Não vou atrás das pessoas sobre quem aqui escrevo.

Elas simplesmente aparecem na minha frente, cruzam o meu caminho. Nos cumprimentamos, trocamos algumas palavras, e quando vejo já estamos conversando como velhos amigos.

Foi assim com o Horácio. Foi assim com a Sakina. E foi assim com o T.

Conheci-o enquanto almoçava num restaurante em Mtwara, sul da Tanzânia.

Ele estava sentado com dois amigos numa mesa ao ar livre e, como começou a chover, perguntou se os três poderiam se sentar na minha mesa, que tinha algumas cadeiras vagas e ficava numa área encoberta.

Claro que poderiam.

T. era o único que falava inglês, mas isso já me deixou bastante animado. Em Mtwara, quase todos só falam suaíli, língua de raízes bantu com fortes influências do árabe – logo, completamente incompreensível para mim.

Disse-lhe que era bom dividir a mesa com alguém que falasse inglês, e ele me perguntou de onde eu era.

Vi que seus olhos brilharam com a resposta.

Depois, prontificou-se a me ensinar algumas palavras em suaíli, para que eu não dependesse do inglês para me comunicar na Tanzânia.

Então lhe entreguei o bloco de notas que carrego a tiracolo, e ele começou a escrever as palavras que em suaíli correspondem a olá, obrigado, onde fica, quanto custa etc.

Quando me devolveu o caderno, apontou para a segunte frase em inglês que havia escrito logo abaixo da lista de palavras:

How can I buy heroin and cocaine from Brazil?”

Li em voz alta e, para me certificar de que ele realmente quisera dizer aquilo, perguntei-lhe, enfatizando cada palavra: “cocaine and heroin?”

Claro que era aquilo.

T. ouvira falar que o Brasil era um grande exportador de drogas e queria saber se eu tinha alguns contatos. Ele não estava interessado em consumi-las, segundo me disse, mas sim em revendê-las na Europa.

– Você já fez isso antes?, quis saber.

Ele riu alto: “Claro!”

E começou a me contar os pormenores do seu negócio.

– Itália, França, Espanha, Irã! Ótimos mercados!

– Mas você não tem medo de ser pego, de morrer?

– O que você prefere: morrer de doenças ou morrer lutando? Morrer pobre ou morrer rico? Eu prefiro morrer rico e lutando

Parecia que ele era um ator e tinha ensaiado a vida inteira aquelas frases.

– Você nunca foi preso?, prossegui.

– Sim, duas vezes. Três anos na Itália. Dois anos na França.

– E não desistiu?

– Eu era muito jovem naquela época. Agora estou com 33 anos, sou um profissional. Polícia nenhuma me pega mais.

– Tem certeza? O seu trabalho é muito perigoso…

– Meu trabalho é como qualquer outro — como o de um eletricista, por exemplo. Se um eletricista se descuida, também pode morrer.

– Onde você compra as drogas?

– Rússia e Afeganistão.

– Afeganistão? Mas o país não está em guerra??, espantei-me.

– E que país no mundo não está em guerra? A Tanzânia está. Os Estados Unidos estão. O Brasil também, eu vi na televisão.

Continuava admirado com as respostas que ele me dava. Poucos roteiristas conseguiriam criar falas tão originais, pensei. Fui adiante com a minha entrevista:

– Como você transporta a droga?

– No estômago. Quando chego no meu destino, tomo muito iogurte. Ela sai bem rápido! – e fez um ágil movimento com as mãos, como que reforçando a última frase.

Eu o alerto:

– No Brasil é perigoso. Lá a polícia mata. E você pode ser preso no aeroporto, ficar uns 15 anos na cadeia.

– Ninguém vai me pegar. Tenho vários passaportes. Só viajo de terno, na primeira classe. Ninguém desconfia. E só lido com pessoas em quem posso confiar. Por isso que estou falando sobre isso com você.

– Eu? E como sabe que sou confiável?

– Eu simplesmente sei [I just know]. Estou há muitos anos no negócio. Sou muito respeitado em Cabul, sabia? Quando chego lá, sou tratado como um rei. Eu pago bem os meus fornecedores. Também lhe pagarei muito bem se me ajudar. Pense na minha proposta.

– Pensarei – e tentei parecer convincente, já que achei que seria imprudente zombar de um traficante internacional de drogas.

Quando terminei o meu almoço e me despedi dos três rapazes sentados à minha mesa, T. pediu outra vez o meu bloco de notas.

“Este é o meu e-mail”, ele disse enquanto escrevia. “Me mande uma mensagem. Vamos fazer bons negócios. Você não se arrependerá”.

* Nome omitido após apelos maternos.

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Dúvida existencial

30/03/2009

Observado pela recepcionista do albergue em Mtwara, preenchia com as minhas informações o livro dos hóspedes, para que ela pudesse me entregar a chave do meu quarto.

Nome, país de origem, motivo da viagem, documento de identificação, data de expedição, endereço residencial… Escrevia automaticamente, quase sem pensar, tão habituado que fiquei a esse procedimento.

Até que me deparei com uma categoria que jamais havia visto em qualquer outro livro de hóspedes: tribo.

Fiquei absolutamente sem reação.

Não poderia escrever brasileiro, pois, além de imprecisa, essa já era a minha resposta para a categoria nacionalidade.

Lembrei-me dos meus bisavós italianos, e por um instante pensei que talvez eu pudesse preencher o espaço com Calábria, ou ainda Tirol.

Mas aquelas eram as regiões da Itália de onde eles vieram, e não as suas tribos. Ademais, eles estavam muito distantes na minha linha genealógica, e, bom brasileiro que sou, houve muita mistura até que se chegasse a mim.

Pensei então em deixar aquele item em branco. No entanto, todos os cerca de vinte hospedes que naquele dia já haviam preenchido o livro tinham respondido a questão.

Li, assim, que um hóspede do Zimbábue era da tribo Ndebele; outro, queniano, era da tribo Kikuyu; já a grande maioria, proveniente da própria Tanzânia, era ou da tribo Makonde, ou da tribo Sukuma.

A recepcionista, impaciente com a minha demora em preencher aquele espaço, olhava para mim como que pensando: “Que raios de homem é este que não sabe nem o nome da sua tribo?”

Foi então que, como que iluminado por uma inspiração divina, segurei firme a caneta e, com inabalável convicção, escrevi: tupi-guarani.

mapa

Estou em Mtwara, na Tanzânia.

Não planejava vir para cá já. Mas eu estava muito perto da fronteira, e atravessar fronteiras é sempre uma tentação tão grande quando eu viajo, que não resisti e vim.

Assim, inverto o meu roteiro: passo primeiro por aqui e, em seguida, vou à Zambia e ao Zimbábue, para depois voltar a subir.

A travessia foi uma aventura e começou à 1h30 da manhã de hoje, quando acordei com batidas na porta do meu quarto:

­- Amigo! Borda, borda!

Sonolento, abri a porta:

­- O quê?

­- Vamos para a borda!

­- Borda?

­- Ya, para a borda, fronteira!

(Mais uma palavra para o dicionário de portunglês: borda, que vem de border).

-­ Mas agora? Não são nem duas da manhã… Ontem vocês me disseram que sairíamos às 3h.

-­ Ya, mas tem que ser agora. Sorry lá, pá…

Aprontei-me e parti.

Um caminhão estava à minha espera. Eu, assim como outras 15 pessoas, iria esmagado na carroceria, junto com caixas de cerveja e sacos de arroz.

A noite estava tão clara – em alguns instantes, já tinha visto três estrelas cadentes – que achei viajar daquela maneira poderia ser agradável.

Até que o caminhão partiu por uma terrível estrada de terra. O estado da via não parecia incomodar o motorista, que corria a pelo menos 100 km/h.

Nós, passageiros (?), nos segurávamos como podíamos, levando pancadas de todos os lados a cada buraco vencido.

Para piorar, fazia muito frio, pois na carroceria estávamos expostos a um vento cortante. Nunca torci tanto para que amanhecesse.

Duas horas depois, quando o sol começou a surgir, vi que provavelmente estava no lugar mais selvagem da África em que já havia estado.

As pequenas vilas que cercavam a estrada se tornavam cada vez mais dispersas. A partir de certo ponto, notei que todas as hortas tinham galhos empilhados ao redor.

Aquilo, explicou-me um dos passageiros, era para evitar que fossem destruídas por animais selvagens. E se esses animais forem elefantes?, quis saber. “Aí os galhos não farão a menor diferença”, ele riu.

Quando o dia já estava claro, chegamos ao posto fronteiriço da polícia moçambicana. Na minha vez de mostrar o passaporte ao guarda…

-­ O sr. não tem o carimbo de entrada no país.

Procurei pelo carimbo – e realmente o policial estava certo.

-­ O sr. tem razão. O policial na fronteira deve ter se esquecido…

­- Isso é grave, muito grave. O sr. terá de voltar ao ponto por onde entrou no país e conseguir o carimbo. O sr. entrou pela África do Sul, certo?

Eu sabia que, com essas frases, o que ele queria dizer é: “Caso você não me dê dinheiro, vou segurá-lo aqui por muito tempo”. Mas eu, que já tinha lidado com tipos muito piores em Angola (prometo um texto a respeito), não estava disposto a ceder tão facilmente:

-­ Sr., eu sou jornalista e estou numa missão de trabalho. Vim a Moçambique fazer uma reportagem sobre o desenvolvimento do país. Fiquei muito impressionado com o que vi até agora. Sei que o sr. está desempenhando um papel muito importante e seguirei as suas instruções: se me disser que tenho de voltar à Africa do Sul, voltarei.

Ele não esperava essa resposta. Ficou mudo por alguns instantes e começou a gaguejar:

– Bem, neste caso, eu o ajudarei… Mas há certos problemas burocráticos, o sr. não tem o carimbo de entrada, o que é muito grave… Façamos o seguinte: o sr. pagará uma pequena taxa, e eu o deixarei ir.

Café, ajuda, gasosa (como em Angola o refrigerante é chamado)… já tinha ouvido inúmeros eufemismos para propina, mas taxa era a primeira vez.

– E qual o valor dessa taxa?

– 100 meticais [uns 4 dólares].

Aceitei e, com um ar importante, despedi-me dele. Ao apertar suas mãos, disse-lhe que ele era um profissional exemplar.

Entre orgulhoso e sem jeito, ele agradeceu. “Faço apenas o que está ao meu alcance… “

Depois do posto, a aventura ainda não tinha terminado.

Antes, era preciso cruzar o largo rio Romuva, à bordo de um barquinho de madeira superlotado (com uma mão, o barqueiro conduzia o motor; com a outra, segurava um balde com o qual despejava para fora a água que ia inundando o fundo do barco e já molhava os nossos pés).

“Se isto afundar, para que margem eu nado?”, pensei. Isso se não houvesse crocodilos, claro.

Mas cheguei ao outro lado e cá estou, em Mtwara.

A primeira impressão da Tanzânia é boa: embora eu esteja numa cidade pequena, e hoje seja domingo, o comércio está em ebulição.

No caminho para a lan house em que estou, vi um marceneiro polindo alguns móveis. Fazia muito tempo que não via um marceneiro, e a presença dele me pareceu um sinal de certa prosperidade.

Amanhã, talvez eu vá para Dar es Salaam – uma cidade da qual sei muito pouco, mas que sempre me encantou com o seu nome. Dar es Salaam…

É na África que vivem alguns dos bichos mais incríveis do planeta: elefantes, girafas, hipopótamos, rinocerontes… Foi neste continente, também, que surgiu a espécie humana.

Tanta diversidade tem o seu preço. A vida na África é concorrida, e mesmo os homens ainda hoje travam com os outros animais uma disputa renhida pela sobrevivência.

Nade num riachinho qualquer abaixo do Saara e serão grandes as chances de você virar comida de crocodilo. Ou, quando estiver viajando pelo Quênia ou pela Tanzânia, ouse deixar o carro na estrada para passear no mato – leões, hienas e leopardos certamente estarão à sua espera.

E não pense que nas cidades você estará a salvo. Lá, muito pelo contrário, a competição pode ser ainda mais dura.

Em vez de feras selvagens, porém, você terá de lidar com espécies que apenas – apenas – aparentam menos ameaçadoras: as moscas e os mosquitos.

Sim, porque assim como elefantes, girafas e zebras, África também tem, e estou certo disso, a maior concentração de moscas e mosquitos do planeta.

Nas cidades africanas, são esses insetos os nossos maiores inimigos, e subestimá-los será um grave erro.

Como vivo – e sobrevivo – há mais de um ano na África, e, principalmente, em cidades africanas, aprendi algumas lições que quero compartilhar com vocês. Guardem este texto para quando forem convidados a trabalhar em Lagos, Nairóbi, Luanda ou Dar es Salaam.

Primeiro, às moscas:

As moscas africanas não são como as brasileiras. Ainda que à primeira vista não assustem tanto, já que são mais magras que as nossas, se é que isso é possível em se tratando de moscas, as moscas africanas são, e talvez justamente por causa da sua magreza, muito mais ágeis do que as nossas.

Por isso, quando estiver almoçando e elas cercarem o seu prato, excitadas, não tente afugentá-las.

Sempre que fizer isso, você perderá, e elas vencerão, pois, quando ameaçadas, as moscas africanas voam ainda mais rápido, e você ficará exausto até se dar conta de que elas não irão deixá-lo em paz.

Em vez disso, concentre-se na sua comida – o seu objetivo único deverá ser evitar que elas pousem lá. Se elas pousarem nos seus braços – e elas pousarão –, ou se pousarem no seu prato, mas ao lado da comida, não faça nada.

Sim, é possível que elas se contentem em ficar longos minutos nos seus braços ou na parte vazia do seu prato, e é para isso que você deve torcer.

Nesse caso, tentar espantá-las pode fazer com que elas levantem vôo e, de vingança, acredito, queiram pousar na sua comida. E isso é tudo que você não quer, já que as moscas podem pôr na sua comida os seus ovos, que por sua vez podem parar no seu estômago. E nós não queremos nem imaginar o leque de doenças terríveis que larvinhas de moscas africanas podem causar quando chegam aos nossos estômagos, certo?

Assim, caso as moscas pousem nos seus braços, na sua mesa, ou mesmo no seu prato, desde que não em cima da sua comida, deixe.

Aja somente – e somente! – se elas encostarem na sua comida. Mas tenha o cuidado de espantar apenas a mosca que avançou o sinal, e para isso basta um discreto movimento com os dedos – as outras moscas, já que nunca havera uma só mosca perto do seu prato, devem ficar despreocupadas.

Sobre as moscas, é tudo o que tenho a dizer. Moscas que, embora nocivas e bem maiores que os seus primos mosquitos, se é que eles têm algum grau de parentesco, não chegam nem aos pés dos últimos em termos de periculosidade.

Ah, os mosquitos africanos!

Repelente? Esqueça.

Sprays anti-insetos? Não gaste o seu dinheiro.

Os grandes laboratórios não testaram os seus produtos com mosquitos africanos.

Ou os mosquitos africanos não dão bola para eles, tão famintos que estão – pois, ironicamente, embora a África seja abundante em vida, os animais por aqui estão sempre famintos.

Mas após muitas noites mal dormidas e numerosas ofensivas fracassadas, aprendi algumas técnicas para lidar com os mosquitos africanos.

Sim, lidar, porque vencê-los é impossível.

O que é possível, garanto, desde que seguidas as minhas estratégias, é dificultar a vida deles e, assim, minimizar as chances de contrair alguma doença grave que eles transmitam – e aqui me refiro, sobretudo, à temida malária.

Às estratégias contra os mosquitos, portanto!

Primeiro, é bom dizer que, diferentemente das suas primas moscas, os mosquitos africanos só o importunarão, e emprego um verbo ameno para não assustar tanto, só o importunarão à noite, quando estiver dormindo, ou tentando dormir, o que costuma ser o caso, para o nosso desespero.

Alguns acharão que, para evitar o assédio dos mosquitos à noite, basta dormir dentro de um mosquiteiro. Ledo engano.

Os mosquitos africanos têm dentes (quem olhar de perto os verá) e facilmente darão um jeito de perfurar as frágeis redes do seu mosquiteiro. E, uma vez dentro, devorá-lo será mais fácil.

É melhor, portanto, enfrentá-lo em campo aberto, onde temos mais chances de defesa.

Quando um mosquito nos ataca enquanto estamos tentando adormecer, é natural que, irritados, queiramos nos levantar da cama, acender as luzes e tentar enfrentá-lo no claro, onde nos julgamos mais poderosos.

Jamais tente isso.

Será muito difícil encontrar o seu inimigo, já que os mosquitos africanos costumam se refugiar no teto, longe do nosso alcance, ou em lugares em que você jamais os procurará.

Mas caso você o ache e, mais além, consiga esmagá-lo contra a parede ou entre as suas mãos (o que exige maior perícia), sempre haverá outros mosquitos no seu quarto prontos para vingar o colega.

Proponho, em vez disso, outra estratégia, sabendo que alguns a considerarão insensata e talvez até suicida.

Por mais que faça calor e você esteja dormindo num quarto sem ar-condicionado ou ventilador (e provavelmente essas serão as condicões se você estiver numa cidade africana), cubra o seu corpo inteiro com o lençol, deixando de fora apenas o rosto e (o detalhe é importante) uma mão, que deve estar com a palma voltada para cima — não sei por que, mas mosquitos africanos não gostam das palmas das mãos e só as atacam quando elas são a única opção.

Inevitavelmente, em poucos segundos você ouvirá os terríveis zunidos dos mosquitos que se aproximam.

Mantenha a calma, não se mova: deixe que eles sintam o seu cheiro e se preparem para o ataque.

Logo, logo você sentirá que algum mosquito pousou no seu rosto, e eis o ponto crucial da estratégia: quando o mosquito tocá-lo, continue imóvel.

Sim, pois caso você se mexa de imediato, ele rapidamente se refugiará no teto, para depois voltar a atacá-lo – e noites inteiras podem ser perdidas nessa briga inútil.

Quando ele pousar no seu rosto, deixe. Conte até três (e não mais!) e, usando a mão que está fora do lençol, esmague-o contra o seu rosto. Doerá, é verdade, mas as chances de você acertá-lo são enormes.

É importante, porém, que você tome essa atitude exatamente três segundos após ele pousar no seu rosto.

Creio que, nesses breves instantes que antecedem a picada, o mosquito ponha os dentes para fora e, antevendo o prazer que sentirá em seguida, se descuide – é nesse momento que você o acertará em cheio.

Agir antes ou depois, entretanto, resultará em fracasso certo.

Seguindo as minhas dicas, você conseguirá matar todos os mosquitos que estiverem no seu quarto, e os zunidos cessarão.

A estratégia só não é infalível porque, às vezes, algum mosquito sobra na retaguarda — é esse que o picará quando, achando que matou todos, você adormecer.

Mas aí os riscos serão bem menores.

Como disse, guardem este texto. Ele um dia poderá ser útil.

Estou desde ontem em Pemba, no extremo norte de Moçambique.

Pemba é famosa por sua baía.

Como era noite quando aqui cheguei, não pude conferi-la. Mas hoje acordei bem cedo e fui até lá.

De longe, a vista era surreal: pessoas andavam sobre a água. Aproximei-me.

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Disseram-me que todas as manhãs é assim. A maré baixa, e mulheres vão buscar mariscos ali no raso.

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Máscaras

26/03/2009

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Mulheres emakua, na Ilha de Moçambique — a máscara é feita a partir de plantas locais e tem fins terapêuticos

(In)confidência

26/03/2009

E então eu me despedia da dona Flora, a elegante e muito educada senhora que administra a Casa Branca, a agradabilíssima pousada em que me hospedei na Ilha de Moçambique, quando ela me diz:

– Sabe que eu sou descendente de um brasileiro?
– Ah, é?
– Sim. Ele esteve preso cá na ilha há muitos anos por sua atuação na Inconfidência Mineira. Foi o poeta Tomás Antônio Gonzaga.

Lembram-se de “Marília de Dirceu” e das “Cartas chilenas”? O próprio.

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A ponte que liga a ilha ao continente

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Ruínas na cidade de pedra

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Jogo de cartas

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Makuti, o lado africano

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A igreja portuguesa

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A mesquita

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O lugar em que as meninas brincam

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E o lugar dos meninos

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Samira

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Abdul, o meu guia pela ilha

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Vendedora

A ilha

24/03/2009

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Depois de percorrer 2.000 km pela costa de Moçambique, achei que não fosse mais me surpreender com o que viesse a encontrar por aqui. E no entanto…

A Ilha de Moçambique, que deu o nome ao país, é daqueles lugares extraordinários a que, quando se chega, duvida-se da sua existência. Feito Macchu Picchu, no Peru.

Por quatro séculos, a ilha foi a sede da administração portuguesa na África Oriental. Antes disso, porém, já era um importante centro comercial e atraía mercadores persas, indianos e árabes – os últimos difundiram por aqui o islamismo, religião praticada pela grande maioria até hoje.

A ilha se divide em duas partes: a cidade de pedra, erguida há 500 anos pelos portugueses, e Makuti, a cidade africana, com casas cobertas por palha.

As duas partes são habitadas pelo povo local, os emakua. Como as povoações construídas à época pelos portugueses, a cidade de pedra tem ruelas estreitas e casas com paredes grossas.

Grande parte dessas casas jamais foi reformada, e o mais surpreendente é que a maioria permanece em pé.

Caminhando por essas ruas, sou tomado por uma vontade incontrolável de espiar pelas portas entreabertas, explorar os corredores dos casarões, tocar as suas paredes…

Às vezes, não resisto e vou entrando, com cuidado para não ser notado.

Assim, já flagrei homens que cochilavam estirados sobre pedras; garotos que jogavam futebol entre colunas em ruínas; mulheres que lavavam roupa com água retirada de cisternas; galos e galinhas que ciscavam atrás de comida; meninas que brincavam…

Enquanto caminho, penso em como aquelas pessoas enchem de vida aquelas casas em ruínas; em como a presença delas ali anula a passagem do tempo.

Quando anoitece, a ilha mergulha na escuridão. Se a maré sobe, as ondas explodem com violência nos muros, e a cidade balança como um barco em alto-mar.

As pessoas recolhem-se em suas casas, e as ruelas são invadidas por morcegos, que, aqui, não são ratos com asas, como se costuma dizer, mas verdadeiras ratazanas voadoras.

Vi alguns cujas asas abertas devem medir, sem exagero, mais de um metro de comprimento. Esses enormes morcegos gritam enlouquecidos e traçam rotas errantes, sempre passando rente às cabeças dos pobres humanos que arriscam sair de casa.

Talvez, muito antes dos emakua, dos portugueses e dos árabes, eles fossem os donos do pedaço.

Sakina

23/03/2009

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Eram 4h35 da manhã quando cheguei ao ônibus que me levaria de Vilanculos até a Beira, no domingo passado, dia 15. Estava cinco minutos atrasado, mas, por sorte, o ônibus ainda estava lá – segundo me haviam dito, aquele ônibus sempre partia na hora marcada.

O ônibus já estava cheio, e a maioria dos passageiros cochilava. Um bêbado entrou cambaleante, tirando sarro dos que dormiam. Mas foi só ele se sentar que logo também já dormia profundamente, roncando.

O meu lugar era bem à frente, ao lado do banco do motorista. Sentei-me e fiquei à espera da partida por 10, 15 minutos, já duvidando da pontualidade daquele ônibus. Até que uma mulher com cabelos pretos e lisos e brincos dourados nas orelhas entrou agitada.

Enquanto se dirigia ao banco ao meu lado, explicava a todos os passageiros o motivo do seu atraso: tinha medo de andar sozinha em Vilanculos àquela hora, e demorou para encontrar alguém que a acompanhasse até o ônibus. Mas que não nos preocupássemos, pois agora finalmente partiríamos.

Era a motorista.

Ao dar a partida, fez uma careta e chamou o cobrador: “Jaaaime! Algum passageiro entrou aqui com bebida?” “Sim, dona Sakina”, respondeu-lhe. “Mas ele já está a dormir.”

Ela sorri satisfeita e olha para mim: “Percebo logo se há bebida onde estou. Eu não bebo, na minha casa ninguém bebe, então sinto de longe o cheiro do álcool.” Pergunto-lhe se é muçulmana. Ela confirma.

O ônibus parte e alguns quilometros à frente, já na estrada, é parado por um grupo que acena. Alguns sobem, e um rapaz do lado de fora se dirige à janela de Sakina.

Diz que está com duas pessoas que precisam embarcar, mas que só pode pagar o equivalente a um terço dos bilhetes. Quer saber se não há um jeito.

Sakina explode: “Não acredito no que estás a fazer!”, e abre o colete. “Eu sou uma mulher, eu tenho mamas, tás a ver bem? Isso que estás a fazer não se faz jamais com uma mulher. Não deixei três filhos em casa para vir aqui brincar!”

Envergonhado, o rapaz sai de fininho, cabisbaixo. Sakina então chama o cobrador: “Jaaime! São duas moças ou dois rapazes que ele quer embarcar?” “Duas mulheres”. “Então deixa lá elas subirem…”, cede Sakina, contrariada.

Olho para o relógio – ainda não são 6h. Faço as contas e fico feliz ao saber que passaria as próximas 8 horas ao lado daquela mulher que se mostrava tão fascinante.

A viagem segue, puxo papo. Algo me intriga – embora fale perfeitamente o português (e se comunique com muitos passageiros em ndau, uma das línguas locais), Sakina tem os traços de uma indiana. Pergunto-lhe de onde é. “Da Beira”. Insisto: mas e a sua família? “Meus pais também nasceram lá, eram moçambicanos. Mas três dos meus avós vieram da ĺndia”.

Bingo.

Sakina se entusiasma e começa a falar da família. Diz que o pai era um homem riquíssimo. Tinha várias lojas, barcos de pesca e criava gado.

Vivia com a mulher e os oito filhos (cinco moças e três rapazes) numa ilha perto da Beira. Quando um dos filhos se adoentava, não deixava que viajassem de barco até a Beira, onde ficava o hospital mais próximo: mandava uma avioneta vir buscá-lo.

Então foram-se os portugueses, veio a guerra, e a família perdeu tudo, até o baú com as jóias que as cinco filhas ganhariam quando se casassem, jóias que pertenciam à familia há séculos e passavam de geração a geração. “Sobraram só as que estavam nos nossos corpos.”

Quero saber como Sakina virou motorista. Ela me diz que, em 2003, comprou três ônibus. No começo, contratou motoristas e não os dirigia. Mas estava perdendo muito dinheiro. Então decidiu começar a pegar a estrada também, para saber quais rotas estavam mais cheias e quais estavam mais vazias. Desse jeito, os motoristas não têm como enganá-la.

E assim vamos conversando por horas, até nos aproximarmos da Beira. Na periferia da cidade, enquanto esperávamos um passageiro que descera tirar a mala do bagageiro, Sakina salta do ônibus e corre na direção de um rapaz que carregava um galão.

Ela toma o galão das mãos dele, diz-lhe algo enfurecida e volta para o ônibus – pensando que ninguém fosse notar, o rapaz tentara surrupiar o galão, que estava no bagageiro. Mas Sakina estava atenta, de olho no retrovisor.

Quando já está sentada ao volante, preparando-se para partir outra vez, cinco rapazes amontoam-se na sua janela. Entre zombeteiros e ameaçadores, pedem dinheiro.

Ela então tira um facão do porta-luvas e ergue o braço. Os rapazes recuam, assustados, e Sakina acelera, deixando-os para trás.

Depois, olha para mim e, guardando o facão, diz: “Já rasguei vários com isto. Para fazer o que faço, uma mulher tem que se impor.”

Admirado, balanço a cabeça, concordando.