Ngorongoro ou O dia em que sete leões encurralaram três búfalos embaixo do meu nariz

12/04/2009

No caminho para o parque de Ngorongoro, através de vastas pastagens onde os Masai conduzem os seus rebanhos, avisto à minha frente, a uns cinco metros da estrada, duas enormes (e bastante verossímeis) estátuas de girafas.

Quem pôs essas estátuas aqui certamente quis criar expectativa nos turistas que vão ao parque, pensei, achando a atitude desnecessária e de mau gosto.

De repente, vejo uma das estátuas mexer o rabo. Em seguida, a outra torce o pescoço.

Não eram estátuas.

***

 

Ao portão do parque, rodeado por uma densa floresta, fazemos uma pausa para ir ao banheiro.

 

Somos seis: um casal de irlandeses, dois jovens finlandeses, eu e o guia, que também é o nosso motorista.

 

Na volta, quando a irlandesa abre a porta do jipe, um babuíno aparece do nada e salta para dentro. Numa fração de segundos, pega um saco com um pacote de bolachas e foge.

 

Ele então leva o saco ao pé de uma árvore e, rapidamente, tira a bolacha de dentro.

 

Sobe a árvore e, no topo, em vez de rasgar toda a embalagem de plástico, abre só a parte de cima, de modo que ela não se desfaça. E assim ele come as bolachas tranquilamente, pegando-as uma por vez.

 

Observava aquela cena admirado, custando a acreditar que aquele banuíno tivesse pego o saco com a bolacha e não as máquinas fotográficas ou uma bolsa cheia de dólares que estavam ali ao lado. Afinal, aquele animal parecia tão humano!

 

***

 

Chegamos ao topo do morro que rodeia a cratera.

 

A visão é espetacular: 700 metros abaixo de nós, avista-se uma imensa pastagem verde e plana, com um lago brilhante ao centro.

 

A cratera é tão ampla que é possível ver, dentro dela, áreas onde chove e áreas banhadas pelo sol.

 

Começamos a nossa descida.

 

Conforme nos aproximamos da cratera, vemos abaixo centenas de pontinhos pretos bastante próximos uns dos outros, e, mais adiante e igualmente numerosos, pontos alaranjados e acinzentados.

 

“Aqueles pontos são animais”, diz-nos Henry, o nosso guia.

 

Quando nos aproximamos mais, confirmamos: incontáveis gazelas, zebras e bisões se espalham pelo horizonte.

 

***

 

Depois de vermos, além das gazelas, zebras e bisões, chacais, rinocerontes, antílopes, elefantes e flamingos, fazemos uma parada para o lanche perto de um lago cheio de hipopótamos.

 

Henry nos avisa: “Se quiserem, vocês podem ir à beira do lago para tirar fotos. Mas só comam dentro do jipe”.

 

Um dos rapazes finlandeses desce do carro.

 

Dá alguns passos e solta um grito.

 

Olhamos assustados: um gavião o sobrevoa carregando um sanduíche.

 

O finlandês mostra uma das suas mãos, que, cortada pelas garras do pássaro, sangra. Distraído, ele não ouvira a recomendação do nosso guia.

 

Felizmente, o corte não foi profundo e, desinfectado o local, prosseguimos.

 

***

 

Estamos mais uma vez no meio das imensas pastagens naturais de Ngorongoro.

 

A cratera é auto-suficiente: há comida e água para os animais o ano inteiro, mesmo durante o perído seco.

 

Por isso, conta-nos Henry, os animais que estão aqui dentro jamais precisam sair. Se bem que, mesmo que quisessem, não poderiam, já que as paredes do antigo vulcão que  rodeiam a cratera são muito altas.

 

“Mas se os animais não conseguem sair da cratera, como eles vieram parar aqui?”, pergunto – afinal, parecia-me impossível que um hipopótamo escalasse uma montanha.

 

 “É um mistério”, diz Henry.

 

***

 

Ao longe, Henry avista com os binóculos sete leões adultos – seis fêmeas e um macho.

 

“Sete??”, espanta-se o irlandês.

 

“Sete”, responde Henry. “Os leões costumam caçar em grandes grupos, e acho que esses estão se preparando para atacar.”

 

Todos no jipe vibramos.

 

***

 

Os leões, outrora tão distantes que sem os binóculos eram quase invisíveis, agora estão a menos de 200 metros de nós.

 

Eles caminham devagar, param, caminham mais um pouco, sentam-se. E assim ficam longos minutos, até se levantarem e repetirem todo o ciclo.

 

“Eles fazem isso para não espantar as presas”, diz Henry.

 

Passados 30 minutos desde que os acompanhávamos, os sete leões estavam a menos de 100 metros de nós.

 

Alertados pelo rádio por nosso guia, os outros dois jipes na cratera estacionam ao nosso lado para assistir ao que estava por vir.

 

***

 

À nossa direita, a pelo menos 100 metros dos leões, umas 30 gazelas observam o movimento dos seus predadores completamente petrificadas.

 

A cena chega a ser cômica: elas vêem os leões se aproximarem e, como se tomadas pelo terror, não movem sequer as orelhas.

 

Por que não fogem? Por que esperam que os leões cheguem tão perto que escapar será impossível?, pergunto-me.

 

Talvez porque elas saibam que os leões não estão de olho nelas, mas sim em três búfalos que se desgarraram da sua enorme manada, a uns 300 metros à nossa frente, e pastam despreocupados bem à esquerda dos jipes – é para esses três búfalos que os leões olham fixamente.

 

Os leões continuam a se aproximar dos búfalos.

 

Agora, a uns 20 metros de nós, seis leões formam uma linha de ataque, enquanto uma leoa atravessa a estrada entre os jipes e, fazendo um círculo, prepara-se para chegar aos búfalos por trás.

 

A estratégia é clara: a leoa assustará os búfalos de modo que eles corram na direção dos outros seis leões, que estarão prontos para o ataque fulminante.

 

“Preparem-se: teremos ação a qualquer momento”, sussura-nos Henry.

 

Conter a ansiedade é quase impossível.

 

***

 

E de repente a leoa ataca!

 

Percebendo-a, os búfalos fogem apavorados.

 

Eles caíram direitinho na armadilha: correm na direção dos outros leões, que se agacham no capim bem ao lado da estrada.

 

Em fuga, os búfalos chegam à estrada: os dois primeiros conseguem habilmente passar por entre os leões, que, indecisos sobre quem atacar, vacilam e deixam que escapem.

 

Atrás deles vem o terceiro búfalo – o maior de todos.

 

Após passar rente aos dois primeiros jipes e ser atacado por um leão que não conseguiu derrubá-lo, o búfalo corre desgovernado pela estrada.

 

“Ele está vindo para cá!”, gritou o irlandês – e quando você vê um búfalo perseguido por sete leões correr na sua direcão, não importa que você esteja dentro de um jipe: você se apavora e as suas pernas tremem

 

A menos de dois metros de nós, o búfalo é atacado outra vez por um leão, que salta sobre as suas costas. 

 

Mas o leão não consegue se agarrar, e o búfalo deixa-o para trás, quase tirando uma lasca do nosso jipe – sentimos até o seu cheiro.

 

A perseguição continua, e os búfalos estão cada vez mais próximos da manada de que haviam se desgarrado.

 

Até que os leões desistem, já que leão nenhum, mesmo que acompanhado por outros seis, ousaria atacar uma manada de búfalos – a manada inteira uniria-se contra eles, e contra uma manada de 300 búfalos, nem o exército de Napoleão teria chances.

 

“Em 20 anos como guia, jamais vi um ataque de tão perto”, diz Henry, perplexo.

 

***

 

Enquanto recobrávamos o fôlego, conversávamos sobre a cena extraordinária que havíamos presenciado.

 

“Achei que o último búfalo iria bater no jipe!”, diz o irlandês. Eu concordo: “as minhas pernas estão tremendo até agora”.

 

“Acho que se ele nos tocasse o jipe viraria, de tão grande que era”, exagera um dos finlandeses.

 

A conversa prossegue enquanto partimos rumo ao portão do parque – a cena do ataque fora bastante longa, e já era hora de ir embora .

 

Conforme subimos as paredes da cratera, avistamos embaixo um arco-íris completo – vemos com nitidez onde ele começa e onde termina.

 

“Será que estou sonhando?”, diz a irlandesa, maravilhada.

 

“Isso aqui não é o Paraíso?”, pergunta-nos Henry, com um largo sorriso no rosto.

 

***

 

Parênteses: fotografei bastante o parque e consegui gravar a cena do ataque.

 

As fotos e o vídeo serão postados aqui assim que eu me livrar de um problema: a vida nesta parte do globo é tão abundante que se instalou até dentro da minha câmera, na forma de um vírus.

 

Quem sabe eu possa resolvê-lo em Kigali, Ruanda, para onde parto amanhã.

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11 Respostas to “Ngorongoro ou O dia em que sete leões encurralaram três búfalos embaixo do meu nariz”

  1. Putz,até prendi a respiração,só de ler………….imagino vc por aí ao vivo…………
    Senti até o cheiro ,podes crer!!!!!!!!!! e o pó seco!
    parabéns pelo relato,mais real impossivel,só se fosse aí mesmo junto para ser mais real.
    Senti,calor,emoção,medo,o pó,o calor e etc……….
    abraços aventureiros
    sonia

  2. Nossa JOão… até ue fiquei tremendo, rs. Que experiência marcavilhosa. Estou louca pra ver as fotos…

    boa viagem

  3. m.Jo said

    Fantástico, emocionante!
    Adorei! Melhor, só se eu estivesse junto ao vivo.
    Bjks

  4. Ferdi said

    Que sorte tua ter essa experiência Discovery bem aí! Demais o relato, esperamos as imagens! Tudo de bom em Rwanda! Pri

  5. Larissa said

    FOTOOOOOS!!

  6. Este relato apela mesmo à imaginação.

  7. Joyce said

    Que delícia ler essas experiências!!!
    Estou super curiosa para ver o vídeo!

    Boa sorte :)

  8. Tássia N. said

    Menino!!!
    Vc virou repórter da National Geographic Channel??? hehe.
    Ir ao Sudão tudo bem, tá liberado… ficar a dois metros de sete leões não!!! No final do post vc devia ter colocado assim:

    Não tentem repetir isso em casa.

    He he he.
    Cuide-se! Sua trip tá demais ;)
    Beijos

  9. [...] 09/05/2009 Vocês se lembram do dia em que sete leões encurralaram três búfalos embaixo do meu nariz? [...]

  10. karol said

    queria ver videos,aonde acho isso?hoje eu fui no zoo e vi 3 leões e uma leoa.são enormes!

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