc……..
    quando quiseres dicas eu passo tudo……..
    e Boa resposta!!!!!!!!!!,eu creio que o dinheiro exclui as pessoas ,mais do que a cor da pele.
    Abraços e vamos lá………

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