Já faz muito tempo que não escrevo nada por aqui.

Ainda que tenha ensaiado atualizar o blog após voltar da África, jamais o consegui — em parte porque a rotina puxada da vida de jornalista deixa-me pouco tempo livre, mas principalmente porque, de alguma forma, quis preservar este espaço como ele foi concebido: um blog de viagem.

Mas hoje tenho uma boa notícia que justifica minha aparição: nesta semana, após dois anos do meu regresso ao Brasil, este blog virou um livro!

Foram vários meses escrevendo, relendo os posts, revirando anotações e escolhendo fotos até que o “Candongueiro – viver e viajar pela África” ficasse pronto.

Nele, além das histórias que narrei aqui, e que foram reescritas com novos detalhes e reflexões, conto como foi o ano que morei em Angola, onde trabalhei na implantação de um jornal de economia.

Aos interessados, é possível ler uma resenha do livro no site do tás a ver?, um coletivo artístico que busca aproximar o Brasil da África.

Neste momento, faço questão de agradecer a todos que acompanharam, aqui pelo blog, a viagem que deu origem ao livro. Sem o entusiasmo de vocês, eu jamais o teria escrito.

Espero que gostem do resultado!

Ah, já ia me esquecendo: o livro pode ser comprado nas principais lojas Brasil afora ou pela internet (aqui, aqui, aqui ou aqui).

Beijos e abraços,

João

Praça Roosevelt, centro de São Paulo.

Domingo, 1º de novembro. 3 horas da manhã.

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Pertinho dali, na rua Augusta, um grupo musical do Nordeste do país toca em meio a prostitutas, manos, descolados e playboys.

 

Na última sexta-feira (9/10), o tempo chuvoso fez com que a pista do aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, fosse fechada durante boa parte do dia.

Com isso, muitos dos voos que deveriam partir de lá foram transferidos para o aeroporto internacional do Rio, o Galeão.

Foi o que aconteceu com o meu voo, o 6009 da OceanAir, que me levaria do Rio a São Paulo às 14h20. No entanto, quatro horas depois do horário marcado para o embarque, quando já havíamos sido levados ao Galeão por um ônibus da companhia aérea, ainda não tínhamos informações sobre quando (e se) conseguiríamos decolar.

A confusão começa: os passageiros se aglomeram na área de embarque à espera de informações. 

Uma única funcionária da OceanAir aparece e diz que o avião que nos levará a São Paulo já está na pista, mas que como o seu walkie-talkie está sem bateria (!!!), não consegue obter a autorização para organizar o embarque. 

Entre aflita e desolada, ela nos deixa dizendo que iria caminhando até o setor do aeroporto onde se concedem as autorizações para embarques e, assim, tentaria resolver o problema.

Passam-se duas horas.

Um funcionário da Infraero aparece. Os passageiros se impacientam com a situação –afinal, como um voo pode atrasar por causa da bateria de um walkie-talkie?? O funcionário diz que buscará a bateria. O clima esquenta. Filmei o surreal bate-boca:

Às 21h, o embarque é finalmente autorizado. Entramos no avião e só decolamos trinta minutos depois, já que havia uma longa fila de aeronaves na pista. Chego a São Paulo às 22h30, oito horas depois da hora marcada para o meu voo.

Da próxima vez, vou de ônibus.

Sexta-feira, 7 da noite. Na avenida Paulista, a mais famosa de São Paulo, um casal dança em meio à gente que volta para casa após o fim do expediente. 

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Chove

24/09/2009

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Até a próxima!

31/07/2009

Cartum e o fim que se aproxima, Despedida em Istambul, Estamos juntos – lendo os títulos de alguns dos meus últimos posts, noto que venho, já há algum tempo, tentando me preparar para este momento.

Depois de mais de cinco meses de viagem, 13 países visitados e dezenas de histórias narradas, finalmente chegou a hora de me despedir de vocês, que me acompanharam nesta jornada.

Alguns entram neste espaço desde o meu ponto de partida, quando ainda tinha uma África inteira por atravessar; outros chegaram ao blog durante o percurso e seguiram a viagem até o final; de todos, para a minha surpresa, conhecia pessoalmente apenas um punhado.

Hoje faz uma semana que voltei a São Paulo, cidade onde nasci e vivi a maior parte da minha vida. Ansioso que estava para reencontrar os meus amigos que aqui moram, fui forçado a permanecer em repouso devido a uma lesão na panturrilha direita, que se agravou nas últimas semanas porque não respeitei os meus limites – segundo o médico que me examinou.

Por causa da lesão, fui impedido de pôr os pés no chão por alguns dias. O tempo também não tem cooperado. Desde que cheguei, choveu todos os dias em São Paulo – o que jamais vi ocorrer no inverno, estação que costuma trazer aos paulistanos dias muito secos.

Agora que o tempo ruim parece dar uma trégua e o antiinflamatório começa a fazer efeito, ensaio os meus próximos passos nesta cidade que ao mesmo tempo acolhe e repele. Os protestos dos usuários dos ônibus fretados, as escolas que cancelam aulas por causa da gripe suína, a imperdível exposição da Sophie Calle, a última derrota do Corinthians: São Paulo impõe o seu ritmo e a sua agenda até a recém-chegados. A vida nesta cidade convida a uma série de reflexões, mas preciso de um tempo para me ajeitar.

Este blog foi uma descoberta para mim. Tornou-se um vício do bem, e quem sabe eu o ressuscite um dia. Por enquanto, deixo aqui o meu e-mail, caso alguém de passagem por São Paulo (ou um morador da cidade) queira transpor a barreira da máquina e me encontrar para um café ou uma cerveja: joaofellet@gmail.com. Aos mais avançados, também estou no Twitter (joaofellet), embora ainda não saiba usá-lo direito.

Obrigado por tudo.

Espero reencontrá-los em breve!

Estamos juntos

22/07/2009

De volta a Joanesburgo, onde tudo começou. Só que agora faz um frio danado na cidade. Este parque, que tinha a grama verdinha quando estive aqui há cinco meses, ficou assim:

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Joanesburgo já não me intimida tanto. Sei que ela é perigosa e que não devo ficar dando sopa depois que escurece. Mas também acho que poucas cidades no mundo têm parques tão bonitos, e quase nenhuma ostenta no currículo um feito do porte de ter comandado o levante contra o apartheid.

Arrepio-me só de pensar nas marchas em Soweto (cujos vídeos são exibidos no Museu do Apartheid, aqui na cidade), as multidões correndo com os punhos elevados, enfrentando uma polícia armada de tanques.

Joanesburgo merece, portanto, no mínimo respeito.

Amanhã deixo-a rumo ao Brasil. Para falar do que estou sentindo às vésperas da minha volta, tenho que contar dos meus últimos dias em Maputo.

Maputo foi a cidade de que mais gostei em toda a minha viagem. Não porque é a mais bonita, nem porque tem os melhores restaurantes ou bares, nem o povo mais amistoso.

Mas porque, para mim, ir a Maputo foi como conhecer um irmão depois de adulto.

Não tenho mais pernas, e mesmo assim andei horas e horas pela cidade,  arrastando-me. Parava nos mesmos cafés em que estive há cinco meses, pedia as mesmas coisas (um café, um palmier, uma Água das Pedras Salgadas — exatamente o que costumava pedir nos cafés em Luanda), reparava nos mesmos detalhes das casas e dos prédios que haviam me encantado, como se quisesse reviver a emoção dos primeiros dias da minha viagem.

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Até que, subitamente, fiz uma constatação que naquele momento me pareceu um tanto quanto dolorosa: nenhuma viagem pode jamais ser repetida.

Em todo caso, a exemplo do porquê da minha ida a Budapeste, decidira passar alguns dos últimos dias da minha viagem em Maputo não por causa da cidade, mas porque um amigo valiosíssimo que fiz em Angola agora vive lá: o Zé.

Sabia que encerrar uma viagem como esta não seria simples, e pensei que encontrá-lo me ajudaria a me preparar para a volta. E agora, no meu último dia na África, apesar de não morar no Brasil há um ano e meio e de não ter casa há cinco meses, aguardo a hora do meu regresso com serenidade.

Lembro que, faz uns quatro meses, quando tinha acabado de chegar à Tanzânia, escrevi ao Zé contando que o desenrolar da minha viagem estava me assombrando, que temia me sentir muito só nos meses seguintes.

Ele então me enviou um e-mail que guardarei para sempre. Peço-lhe licença para reproduzir o trecho em que ele fala da solidão:  

“Esses dias mesmo eu estava pensando nisso [solidão]. Penso muito nos amigos que deixei no Brasil e nessa ideia fixa de continuar pelo mundo trabalhando e vivendo em lugares diferentes. Acho que é um tipo de sina, acho que vicia e não dá para parar depois.

Penso nos amigos de Angola, na dureza que foi deixar todo mundo e no quão difícil será voltar para lá um dia. Penso nas amizades relâmpago que fiz aqui em Maputo e nas mais rápidas ainda aqui no hostel. Aí eu lembro de pessoas como você, o Massimo e outros mais espalhados por aí com a mesma ânsia — gente que está fundamentalmente unida por esse lugar chamado planeta.

Acho que somos gente do mundo, João, e que em pouco tempo não estaremos sozinhos em lugar nenhum. Acho que estaremos sempre partindo, mas que sempre estaremos acompanhados por pessoas de passagem também, velhos amigos soltos por aí… Parece uma boa ideia e tem me confortado.”

Essas palavras também me confortaram ao longo da minha viagem, e eu continuarei a me guiar por elas quer esteja em Luanda, São Paulo, Jacarta, Pequim…

As nossas viagens seguem, Zé. Nos vemos por aí.

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Já estou de volta a Istambul. Desde que percorri o Caminho de Santiago, em 2007, os meus pés não doíam tanto.

Não que nesta viagem eu tenha andado mais do que naquela, mas é que desta vez fui desleixado: principalmente no Sudão, no Egito e em Israel, curvei-me ao calor e deixei o meu par de tênis na mochila, andando para lá e para cá com os meus chinelos.

E então meus pés, que já vinham sendo bastante exigidos nos últimos meses, resolveram entrar em greve.

Por isso, só deu para espiar Budapeste, provavelmente na sua melhor época do ano, quando a Europa curte o seu generoso verão, há festivais em todos os cantos e os parques ficam cheios até o anoitecer,  por volta das 20h30.

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De qualquer forma, o objetivo principal de ir até lá era encontrar o Gady e o Yuri, grandes amigos que não via há um bom tempo (e que estão comendo direitinho, tia Cássia!).

De volta a Istambul, sou outra vez tragado pela intensidade deste lugar e recomeço a me indagar sobre o que lhe acontecerá nas próximas décadas. 

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 A ponte Galata

Habitada há pelo menos 7 mil anos, a região ocupada pela cidade foi palco de disputas que só se encerrariam em 1922, com a fundação da Turquia.

No século 7 a.C., colonos gregos se instalaram num vilarejo trácio à beira do estreito de Bósforo, que une (ou separa) o que hoje são a Europa e a Ásia.

A vila seria batizada de Bizâncio, o primeiro nome pelo qual se tornaria conhecida mundialmente.

Desde então, passaria pelas mãos dos persas, voltaria para o controle dos gregos (ora atenienses, ora espartanos), integraria a Macedônia (então sob a liderança de Alexandre, o Grande), faria parte do Império Romano, do qual se tornaria a sua capital (agora chamada Constantinopla), transformaria-se, quando  o Império Romano rachou, na capital do Império Bizantino, até, em 1453, ser dominada pelos turcos e virar Istambul.  

Foi só em 1923 que a cidade perderia o status de capital, quando Ancara passou a sediar o governo da República da Turquia.  

Ainda não li Istambul, do Orhan Pamuk, mas minha mãe o leu e disse que, nele, é descrita uma espécie de nostalgia que a cidade carrega porque não é (e jamais voltará a ser) tão importante como já foi.

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A Nova Mesquita

Andando por Istambul, eu sinto essa nostalgia, mas também sinto que, como na época em que era disputada por povos interessados em controlar um ponto geográfico tão estratégico, o futuro da cidade continua incerto.

Todos sabem que, há alguns anos, a Turquia começou negociações para integrar a Comunidade Europeia.

Um dos principais pontos a bloquear o seu ingresso (sem mencionar a rejeição de certos países europeus) é a instabilidade política no país.

Desde 1923, houve quatro golpes militares na Turquia, o último em 1997. O país também trava uma guerra  contra um grupo separatista curdo (etnia de 20% da sua população) e mantém uma longa disputa com a Grécia sobre a ilha de Chipre. 

Mas a ameaça maior ao país vem de dentro, disseram-me alguns turcos com que conversei nos últimos dias. Eles temem que o país retroceda aos tempos pré-republicanos, quando o Estado não era laico.

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A Universidade de Istambul

Há grande pressão de certos grupos e partidos muçulmanos (e com algum respaldo da população, principalmente entre os mais religiosos) para que se freie a ocidentalização em curso no país.

O  artista plástico Cezmi Orhan, um dos mais conhecidos da Turquia, me disse numa conversa em Ancara que há uma ameaça real de que a religião volte a estar associada ao poder no país. Afinal, a Turquia está numa região politicamente muito vulnerável, sujeita a fortes pressões por parte de países vizinhos com regimes orientados pelo fundamentalismo islâmico.  

Por isso ele defende a integração do país à União Europeia o quanto antes, o que, acredita, protegeria o país de tais influências.

A arqueóloga Sevingu, de 23 anos (e que aparece no post abaixo, em foto com a minha família), tem o mesmo medo.

Os pais dela, como 99,8% da população turca, são muçulmanos. Entretanto, nunca seguiram a religião à risca, e tanto é assim que Sevingu se diz ateia e namora o Inan, um rapaz que conheceu na faculdade– muçulmanos tradicionalistas condenariam o relacionamento.  

Ela jamais cobriu os cabelos na vida, mas teme que um dia tenha de fazê-lo. Nesse caso, contou-me que deixará a Turquia rumo à Europa, o que também pode vir a fazer  caso um dia se veja sem emprego, seguindo os passos de milhões de turcos que já emigraram.

Talvez seja a geração de Sevingu quem determinará se a Turquia continuará a se abrir ao mundo ou andará para trás.

Ortega y Gasset escreveu que certas gerações mergulham na apatia, deixando que as gerações anteriores ditem as regras conforme os seus conceitos e valores. Essas são geraçoes desertoras.

Outras tomam a dianteira dos acontecimentos, põem-se no comando, cumprindo a sua missão histórica.

Pergunte a um jovem de Istambul qual a sua parte favorita da cidade. A grande maioria nem sequer citará as centenas de monumentos históricos, mas sim falará do Taksim, um comprido calçadão numa área nova da cidade (atenção: novo em Istambul pode significar algo construído 200 anos atrás).

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Cheio de gente até altas horas da madrugada, o Taksim tem a maior concentração de lojas, bares e restaurantes de Istambul. É lá que os jovens da cidade se reúnem para passear, ouvir música e paquerar.

Que, portanto, defendam o que o seu país já conquistou, ou a farra pode acabar.

***

Em tempo: amanhã volto à África. Maputo me aguarda!

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